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La Bohemie

You Can’t Win, Libertines.

Terceiro dia do Optimus/ NOS Alive

 

Ontem foi o terceiro e último dia da 8ª edição do Optimus / NOS Alive. Como temos vindo a retratar, este foi um ano de transição da marca – o Optimus Alive passará a ser NOS Alive já nos dias 9, 10 e 11 de 2015. Mas iremos ao que agora interessa.

Os The 7Riots são cinco portugueses de Viseu. A banda de hard rock tem como referências musicais Buckcherry, Airbourne, AC/DC, Stone Temple Pilots e Aerosmith e prometeram partir o palco todo. Ou quase todo. Érika Martins (vocalista), Dénis Rhomays (solista), Bruno Miranda (guitarra), Ziig Bass (baixista) e Júnior Brito (baterista) juntaram-se definitivamente em 2013 e têm ganho vários concursos de novas bandas. Estrearam-se ontem no Optimus NOS / Alive e foram a primeira banda a subir ao Palco Heineken.

Menos de uma hora depois, subiu ao palco o vencedor do Hard Rock Rising Lisboa, Tom Mash. O músico, natural de Lisboa, descobriu o seu gosto pela música e partiu para Londres, onde reside actualmente, para perseguir o seu sonho. De pub em pub ou mesmo nas ruas, vai dando a conhecer a sua música e partilhando a sua paixão com o público. Os temas são bastante pessoais e reflectem as suas experiências e vivências gerando empatia com as pessoas.

Um pouco mais ao lado, actuaram no Palco NOS Clubbing os vencedores do EDP Live Bands. Caelum’s Edge formaram-se em 2012 e são uma banda de Rock Espacial do Barreiro. Desde a sua formação têm evoluído bastante no panorama da música nacional, pisando vários palcos do país. Inspiram-se por diferentes estilos musicais e têm adquirido influências de bandas como Angels and Airwaves, Pink Floyd e U2.

A tarde ainda estava a dar os seus primeiros passos, mas uma primeira multidão começou a ganhar forma. You Can’t Win, Charlie Brown foram os primeiros a subir ao Palco NOS para apresentar o segundo LP, Diffraction/Refraction – do qual tocaram «After December», ou «Be My World». Escrito e produzido pelos seis músicos, o disco marca um salto qualitativo em relação à estreia de Chromatic (2011). Estão mais crescidos, conhecem-se melhor e sabem qual o papel de cada um na banda. Parte da identidade do grupo passa pelas harmonias vocais, sobretudo entre Afonso Cabral e Salvador Menezes – piano e guitarra acústica – pontuais melodias de guitarra eléctrica e muitos pormenores com teclados e sintetizadores. Tocaram as músicas «I’ve been Lost», «Over The Sun, Under The Water» e, sem pressas, tiveram tempo para cantar a cover «Heroin» dos Velvet Underground.

Carregados de uma sonoridade soul, os The Black Mamba assumem a sua paixão pela música negra. E negra ficou a coisa quando começaram sem som. Por mais irónico que pareça, as backvocals não se ouviam, os primeiros acordes pareceram distantes e o público chegou mesmo a protestar. Falhas técnicas superadas, Pedro Tatanka, Ciro Cruz e Miguel Casais levaram o público a fazer uma viagem única através da música soulblues egoodold funk, mostrando serem uma banda mais do que sopros e groove. Ainda que não sejam tão venenosos como a cobra africana que lhes dá o nomes, o som de The Black Mamba tem tudo a ver com a música de origem afro-americana, que vai desde os blues, ao funk, ao soul, ao R&B, até ao pop mais negro. O álbum homónimo conseguiu ultrapassar a barreira da banda de versões que compõe originais, sem que com isso perdesse fãs, ainda assim, foi mesmo o single do próximo álbum (ainda a ser editado) que levou o público a dançar e a cantar, não fosse a música «Wonder Why» gravada – e agora cantada – com a artista Aurea depois de terem sentido uma grande química em 2013, quando actuaram juntos no Rock in Rio Brasil. Com várias falhas técnicas ao longo do concerto, a nossa Conchita portuguesa não se deu por vencida e continuou a cantar temas como «If Ain’t You» ou «I’ll Meet You There», mesmo que o som não chegasse ao público.

Apesar do imenso calor e vento que se fez sentir, atravessei o recinto para assistir um pouco a The War On Drugs. A tenda do Palco Heineken estava tão cheia que tive de saltitar entre centenas de pessoas até conseguir chegar a meio. O projecto de Adam Ganduciel surpreendeu e rendeu os fãs. Lost in the Dream é o quarto álbum do músico e tem tudo para ser um dos melhores de 2014. É um disco que leva o rock clássico mais além, sem os artifícios ou as explosões do género, mas que ousa colocar num mesmo conjunto de canções influências que vão desde Bruce Springsteen e Bob Dylan a Spiritualized e Tim Hecker. As músicas do álbum são longas mas não exaustivas. Um acorde simples ganha corpo e transforma a «In Reverse» rapidamente, assim como o violão em «Burning», o órgão em «Red Eyes» e o piano em «Suffering». O disco pode ter nascido sob uma enorme névoa e sofrimento, mas o concerto de ontem suscitou no público o inverso: muita luz e uma boa dose de optimismo.

De volta ao Palco NOS, os britânicos Bastille já haviam conquistado o público. A banda de Dan Smith foi uma das muito desejadas do dia, ao contrário dos cabeça de cartaz da noite. Pela primeira vez em Portugal, apresentaram BadBlood, o disco de estreia. Foi o arranque suficiente para aumentar o ritmo do Festival. São um nome recente no panorama musical, uma banda da moda mas não se deixam cair no ridículo das boysband. Ainda assim, Bastille têm uma legião de fãs femininas que gritam em plenos pulmões, mostram cartazes e fazem pedidos indecentes. O disco é rico em sintetizadores e percussão, mas tornou-se tão pop e comercial que foi o suficiente para apaixonar as centenas de miúdas que foram passear os seus micro calções e botas hipster. Além das versões de «Of The Night», «Rhythm Is A Dancer» e «The Rhythm Of The Night», tocaram as míticas «Laura Palmer», «Things We Lost In The Fire», «Blame» e o single de estreia «Overjoyed», deixando o pior do melhor para o fim. «Pompeii» foi de cortar a respiração. E o som. Salvou o facto do público saber a letra de cor, porque a banda ficou mesmo sem pio. O concerto pareceu incompleto, com uma saída triste e indignada de um vocalista desiludido com as más condições técnicas. Estas que não têm sido uma novidade este ano – todos os grandes concertos sofreram problemas técnicos sonoros. Depois de, em 2011, terem surgido problemas na estrutura do palco principal e terem cancelado concertos, este ano o lado direito do painel protector também caiu e foram mesmo obrigados a baixar o plasma de transmissão.

Tivesse a organização pensado duas vezes e os Foster The People teriam sido os cabeça de cartaz. Sem problemas de som, conseguiram dar um dos melhores concertos do Festival. Também estreantes em Portugal, a banda californiana de indie rock apresentou o álbum Supermodel. Músicas como «Best Friend» e «Coming of Age» foram apenas uma amostra daquele que seria um concerto onde milhares de fãs cantaram e dançaram a suapop cintilante, do início ao fim. Houve tempo para «Houdini» e «Wasted» do primeiro disco, Torches(2011), e «Pumped Up Kicks» ficou reservada para o fim, juntamente com «Call It What You Want» e «Don’t Stop (Color On The Walls)». Boa estreia, bom concerto, bom público, boa banda.

Troquei The Libertines por Daughter e não me arrependi. Quando apanhei ainda três músicas dos cabeça de cartaz percebi que o concerto foi um verdadeiro fracasso. Numa plateia pouco composta, pequenos grupos de estrangeiros dançavam freneticamente acompanhando o som de Pete Doherty e Carl Barat. Sem excessos e bem comportados, mantiveram-se num limbo pouco entusiasmante sem conquistar grandes euforias do público. Já Daughter foram brilhantes. Depois de me ter rendido ao concerto deles em Portugal, em Novembro do ano passado, voltei mas desta vez fiquei quase na primeira fila. A banda britânica sabe como conquistar o público com o seu registo calmo e descontraído. O Palco Heineken estava ao rubro, cheio de fãs e curiosos e, numa mistura de emoções despidas e sentidas dissipadas no calor humano, assistimos a clássicos como «Candles», «Human» e «Youth». A presença humilde e desprendida da vocalista Elena Tonra transmite-nos segurança e doçura, ainda que os seus concertos sejam mais agressivos e dinâmicos que o disco à base de rock. Devido à melancolia das suas músicas, a vocalista é vista muitas vezes como uma pessoa triste, mas o trio – composto ainda por Igor Haefeli (guitarra) e Remi Aguilella (bateria) – desmente esse mito nos concertos, sempre lotados, sempre quentes, sempre mágicos.

Confirmando a ideia de que o Palco Heineken foi a grande escolha da noite, Chet Faker encheu e ultrapassou os limites do palco. Latas de sardinha dentro da tenda, carapaus estendidos no chão a espreitar o plasma de transmissão. Foi este o cenário do concerto do músico australiano que partiu a casa toda com o seu primeiro álbum Built On Glass, onde constam a electrónica de «Blush» e «Dead Boy». O galopante Faker já se tinha dado a conhecer em Lisboa, quando apresentou o seu EP «Thinking In Textures» na discoteca Lux, mas foi através da cover de «No Diggity» que ganhou protagonismo em 2012, música essa que levou centenas de fãs entusiasmados a cantar em plenos pulmões ontem à noite. Deixando um bom legado no Palco Heineken, este foi encerrado com a actuação do músico e compositor nova-iorquino Nicolas Jaar. Reconhecido pelo seu estilo musical contemplativo e emocional, Nicolas Jaar é hoje um dos mais considerados produtores da cena eletrónica norte-americana. O artista de 24 anos apresentou o seu álbum de estreia Space Is Only Noise e encerrou a última noite da 8ª edição do Optimus / NOS Alive.

Quando me perguntaram o que achei desta edição do Festival parei uns segundos e lembrei-me que nós, estando a trabalhar, temos uma perspectiva das coisas bem diferente da dos visitantes. Reparamos em pequenos detalhes de fazem grandes diferenças; apontamos falhas que mais ninguém atenta; criticamos o mínimo, exigimos o máximo. Ainda não me sinto no direito de criticar logísticas e organizações que pouco conheço porque conto ainda poucos meses desde o meu começo. Tudo tem sido uma nova experiência, vivência e aprendizagem na área da música. Mas houve algo de que senti muita falta: a energia de festival. E essa achei-a fraca este ano. Filas intermináveis, não para as casas-de-banho, mas para os espelhos das mesmas. Milhares de miúdos mais preocupados com o estilo e o swag do que propriamente com o que vão ouvir. Demasiadas falhas técnicas a nível de som que não deviam acontecer naquele que é considerado um dos melhores festivais da Europa. Palcos pequenos apenhados de gente, palcos grandes com demasiado espaço. Um palco de comédia num festival onde as pessoas querem é ouvir música, dançar, andar às cavalitas e mostrar cartazes. Algumas falhas no alinhamento do cartaz e na logística das actuações. Foi bom, mas podia ter sido melhor, muito melhor. Para o ano há mais.

 

Texto: Mafalda Saraiva

 

Beijinhos, La Bohemie.