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La Bohemie

Tens de largar a mão.

Uma vez a minha irmã disse-me que é incrível como tenho sempre azar com técnicos de mudanças e de instalações de telecomunicações. E começo a achar que é mesmo verdade. Ou então sou só eu que sou demasiado simpática e prestável. E há pessoas com tão má vontade que fazem-me sentir mesmo boa pessoa. E eu sou má!

Há seis anos que mudo de casa e com a experiência da coisa fui percebendo que a forma mais fácil de não estragarem nada é empacotar tudo. Eu empacoto tudo com o maior cuidado, sejam electrodomésticos, sapatos, objectos de decoração, livros, utensílios, bijutaria ou loiça de cozinha. A única coisa que guardo em malas e sacos é a roupa, de resto vai tudo dentro de caixas. Os móveis, como são da Ikea, vão desmontados e guardados nas respectivas caixas. Eu sei, ninguém tem pachorra para fazer o que faço, mas isto são muitos anos a virar frangos e sei que poupo muitas horas na mudança (porque é mais fácil de transportar e amontoar na carrinha) e ao poupar tempo, poupo dinheiro. Já sabemos que as mudanças são coisa para durar muitas e longas horas. Ora, como está tudo em caixas, costumo ajudar a transportá-las para a carrinha. Se há coisa que detesto é ver os outros a trabalhar e eu a olhar para o ar, mesmo tendo contratado alguém para fazer o trabalho chato e pesado. Por isso, ajudo na medida do possível. Transporto as caixas que consigo e que a minha (pouca) força me permite. Uma vez um senhor das mudanças veio agradecer-me o facto de guardar tudo em caixas bem seladas. Comentou que a maioria das pessoas atira com tudo para dentro de sacos ou caixas abertas sem pensar que o transporte das mesmas as pode danificar e que depois a responsabilidade é deles. Pois, bem sei o que a casa gasta, mas também sei o azar que tenho tido com a má vontade destes senhores.

 

Costumava fazer as mudanças sempre com o mesmo senhor. Ele já nos conhecia e eu tinha confiança nele. Mas da última vez, abusou da confiança e nunca mais lhe liguei. Primeiro levou um primo para o ajudar, mas fazia menos do que eu. Chegou a dizer-me que se recusava a levar uma caixa de livros porque estava pesada. Pois, se fosse leve não o tinha contratado. Depois pediram-me água. Ora, eu estava em mudanças e já tinha os copos todos guardados e o frigorífico desligado. Disse-lhe que só tinha duas garrafas, uma para mim, outra para a minha Mãe, para a viagem à noite porque ainda ia para o Algarve nesse mesmo dia. Disse que não conseguia trabalhar com sede e que não tinha trazido água. Acabei por lhe dar as duas garrafas, naturalmente, mas não gostei muito da atitude de «Se não tiver, não faço». A última gota de água que me fez explodir e começar a chorar já de exaustão foi mandar a boca que eu tinha era de seguir o exemplo de senhora minha Mãe e carregar mais caixas para ganhar músculo. Não bastou querer chamar-me de magra e sem corpo, ainda teve de me atirar à cara que estava a carregar poucas caixas? Mas afinal quem é que tinha contratado quem? Já no final, começou a refilar que eram muitas coisas e que não fazia uma futura mudança connosco. Eu passei-me dos carretos e senhora minha Mãe quase que se sentiu ofendida. A sério, sejamos honestos. Eu vivo sozinha, tenho o básico, os móveis vão desmontados e não vivo propriamente numa casa de três andares. Se aquilo era considerado muito, que raio de mudanças costuma o senhor fazer? Nunca mais lhe liguei.

 

Mas também não tive muita sorte com os senhores da última mudança que fiz para a casa onde moro agora. Se eu estava cheia de vontade de mudar tudo depressa, eles não tinham assim tanta adrenalina quanto isso. Ou então estavam com ideia de me dar a volta e fazer render o peixe. Primeiro pedi apenas para terem cuidado máximo com as paredes. A casa tinha acabado de ser pintada de branco há poucos dias e não me apetecia estragá-las logo. Torceram o nariz e disseram que não me podiam garantir isso como se fosse um pedido quase impossível. Depois era um rodopio de chamadas ao telefone e idas ao quarto de banho, enquanto eu e a minha irmã carregávamos caixas atrás de caixas. Eu tinha acabado de ser operada ao ombro e fazia mais do que eles juntos. Certa altura, cansada e com dores, sentei-me à porta de casa a descansar e pedi à minha irmã para sossegar também um pouco. Bem, isso não durou muito mais de cinco minutos. Os técnicos olharam para nós com um ar tão ofensivo como quem diz «Está aqui o preto a trabalhar e as dondocas a descansar» que até perguntei admirada à minha irmã «A sério, isto acabou de acontecer? Será que todas as pessoas ajudam assim nas mudanças como nós?». A minha irmã riu-se e disse logo que não, que se estavam a pagar, não tinham nada de ajudar, mas nem isso me fez sentir melhor.

 

Um dos meus muitos outros azares acontecem com os técnicos de instações de telecomunicações. O primeiro, da Zon,  fez furos ao disparate e sujou cortinados e poltronas sem o mínimo de preocupação. O segundo, do Meo, chegou ao cúmulo de me dizer que eu tinha de arrastar os móveis dos livros para ele poder chegar à conchichina. Disse-lhe logo que não tinha força para isso e que teria de ser ele a fazê-lo. Mas estes tipos não deviam vir preparados com tudo? Com escadote e ajuante? Tenho mesmo de ser eu a arrastar um móvel três vezes mais pesado do que eu? Há dois meses, enquanto um técnico cortava e ligava cabos, o outro brincava com o meu disco externo. «Que capacidade tem? Foi caro? Onde comprou? Também preciso de um. Este parece ser bom» e eu feita parva a responder a um interrogatório como se estivesse numa audiência de tribunal. Hoje foi o técnico da Vodafone que me ligou de um telemóvel do Meo e, como não atendi, começou a protestar que eu não tinha atendido a chamada e que estava incontactável. Depois precisava de um escadote... depois tive de tirar vinte e um pares de sapatos de cima de um armário que ele precisava de arrastar... depois qualquer dia perco a paciência e mando esta gente às urtigas até aprenderem que quando uma pessoa dá uma mão não devem exigir logo o braço. 

 

Beijinhos, La Bohemie.