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La Bohemie

Tatuar a alma.

Chamam-lhe vício. Dizem que depois de fazermos a primeira, queremos mais e mais. Há quem jure a pés juntos que nunca fará uma tatuagem. Há quem ache que as mulheres ficam absoluta horríveis tatuadas. Há quem tatue pela importância e significado, há quem tatue por ser tendência. Cada um faz o que quer e bem entender. Eu vou falar de mim porque é a mim que me têm perguntado várias vezes o significado das minhas tatuagens.

Eu sou o tipo de pessoa que sempre disse nunca ser capaz de fazer piercings e tatuagens. Não por ser feio, por doer ou por ser quase para sempre, mas por ter pavor a agulhas. Eu sou o tipo de pessoa que começa a hiperventilar cada vez que tem de levar uma vacina ou tirar sangue. Sou capaz de me partir toda no chão, dar cabeçadas nas portas e esfolar os joelhos sem dar por isso, mas tenho pavor a agulhas. Mas também sou espontânea ao ponto de estar a passear com a minha irmã na rua e dizer «Vou fazer um piercing no pulso, vens comigo?». E foi assim que fiz o primeiro piercing. E depois o segundo. Com as tatuagens já foi diferente. Gostava muito de as ver no corpo dos outros, mas tinha muito receio de as fazer no meu por causa das profissões que havia escolhido. Não me imaginava a ser actriz e jornalista com piercings e tatuagens e se os primeiros podia retirar, as segundas não. Mas mais uma vez, eu sou espontânea ao ponto de estar a passear na Costa da Caparica com um amigo e dizer «Vou fazer uma tatuagem, vens comigo?». E foi assim que surgiu a primeira.

 

 

É talvez a mais especial devido ao seu significado. Fui eu que a idealizei, mas ao fim de um dia percebi que não sabia desenhar um círculo dentro de um triângulo sem ficar torto. Não atinei com os ângulos e um leitor do Twitter acabou por fazê-lo sem falhas. Muitas pessoas dizem que é o símbolo dos Illuminati, mas para mim é um ponto dentro de um círculo dentro de um triângulo. É o meu olho protector. Sou eu, a minha irmã e senhora nossa Mãe. Como tinha dois sinais nas costas, aproveitei o ponto tatuado para representar as três Marias. Quanto ao significado: a tatuagem foi feita na altura em que soube do cancro no estômago da minha Mãe. Estava completamente alastrado e o tratamento ia arrasar com o seu corpo. Fiquei sem chão, sem corpo e sem alma. Eu já tinha sido operada ao colo do útero e a minha irmã esteve internada sem saberem como a salvar. Naquele momento, cheia de raiva com tamanha injustiça, acreditei que precisava de um qualquer amuleto que nos protegesse ou que me desse força. E deu. Tem dado. Apesar de ter passado por tudo outra vez e ter sido operada ao útero, a minha Mãe recuperou igualmente do cancro e eu, mesmo sabendo que é psicológico, gosto de acreditar que tenho um olho protector tatuado nas costas. 


 

A segunda tatuagem também fui eu que a idealizei e escrevi à mão no carro, em cima do joelho no dia em que a fui tatuar. Queria que fosse algo espontâneo, tal como a minha escrita, mas ao descobrir que o meu «f» é a coisa mais feia de todo o sempre, pedi a um amigo canadiano que estava comigo para ser ele a desenhar a letra. Juntámos o meu «i» ao «f» dele e tatuei. O meu pai quando a viu perguntou por que raio tinha tatuado uma mosca no braço, mas eu gosto mais quando me perguntam «If... what?» porque o significado da tatuagem vem precisamente dessa pergunta. Apesar de ainda não ser escritora, acredito que uma das minhas artes é sem dúvida a escrita. E acredito que um dia irei publicar todos os rabiscos que guardo nos meus cadernos Moleskine de capa preta. E se não publicar? E se não chegar a ser escritora como tanto desejo? E se nunca for suficientemente boa naquilo que acredito ser? E se um dia me falha a mão, a criatividade, as palavras e nunca mais escrever uma única palavra? E se a memória me falha e nunca mais for capaz de recordar o que já vivi? E se nunca mais conseguir imaginar o que ainda não vivi? E se me esquecer do meu próprio nome e de quem sou? Pior: e se nunca souber quem realmente sou? Quantos ses guardamos na caixa de Pandora e não agimos, não dizemos, não fazemos? Quantos ses ficam perdidos na garganta, cravados na pele e soltos na cabeça? Quantas oportunidades já perdemos cada vez que nos interrogámos «E se...»? Este «if...» representa todas estas questões e tantas outras. Tatuei no lado direito por ser com esse que escrevo e por ser esse o único que me fará escrever todas as respostas que procuro.

 

 

A terceira é uma frase que escrevo há alguns anos cada vez que me sinto perdida, confusa, abatida. É minha e sempre disse que um dia iria registá-la por me ser tão importante. Idealizei-a como primeira tatuagem, mas dizem que «à terceira é de vez». Tatuei-a no lado esquerdo por ser o meu lado preferido, o lado que considero mais criativo porque faço tudo com o braço esquerdo (menos escrever) e é o lado que associo ao meu fascínio por números ímpares. A frase, tal como está com espaços, tem 23 caracteres. Sim, quem me conhece, sabe que eu fiz previamente esta contagem. Tatuei-a numa zona mais escondida por ser um bocado maior e mais fácil de esconder. Tatuei-a com a fonte writing machine porque sempre tive o gosto pelas máquinas de escrever e ser o único objecto que quero herdar do meu pai - que curiosamente é a única pessoa que nunca me apoiou na escrita. A frase é o que é e o objectivo é não ter uma única conclusão ou interpretação. É uma frase que gosto de descortinar e pensar os seus vários significados. É uma frase que me obriga a ser ponderada, a reflectir e não agir de cabeça quente como faço quase sempre. É uma frase que me lembra todos os dias quanto me corrói o orgulho ou o receio de ser quem sou. É uma frase que me encoraja a querer mais e ser melhor sem deixar que os erros do passado destruam o momento do presente e o caminho do futuro. É uma frase que me lembra que a felicidade saboreia-se aos poucos, os objectivos conquistam-se com determinação e o Amor vive-se quando estivermos prontos para amar e sermos amados. 

 

 

Beijinhos, La Bohemie.