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La Bohemie

The Legendary Tigerman, o tigre que rosna rock .

The Legendary Tigerman em Setúbal

 

Pensou em acabar  depois da primeira tournée, mas um concerto especial salvou-lhe o projecto e não desistiu. As lendas nunca desistem e o mais recente álbum True é a prova de que o Homem-Tigre continua a rosnar o rock´n´roll. Ontem foi a vez do Auditório Municipal Luísa Todi, em Setúbal, assistir ao concerto do grande e lendário The Legendary Tigerman que continua a fazer aquilo que começou há mais de uma década. Vestido de preto, guitarra ao peito, um microfone, o pé a marcar o compasso e «Gonna Shoot My Woman» do álbum Naked Blues fez as honras da noite. Muda para dois microfones e os assobios do público denunciaram de imediato o primeiro single de True, a doce e delicada «Do Come Home», acompanhada com o vídeo original projectado no pano de fundo. Sentado e diante desta vez de três microfones avisa o público que pode dançar ao ritmo de «Walkin Downtown», do disco Masquerade.

Paulo Furtado já é conhecido pela sua incrível e invejável capacidade de coordenação. Divide-se muitas vezes sozinho entre guitarras, bombo e kazoo, misturando o rock e a electrónica. E foi nesta constante troca de guitarras que entrou pela primeira vez Paulo Segadães, o baterista que acompanha Tigerman na nova tour e a quem foi pedida uma salva de palmas. Na «Wild Beast», nova amostra do último álbum, o músico mostra-se mais livre para experimentar e brincar com as músicas e descobrir-lhes um novo recanto e encanto, não fosse esta uma canção acompanhada com o seu riff de chumbo servido sobre a estrada numa noite perdida. A presença e entrega de Segadães também foi evidente, nomeadamente na poderosa «Storm Over Paradise», altura em que foi pedido uma vez mais ao público para se levantar. Entusiasta do Super 8, Paulo Furtado compara a imagem com a sua música e «Naked Blues», que dá nome ao seu álbum, foi acompanhada pelo videoclip realizado pelo fotógrafo André Cepeda. De volta aos três microfones, o público acompanhou a percussão de «Crawdad Hole» com palmas e ao som de «& Then Came The Pain», recordando Femina, já se encontrava mesmo de pé a dançar perto do palco. E foi numa alucinante dança que Tigerman apresentou o segundo single da noite, «Gone», o retrato de um álbum sem filtro ora festivo ora sombrio.

«A música que escrevi para o meu último disco e na loucura não coloquei no último disco», lamenta o músico que apresentou a inédita e amorosa «A Lifetime Of Your True Love», uma música sobre uma mulher que antecedeu a explosiva «Twenty Fligh Rock», versão de Eddie Cochran, onde numa miscelânea de guitarradas explosivas e gritos medidos, Legendary Tigerman mostra porque é considerado por muitos como um dos melhores artistas nacionais. O artista faz questão de viajar por todos os seus álbuns e recorda as saudades que tem de interpretar «Hey, Sister Ray», também do álbum Femina, com Rita Red Shoes. Ainda do mesmo disco, «These Boots Are Made For» e «The Saddest Thing To Say» com a presença virtual de Lisa Kekaula. Perdido em danças frenéticas, Paulo Furtado de guitarra na mão e Paulo Segadães a marcar a percussão triunfaram com «Dance Craze» e «Bad Luck R´N´B Machine», a entrada ideal para o arrebatador prato principal «Bad Luck R´N´B Machine» que acabou com a deliciosa sobremesa  baby, baby, baby  em forma de refrão numa troca de duetos competitivos entre o músico e o público.

Como quem anuncia o fim do concerto em Setúbal, «Big Black Boat» é uma música sobre barcos milagrosos que podem levar-nos a sítios maravilhosos. O kazoo imitou a partida de um barco no rio Sado e a vertigem acelerou-se até ao final com a mítica e estrondosa «21st centuary Rock´N´Roll», um rock frenético e descontrolado que levou Paulo Furtado a subir para a bateria e a cair de joelhos no chão, como quem agradece a uma imagem divina.

Mas o público sabe bem quem é a Lenda e depois de ter aplaudido exaustivamente Furtado e Segadães, pediu mais. Tigre voltou sozinho com dois encores. «Love Ride» tem cordas sincronizadas novamente com um vídeo que percorre uma longa estrada iluminada por raios de sol. Ficou a faltar a «Green Onions» com a presença e contributo das mãos de Filipe Costa, mas a «She Said», original de Hasil Hadkins, compensou e completou a celebração do rock hedonista. Se no último trabalho Femina, Legendary Tigerman fez da mulher obra de arte e escreveu serenatas com dotes musicais e visuais, o seu sucessor True é mais rock and roll, com momentos tranquilos de blues e talvez a mais completa de todas as suas obras. «True assenta na verdade artística e musical que o alimenta. True é a evolução de um género musical que lhe está na pele, nos ossos e na alma. True é verdadeiro.»

 

Texto: Mafalda Saraiva

 

Beijinhos, La Bohemie.