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La Bohemie

Um dia de muito swag, pop e “Rock Your Body”.

Último dia do Rock in Rio Lisboa

 

Quinto dia do maior evento de música e entretenimento do mundo. Último dia da sexta edição do Rock in Rio Lisboa. A Cidade do Rock recebeu 345.000 fãs ao longo destes dias e mais de 2 milhões ao longo de 10 anos. Os The Rolling Stones protagonizaram um momento histórico, abriu-se uma porta para Las Vegas, mas falemos do que se passou por cá.

Quando fui conhecer a Cidade do Rock, no dia da preview à imprensa, assisti ao ensaio de uma banda no Palco Vodafone e comentei «Estes tipos têm pinta», assim que anunciaram ser os Vira Casaca, de Santarém. Pronto, caldo entornado. Tudo o que é do Ribatejo é rotulado como agro-beto. Não vem no dicionário, mas eu criei esta expressão para descever toda e qualquer espécie que veste camisas xadrez e sapatos de vela. Mas a verdade é que os miúdos de betos nada aparentam. Têm mesmo pinta. Vestem jeans, coletes de ganga e sapatilhas da moda, óculos à aviador e cabelos espantanantes.  Afonso, Rafael, Tiago e Verde podem não aparentar serem betos, mas depois tocam músicas como «Betinhas de Santarém» e «Arroz Doce». Valeu-nos o recinto de relva artificial e uma tarde com muito sol.

Quem conquistou o lugar ao sol com apenas 16 anos foi a cantora Kika. Com uma voz grave e segura, improvável para a sua idade, a jovem portuense alcançou o sucesso. E o Palco Mundo – que à execpção de todos os outros dias, começou às 17h30. Francisca Osório de Castro é a mais recente revelação da música portuguesa. Em poucos meses, Kika – como é conhecida desde pequenina – lançou «Guess It’s Alright», o single de avanço do seu álbum de estreia homónimo. Conhecidas são igualmente as canções «Love Life», por causa do dueto com o francês John Mamann e «I Want You Back», uma versão dos Jackson 5, música que encerrou o seu momento de fama.

Mas voltemos ao Palco Vodafone. Depois te terem pisado ontem à noite pela primeira vez o Palco Mundo, numa homenagem a António Variações, os Linda Martini actuaram hoje em nome próprio às 18h00. A banda, que inclui punk, rock, metal e pós-rock instrumental no lote de influências, já passou pela maioria dos maiores festivais de música, juntando agora o Rock in Rio Lisboa. Cumpriram dez anos de existência em 2013 com o álbum «Turbo Lento» e hoje o alinhamento foi o de um festival de Verão, com inclusão de temas dos álbuns mais recentes e dos registos mais antigos.

Pelo mesmo palco passaram às 20h00 os britânicos Bombay Bicycle Club. Composta por Jack Steadman (vocais, guitarra, piano), Jamye MacCol (guitarra), Suren de Saram (bateria) e Ed Nash (baixo), a banda de indie-rock e indie-folk já conta com um repertório de quatro álbuns.  Lançado ainda este ano, o disco SoLong See You Tomorrow – com os singles «Carry Me» e «Luna» – afasta-os das sonoridades indie-rock que os caracteriza e marca a viragem para uma vertente mais electrónica do grupo. Vêm do Norte de Londres, nasceram sob o título The Canals, mas o que marca os Bombay Bicycle Club é a intenção e capacidade de se reinventarem a cada disco. O primeiro álbum foi claramente direccionado para os apreciadores do indie-rock mais puro, o segundo recebeu inspiração da música folk e o terceiro já mostrava influências da música de dança.

De volta ao Palco Mundo, João Pedro Pais e Jorge Palma actuaram juntos às 18h45. Ambos já tinham marcado presença no Rock in Rio Lisboa em edições anteriores, mas desta vez foi diferente. Lembro-me de ver o João Pedro Pais no Rock in Rio Lisboa, em 2004. Eu era uma miúda, ele demasiado romântico e kitsch. Agora está mais maduro, mais rock, mais entregue, mais intenso. Começou com «Fora do Vulgar», «Não Há», «Havemos de Lá Chegar» e «Ninguém é de Ninguém». Pelo meio, muitos riffes de guitarra, muitas palmas, muitas fãs histéricas. João pede ao público para «Serem felizes. Façam o favor de serem muito felizes». Orgulhoso por partilhar connosco o facto do seu concerto ser transmitido em directo para as principais estações de rádio, partilha o palco com Jorge Palma, que se senta ao piano, e seguem-se músicas conhecidas como «Frágil», «Estás à Espera de Quê» e «Encosta-te a Mim». A dupla confirmou como há pessoas que sabem aproveitar o passar dos anos e despedem-se com «Mentira», «Mais Que Uma Vez» e «Nada de Nada», com João Pedro Pais a despedir-se proferindo novamente «Façam o favor de serem felizes. Com a vossa família, com os vossos filhos. Hoje é Dia da Criança, lembrem-se de cuidar bem das vossas».

«Hoje é o dia do swag, toca o Mac Miller», ouvi enquanto me dirigia para o próximo concerto. «Quem é Mac Miller?» perguntou o rapper assim que entrou no Palco Mundo. Com o cancelamento do artista Nile Rodgers e da banda CHIC, o rapper norte-americano de apenas 22 anos Mac Miller subiu ao Palco Mundo às 20h15 acompanhado pelo seu DJ Clockwork. Reconhecido pelo seu talento como freestyler, Miller é também produtor musical, sob o pseudónimo de Larry Fisherman, e o seu ater ego Larry Lovestein dedica-se ao Jazz. Toca guitarra, piano, baixo e bateria e as suas grandes influências musicais são Big L, Lauryn Hill, Outkast e A Tribe Called Quest. Lançou em 2010 a compilação K.I.D.S e, desde então, tem esgotado quase todos os seus concertos. Miller admitiu que a grande estrela da noite era Justin Timberlake e que ele próprio iria assistir ao seu concerto, mas nem por isso deixou de conquistar o coração do público português, maioritariamente adolescente e amante da vertente hip-hop. E para um dia de swag, Mac Miller mostrou que também aderiu à moda, não tivesse ele momentos próprios da sua idade, como o excesso de vernáculo, falar de costas para o público e ainda usar um chapéu de marinheiro. Já sabem, se publicarem fotogafias do rapper no Instagram, não se esqueçam da hashtag #swag.

Como aperitivo para a tão esperada cabeça de cartaz da noite, Justin Timberlake, actuou no Palco Mundo às 22h00 a britânica Jessie J. Depois de ter marcado presença no Rock in Rio 2013, no Rio de Janeiro, é a vez da Cidade do Rock em Lisboa receber a artista que lançou recentemente o seu segundo álbum de originais, Alive. Quem esperava que a querida Jessie aparecesse de cabelo rapado, iludiu-se, porque agora tem cabelo curto preto. Para quem também esperava que aparecesse vestida, iludiu-se novamente, porque surpreendeu-nos apenas com uma parte do vestido. E depois dizem que as miúdas de hoje em dia vão quase nuas para as discotecas. Modas. Jessie Ellen Cornish, de 26 anos, entrou em grande no palco e soube entreter o público do início ao fim – «Das primeiras às últimas filas, nunca vi uma plateia tão envolvida num espectáculo», partilhou connosco. Costumo dizer que para grandes e perfeitas  performances existem os DVD, em palco os artistas têm de saber interagir com o público, é assim que o convence. E a Jessie soube aproveitar o seu carisma pop para levar mais de 80.000 fãs ao auge do histerismo. Deu protagonismo às meninas do coro, desceu várias vezes até ao público enquanto cantava a «Who You Are», intimidou seguranças, limpou lágrimas de um fã que chorava emocionado, deu autógrafos, cantou e dançou várias músicas com um cachecol de Portugal ao pescoço e ainda acenou à actriz Daniela Ruah que dançava descalça com uma enorme bandeira portuguesa. Ainda no início disse confiante «Quando lancei o meu primeiro disco, o Justin Timberlake disse que eu era uma das melhores cantoras do mundo, e vocês não podem imaginar como isso foi importante para mim», cantando a «Nobody´s Perfect». Podemos, querida Jessie, podemos. Despois de «Domino», o público ganhou ânimo, culminou em êxtase com «Price tag» e as músicas «Calling All Hearts», «It´s My Party» e «Sexy Lady» revelaram-na como uma sofistificada pop dançável, não deixando margens para dúvidas: Jessie tem uma das melhores vozes do mundo. E o corpo (o micro-vestido também era giro). A artista afirmou sermos um público formidável e que muito dificilmente terá de novo uma plateia tão preenchida.

Minutos para descansar até à chegada de Justino, como é carinhosamente chamado, não faltaram t-shirts do cantor ou cartazes dirigidos ao ex-N Sync. Estreante em Portugal, Justin Timberlake veio até ao Rock in Rio Lisboa apresentar a aclamada digressão ‘The 20/20 Experience World Tour’ – que assinalou o seu regresso às canções – a uma plateia com 85.000 fãs. Num espectáculo desenhado ao milímetro e ao segundo, Justin surgiu do chão e arrancou com «Pusher Love». Foi o suficiente. Os fãs gritavam histéricos, acendiam leds, tiravam fotografias, filmavam. Creio que o espectáculo poderia ficar por ali que seria suficiente para quem veio vê-lo. Timberlake é um dos melhores performers do mundo e apesar de nunca ter perdido aquela voz de miúdo, faz-se acompanhar pelos Tennesse Kids e dança como ninguém. Êxitos como «Cry Me a River», «Mirrors», «My Love», «Rock Your Body», «TKO», «Whats Gone Around» e «Sexy Back» deixaram o público a cantar em plenos pulmões e a explodir de emoções, havendo ainda tempo para um homenagem a Michatel Jackson com a canção «Human Nature». Não tão comunicativo como Jessie, Justin também deixou umas palavras queridas: «Oh Portugal, eu também vos amo. Vocês são lindos. Tenho de digerir este momento. Só os portugueses conseguem fazer isto. Estamos muito contentes por estar aqui em Lisboa». Por vezes parece que dizem o mesmo a todos os públicos, mas tenho de admitir, nós somos os melhores, somos acolhedores e gritamos com a maior das euforias. «Until The End Of Time» mereceu mesmo um momento com milhares de telemóveis acesos e leds cintilantes, iluminando o Parque da Bela Vista.

Cinco dias que me deixaram sem voz, mas muito feliz. Como diria o outro: «Foi bonita a festa, pá». Para o ano vamos a Las Vegas.

 

Texto: Mafalda Saraiva

 

Beijinhos, La Bohemie.