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La Bohemie

Tatuar a pele é como pintar a alma.

Uma das maiores provas de admiração que podemos nutrir por um tatuador é confiarmos-lhe o nosso corpo. Despimo-nos de preconceitos e a pele assume-se como tela branca a suplicar cor. Um corpo tem necessidade dos seus membros; uma arte, dos seus instrumentos. E no momento em que o todo é criado, são também criadas as respectivas partes. Tatuar o corpo é uma arte que nasce das mãos de um artista e morre connosco. Tatuar a pele é como pintar a alma. A pintura ultrapassa todas as outras obras humanas, por causa das subtis considerações que implica. Os olhos, a que chamamos os espelhos da alma, são o meio principal através do qual o sentido central consegue apreciar mais completa e abundantemente as infinitas obras da natureza. O ouvido, o segundo, uma vez que adquire dignidade ao ouvir as coisas que os olhos viram. A mente de um pintor deve assemelhar-se a um espelho, que toma sempre a cor do objecto que reflecte e está completamente ocupado por imagens.

 

 

A primeira tatuagem que o Sérgio me fez foi uma frase minha. «Nada é o que nunca foi». É uma frase que me obriga a ser ponderada, a reflectir e não agir de cabeça quente como faço quase sempre. É uma frase que me lembra todos os dias quanto me corrói o orgulho ou o receio de ser quem sou. É uma frase que me encoraja a querer mais e ser melhor sem deixar que os erros do passado destruam o momento do presente e o caminho do futuro. É uma frase que me lembra que a felicidade saboreia-se aos poucos, os objectivos conquistam-se com determinação e o Amor vive-se quando estivermos prontos para amar e sermos amados. Mas se eu conto uma história com a minha caneta, então ele pode contá-la mais facilmente com o seu pincel de um modo mais completo e de compreensão menos entediante. Se eu disser que a pintura é poesia muda, então ele poderá dizer-me que a poesia é uma pintura cega. Qual destes defeitos é o pior? Ser cego ou ser mudo? Embora o poeta seja tão livre como o pintor na invenção das suas ficções, estas não são tão satisfatórias para o homem como as pinturas. Embora a poesia seja capaz de descrever formas, acções e lugares por intermédio de palavras, o pintor lida com a verdadeira similitude das formas, a fim de as poder representar.

 

 

Eu comunico com as palavras, o Sérgio utiliza a pintura. Desenhar é um meio de comunicação entre ele e os mundos por onde viaja mentalmente. Se a escrita se complementa com a pintura, uma das maiores provas de admiração que nutro pelo Sérgio foi confiar-lhe o meu corpo. Outra vez. A fala ou a escrita permitem-me talvez fazer uma descrição exacta das formas, mas ele pode representá-la de tal modo que pareçam vivas, com as sombras e as luzes que mostram a expressão de um rosto. O que eu nunca conseguirei realizar com uma caneta, ele fá-lo com um pincel. A figura mais admirável é aquela que, pelas suas expressões, melhor expressa a paixão que a anima.

 

 

Leonardo da Vinci fez um dia a representação do Prazer e a Dor como gémeos, porque nunca nenhum deles existe sem o outro, e é como se estivessem unidos de costas com costas, porque são o contrário um do outro. Eu que nunca permiti tatuarem-me imagens de grande dimensão e a cores, mergulhei numa esfera de admiração pelo trabalho do Sérgio nos últimos meses. A sua dedicação, empenho e entusiasmo contagiaram-me. A paixão que o consome cada vez que desenha, pinta e tatua suscitaram em mim uma serenidade que há muito havia perdido. A pintura tem uma superfície plana, tal como o espelho. A pintura é intangível, uma vez que o que parece redondo e proeminente não pode ser agarrado pelas mãos. Passa-se o mesmo com o espelho, com a alma. Se eu sou dona das palavras, o Sérgio é das imagens. E o que mais me fascina nesta sinfonia de palavras e imagens é a miríade de elegantes detalhes sobre pintura, desenho e invenções mecânicas. Agora digam-me, o que está mais próximo do homem verdadeiro? O nome do homem ou a imagem do homem? O nome do homem pode ser diferente em línguas diferentes, mas a sua forma nunca é alterada, excepto pela morte. Tatuar o corpo é uma arte que nasce das mãos de um artista e morre connosco.

 

  

O Sérgio antes de aprender a desenhar, aprendeu a gostar de o fazer. Estudou Artes, tatuou pela primeira vez em 2007 e formou-se em Design Industrial. Recentemente fez uma formação no Piranha Tattoo Studios, em Viseu, mas é no Algarve que desenvolve a sua arte. Tem um espaço a uns metros do mar, um espanta espíritos que me dá cabo dos nervos e uma vontade imensa de fazer mais e melhor.

 

Intagram: @sergiomorais23

Link: https://www.behance.net/SergiodeMorais

 

Beijinhos, La Bohemie.

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