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La Bohemie

Trivial Pursuit e outras trivialidades.

Sempre que há almoços ou jantares lá em casa já sabemos que isso é sinónimo de muita comida, bebida e jogos. Há três anos que nos habituámos a levar uma garrafa de vinho numa mão e um jogo de tabuleiro na outra. No início cingíamos apenas ao Singstar e a jogos de mímica, os nossos preferidos. Como vínhamos do teatro, a nossa diversão passava essencialmente pelos sketches, os teatrinhos e vídeos caseiros que nos valiam tantas e muitas gargalhadas no jantar seguinte. Depois aumentámos a fasquia e passámos aos jogos de tabuleiro, com equipas e regras a sério.

Ora, eu tenho um grande problema com jogos. Primeiro, nunca entendo as regras, depois, detesto perder. Não tenho mau perder, só não gosto que os outros ganhem. Desde pequena que me habituei a jogar ao Monopoly, às Damas e ao Jogo do Ganso com batota. Se não houvesse batota, não tinha tanta piada. Pois diz que tudo isso acabou para todo o sempre. A primeira vez que me ensinaram a jogar Poker, com amendoins, comi-os todos e fiquei sem fichas de aposta. A primeira vez que joguei ao Risco, fui atacada em duas jogadas e fiquei sem exércitos e países. A primeira vez que experimentámos o Cluedo, as regras foram mal interpretadas e eu, já exasperada com um jogo que não me fazia qualquer sentido, apostei ao calhas o assassino, a arma e o local do crime e ganhei. Ganhei! Eu ganhei um jogo mesmo antes de perceber como se jogava. Ainda hoje recordamos esse momento tão bonito.

O problema dos jogos são as regras. Nem sempre as interpretamos de forma igual e depois cada um tem as suas. O meu problema é mesmo nunca entendê-las. Tenho de jogar para perceber a dinâmica do jogo. Mas se sou viciada no Party and Company e no Pictionary, não posso dizer o mesmo do Trivial Pursuit. Eu sou uma nódoa no Trivial. Desde que me lembro que ganho sempre, mas sou uma verdadeira nódoa no Trivial. Ora, eu sou péssima com: datas, mandatos de reis e rainhas; nomes de músicas, bandas musicais e respectivos managers; nomes de rios, serras e planícies; nomes de filmes, actores e realizadores... eu sou péssima com todas as categorias do Trivial. Ontem, quando decidimos jogar, pedi de imediato para ser em equipas. «A sério, não me façam passar vergonhas. Eu sou uma nódoa com este jogo, preciso de parceiros.» Se tenho uma sorte com o lançamento dos dados, não tenho com as perguntas. Sei sempre as respostas da equipa adversária, mas quando calha a minha vez fico a olhar para o tecto à espera que Nosso Senhor me dê um palpite. Quem me conhece sabe que sou pessoa de ler muito, procurar respostas ao que não sei e fazer de tudo para compreender o que me anda a remoer na cabeça. (Ainda ontem um amigo escreveu uma frase na ardósia da porta de minha casa e assim que a vi disse «Este verbo está mal conjugado». Ele havia garantido que tinha confirmado no google e eu tinha a certeza absoluta que o verbo estava mal conjugado e só ao fim de três horas consegui provar que estava mesmo incorrecto.) Ora, a minha sorte no Trivial vem dessa minha procura constante e é por isso que ganho sempre o jogo. Não que eu seja assim tão culta, porque sei que não o sou, mas porque tenho uma memória visual apurada e lembro-me de muitas situações da minha vida. E ontem comprovei isso. Se falhámos as primeiras perguntas, soubemos aguentar sete ou oito jogadas sem falhar ao longo do jogo. «A Mafalda está ali caladinha a comer milho torrado, nem sequer ouve as perguntas, mas responde a tudo», disse a Carina. Não me lembro de todas as perguntas, mas sei que nos calhou uma sobre o Arquipélago das Berlengas. Ora, eu nunca fui às Berlengas. Os meus pais dizem que sim, mas eu não me lembro. E por essa mesma razão há pouco tempo falei com eles sobre isso e fiquei a saber tudo sobre as Berlengas. Ontem acertei na resposta. Calhou uma pergunta que questionava o facto da modalidade de esgrima ser apenas permitida a homens. E eu lembrei-me de uma notícia muito falada nos últimos Jogos Olímpicos sobre uma muçulmana não ter autorização para participar por causa do uso da burka. Por isso acertei. Calhou também uma pergunta sobre o autor de dois livros. E curiosamente tinha partilhado um deles, «Terna é a noite», há duas semanas no meu Instagram e lembrei-me do F. Scott Fitzgerald. Perguntaram qual das cidades brasileiras tinha sido construída em menos tempo e lembrei-me de ler muito sobre Brasília quando fui viver para o Brasil. Também surgiu uma pergunta sobre a nacionalidade de um piloto com um apelido italiano. Por acaso vivi no Rio Grande do Sul e lembrei-me que é o Estado com a maior colonização de italianos, por isso o piloto só podia ser brasileiro. Quando nos perguntaram qual o nome de um actor musculado, o André sabia quem era, mas não se recordava do nome. Falámos dos três mais famosos, ele referiu os filmes onde este mesmo actor entrava e chegámos ao nome. Também se interrogava a que modalidade pertencia a vela, o pólo, o remo e o slalom. Naturalmente pensamos de imediato que pertence a qualquer coisa aquática, mas pedi que seguissem a lógica. O que existia em comum entre todos eles? Um barco, certo? Se substituirmos barco por canoa, chegamos à modalidade canoagem. Perguntaram que símbolo tinha sido derrubado em 1989. Sem pensar sequer no que me havia sido perguntado, respondi o Muro de Berlim porque é das poucas coisas históricas que associo ao ano em que nasci. É assim que jogo ao Trivial quando não tenho a certeza de datas ou nomes técnicos, vou pela lógica, referências e memória visual. Todos nós temos o nosso ponto forte, a categoria que mais gostamos e que mais nos interessa, mas nem sempre esse facto nos ajuda na hora de responder. Podemos ser muito bons em Cinema e falhar-nos o nome de um filme ou de actor e realizador. Podemos ser muito bons em Teatro e falhar-nos um autor ou uma obra. Muitas vezes temos a resposta debaixo da língua e só nos sai disparates, outras achamos a pergunta tão difícil e até sentimos vergonha quando percebemos que a resposta era tão básica. Por isso é que acho o Trivial dos jogos mais interessantes porque eu posso ser uma nódoa em todas as categorias, mas lembro-me de coisas e associo-as a outras que nem o diabo se lembraria. Ainda ontem se discutia a quantos dias correspondia oito meses de gravidez. Faziam-se contas na calculadora, faziam-se multiplicações de cabeça e eu, péssima a matemática, comentei «Mas eu nem sequer sei a tabuada dos quatro, acham que consigo fazer essa conta?» A Carina lembrou-se de ler um dia que o oitavo mês era o mais perigoso de gestação e que isso correspondia mais ou menos a 280 dias. Acertou. À noite a Marta comentou que sentia ter uma barriga de sete meses e eu respondi logo «Isso são 240 dias».

Por isso, cada vez mais acho que o facto de sermos uma enciclopédia de pouco nos serve se não soubermos desfrutar dela. É bom sabermos muito, mas mais importante é aprendermos a viver de forma a sabermos sempre mais e melhor. Quanto mais não seja, para termos boa histórias para lembrar e partilhar.

 

Beijinhos, La Bohemie.