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La Bohemie

À maneira dos Xutos.

Terceiro dia d´O Sol da Caparica

 

Chegou ontem ao fim a segunda edição d´O Sol da Caparica, com o quarto dia dedicado às crianças. Anteontem esgotaram os bilhetes, com 25.000 visitantes no recinto, e o Sol da Caparica voltou a reafirmar que é um festival de peso na oferta nacional. O Presidente da Câmara de Almada, Joaquim Manuel Judas, não se poupou à modéstia e elogiou o fantástico trabalho e empenho depositado num Festival que veio para ficar.

 

Palco Blitz

Todos conhecemos Berg. Foi o incontestado vencedor da primeira edição do popular concurso televisivo Factor X e isso deu-lhe uma visibilidade tremenda. Confesso que fiquei admirada de ver o palco Blitz a abarrotar de pessoas logo no primeiro concerto do dia. Mas a sua carreira já existia e é preciso ter isso em conta. Nasceu em Angola, cresceu no Porto e viveu na Suíça. Fala em português, canta em inglês e arranha versos em francês. Lançou-se a sério na música em Portugal ainda durante os anos 90 e depois passou 14 anos na estrada com Rui Veloso, como membro integrante da sua banda, a quem não poupou elogios durante o concerto. Mas a sua experiência não acaba aí: gravou com gente de renome como Boss Ac, Pedro Abrunhosa ou GNR. A sua experiência é, por isso mesmo, extensa. E foi essa experiência que Berg trouxe para o palco Blitz, assumindo por um lado o seu lado de performer, entregando-se a algumas das canções que o ajudaram a tornar-se vencedor do Factor X, mas também ao seu próprio material, como o que gravou em Berg, o seu mais recente trabalho que inclui sucessos como «Alice» ou «Tell Me». Capaz de navegar os rios que unem a soul ao rock, de alternar entre o português e o inglês, Berg é, verdadeiramente, um artista do mundo. E se dúvidas houvesse, bastou ouvir os milhares de assobios e aplausos durante toda a atuação, no qual o músico se fez acompanhar por uma banda bastante alternativa, com uma baixista e uma guitarrista bastante rouqueiras. Começou o espetáculo a tocar os temas «Somebody Hear Me» e «Tell Me», mas foi mesmo em «Give Me Your Body» e «Make Love To», com o artista Sensi, que as fãs não se pouparam em assobiar, cantar e dançar freneticamente. Como quem anuncia o fim da festa, tocou os temas «Blues» e «Girl» – um tema disco e funky – mas os fãs pediram mais e Berg fez-lhes a vontade tocando a cover «Sex On Fire», dos Kings Of Leon, um tema de reggae e o tema «Chuva», despedindo-se de um público maravilhoso com «Há gente que fica na história. Da história da gente. E outras de quem nem o nome. Lembramos ouvir». Nós ainda iremos ouvir muito (d)o Berg.

Logo de seguida subiu ao mesmo palco outro fenómeno que provoca grande rebuliço nas miúdas do Sol da Caparica. É uma das mais aplaudidas vozes da nova geração de cantautores portugueses, e já tem uma bagagem considerável. Tiago Bettencourt começou por dar nas vistas à frente dos Toranja, grupo que conseguiu um assinalável sucesso e onde o talento de Tiago se manifestou de forma evidente em temas como «A Carta» ou «Laços». Na altura eu devia ter os 14 anos e era completamente aficionada pelo Tiago, e onde Os Toranja tocavam, eu tinha de lá estar. Cheguei mesmo a pedir-lhe um autógrafo e exibi-lo ao mundo como se não existisse mais nada de importante. Por isso eu entendo o fascínio das miúdas de hoje em dia pelo Tiago, mesmo depois do grupo cessar atividades em 2006. Bettencourt escreveu outras cartas e iniciou uma carreira a solo deixando claro que os aplausos com que o público se rendeu aos Toranja não tinham sido obra do acaso: «Canção Simples» veio confirmar essa clareza. Em Fuga e Tiago na Toca e os Poetas foram outros degraus no percurso de sucesso do artista. Neste último trabalho a sua voz encontrou poemas de Ary dos Santos e Florbela Espanca e as vozes de companheiros de aventura como Carminho ou Camané. Novas etapas nesta ida de entrega às canções foram os trabalhos Acústico e o mais recente Do Princípio, cada um deles mais uma válida amostra de um talento que chegou maduro ao palco d’O Sol da Caparica para um espetáculo muito especial, no qual não faltaram os temas «Canção de Engate», «Só mais uma volta» e «Morena». Só faltou mesmo um pouco mais interação com as fãs. Já não sou groupie, já não tenho 14 anos, mas o Tiago será sempre o Bettencourt.

O palco Blitz estava tão cheio que foi difícil encontrar três lugares no meio de uma multidão ansiosa por ouvir um dos nomes que tanto borbulha nos domínios mais urbanos e subterrâneos da música portuguesa. Muitos hip hoppers de renome mencionavam Agir como um valor que não demoraria a rebentar. E bum! Leva-me a Sério, o trabalho que acaba de lançar, parece ser a prova definitiva de que essa ideia tinha plena razão de ser. Não haverá muitos discos recentes na música portuguesa que se possam orgulhar de reunir um leque tão diversificado de convidados como este de Agir: Ivan Lins, Amor Electro, Regula, Blaya, Diana Matos e Pité surgem nalgumas das 19 canções de que se faz esta apresentação que navega pelos ritmos do hip hop, do trap, da soul e do R&B. Agir demonstrou em palco que não é apenas um talento sério em estúdio, como sabe dar um espetáculo pensado ao pormenor, com uma Intro de parar a pulsação, interagindo constantemente com os fãs que o adoram. Sabe comunicar com o público que arrasta em multidões que parecem reconhecer nele uma das vozes das novas gerações. Agir é, sem dúvida, um caso sério. Os temas «Merdas», «Encontrei Dengaz» – cantado com o próprio artista que também passou pelo Festival – e «Como ela é bela» deixaram em êxtase. Aliás, o impacto do single «Tempo É Dinheiro» é a prova disso e foi cantado para finalizar um concerto que tão cedo não será esquecido.

O público do terceiro dia d´O Sol da Caparica esperava ansioso pela última estrela da noite. Um dos prodígios deste Verão: Regula, posiciona-se para ser um dos fenómenos da atualidade. Depois do sucesso do coletivo 5:30, que integrou ao lado de Fred Ferreira e Carlão, apresenta agoraCasca Grossa, o seu novo álbum que surge no mercado de forma independente, mais uma prova da absoluta independência de um artista conhecido por não ter papas na língua e pela honestidade do seu trabalho, ligado às ruas. Casca Grossa sucede a Gancho, o álbum de «Casanova», verdadeiro sucesso de uma geração nascida à margem de playlists ou campanhas de marketing. Regula tem dimensão de fenómeno e foi no palco que provou esse estatuto com temas como «C.R.E.A.M», «Cabeças de Cartaz» e «Solteiro».

 

Palco SIC/RFM

Tito Paris é a verdadeira personificação da alma cabo-verdiana. A sua guitarra ora melancólica ora frenética, a sua voz indolente e o swing com que nos embala fazem dele um dos ícones da moderna música luso-africana, retratista sonoro da ascendência africana, mas também do Portugal cosmopolita e da comunidade cabo-verdiana na diáspora. Em palco, Tito é como que um dínamo que magnetiza as suas audiências com a entrega, a energia e a sinceridade de um grande compositor e intérprete. O espetáculo de anteontem à tarde no palco SIC/ RFM trouxe propostas e tentações para dançar, adaptando ao seu carisma quase todos os géneros musicais cabo-verdianos, enquanto viaja pelos sons de África, Portugal ou Brasil, com o mesmo à vontade e dedicação. Tito Paris levou a sua música feita de balanço africano, poesia cabo-verdiana, sentido universal. Tito Paris, pode dizer-se com justeza, é um dos pilares da ideia de lusofonia que atravessa a música que nasce em Lisboa com tons de África e ambição de mundo. Tocou com os maiores – de Cesária Évora e Bana a Celina Pereira ou até Vitorino – e tem uma carreira absolutamente recheada de triunfos artísticos e de público. Um público que se espalha pelo mundo. O artista que partilhou o palco com o músico Berg no tema «Sodade», trouxe essa vida recheada com o calor de Cabo Verde ao público do festival O Sol Da Caparica, local perfeito para a sua música feita de balanço africano, poesia cabo-verdiana, sentido universal.

Luís Represas é, sem dúvida, um dos maiores cantores portugueses. Tem mais de duas décadas de um percurso que tem recolhido em todos os momentos o carinho do grande público e sido alvo de vários prémios e distinções. Em 2014 quebrou um jejum de cinco anos de gravações e editou o álbum Cores. Para trás ficaram marcos como Luís Represas e João Gil, Ao Vivo no Campo Pequeno, Olhos nos Olhos ou A Histôria Toda, para citar apenas alguns exemplos mais recentes. Para o palco d’O Sol da Caparica, Represas trouxe toda essa história e bagagem e canções que alimentaram paixões e fizeram sonhar muita gente, como os temas «A Hora Do Lobo», «Feiticeira» e «Foi Como Foi».

A estrelinha de Miguel Araújo, ao que parece, não para de crescer. Se há um movimento de reencontro do grande público com as canções em português, Miguel Araújo é, sem dúvida, um dos pontas de lança desse movimento. O músico que integrou os Azeitonas e que colaborou com João Só – com quem editou Não Entres Nesse Comboio Amor – notabilizou-se, no entanto, em nome próprio graças ao impacto de canções cheias de histórias e de sentimentos com que as pessoas se relacionaram imediatamente. Cinco Dias e Meio trouxe «Os Maridos das Outras» ou «Capitão Fantástico», êxitos que o levaram a escrever para outras vozes, como Ana Moura ou António Zambujo, como é o caso do tema «Pica do 7». No último ano editou Crónicas da Cidade Grande, mais um disco, de acordo com o próprio, “de cantigas simples e pequenas histórias”. Voltaram as canções simples, no entanto, a merecer o aplauso efusivo do público e as minhas danças incansáveis.

A enorme e maravilhosa surpresa da noite foi guardada quase para o fim. O novo disco de Batida chama-se Dois – sucessor de Batida (2012) – e é inspirado pela síntese multicultural de Lisboa, os artistas com que Pedro Coquenão se cruza, bem como pelas suas viagens de regresso a Luanda ou de descoberta a Nairobi. Mas Batida já não é simplesmente ponte entre Luanda e Lisboa, entre a tradição e o presente. Abriu-se ao mundo. Dança, diverte, consciencializa, mistura, surpreende. Cruzou os sons de ontem com palavras e ritmos de hoje e daí um novo álbum que foi conspirado na sua garagem durante os últimos dois anos, e inclui uma nova série de colaborações com Spoek Mathambo, Duncan Lloyd (Maximo Park) ou François & The Atlas Moutains. Enquanto nos fala com entusiasmo torrencial do Quénia por onde passou, da Luanda a que sempre regressa, da Lisboa que habita ou das memórias que servem sempre, sempre, de rastilho criativo, Pedro Coquenão toca os temas «Pobre e Rico» e «Tá Doce» que foram bastante aplaudidos na noite de anteontem. Dois é música múltipla e vibrante, riquíssima: impregnada dos sons e das lições que a História legou, mas de pés fincados no presente. Basta ouvir o ritmo quebrado e trepidante de «Luxo», o segundo single, em que Coquenão juntou o sul-africano Spoek Mathambo, o angolano Sacerdote e o inglês Duncan Lloyd – prega-se com humor que, para acabar com a pobreza, melhor será estender o luxo a todos. Pedro Coquenão é um português nascido em Luanda, hábil na mistura dos estilos Kuduro, Benga e Semba. OAfrobeat tomou conta d´O Sol da Caparica e ninguém se mostrou indiferente ao seu trabalho tão diferente dos demais. Ontem à noite no palco SIC/ RFM a festa repetiu-se e Batida apresentou-nos material próprio num espetáculo que envolve outros artistas nas percussões, dança, teatro, poesia, com adereços e artefactos fabricados pelo próprio, contextualizados por imagens de arquivo escolhidas a dedo e outras filmadas, que compõem esta ideia muito própria. É um espetáculo exuberante onde danças tradicionais se tornam balanço muito catual, em que marimbas e máscaras tribais surgem lado a lado com latas de gasóleo, bidões, grades de cerveja angolana. Dançarinos e cantores, festa lúdica e intervenção política. Dois, com subgraves em convívio com órgãos vintage, guitarras límpidas e som orgânico retalhado na era eletrónica, é tão novo quanto familiar. É a Batida que descobrimos há cinco anos e que não tardámos a admirar. É, também, um convicto passo em frente. Batida não está batido e vale bastante a pena assistir ao seu trabalho porque Pedro Coquenão é o mestre-de-cerimónias, o orquestrador. Em palco e, obrigatoriamente, fora dele.

 

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Tenho ideia de já os ter ouvido mais vezes dos que os anos que tenho, mas para os Xutos e Pontapés é um regresso à Costa, mais de duas décadas depois da última vez que lá tocaram, desta vez encerrando o Festival com lotação esgotada. A banda de Zé Pedro, Tim, Gui, Kalu e João Cabeleira continua a trilhar o caminho de Puro, o seu mais recente álbum, lançado no ano passado. O som pesado, guitarras em riffs duros, uma consciência esmagada mas que teima em se manter de pé, o amor aos tropeções a brincar às escondidas com o desejo, a visão dos tempos, um saxofone melancólico que remata harmonias, o novo trabalho de Xutos & Pontapés é sóbrio, elaborado, seguro e igual à qualidade de sempre. Puro é o resultado de vários anos de trabalho desta mítica banda sempre comprometida com uma leitura do tempo, sempre ao lado de um “Inconsciente Coletivo” que acabou por ajudar a construir. No ouvido conseguimos reter de imediato a canção que serve de apresentação do álbum «Tu Também ( Há Dez Mil Anos Atrás)» bem como «De Madrugada (Tu e Eu)», duas canções de amor em torno das suas contradições e ausências, dos desencontros e da procura. Retratando o caos urbano, a pressão, o stress, a solidão, a raiva, continua a fazer-se a história de um tempo com as ferramentas habituais, com a objetiva do Rock, reforçando uma harmonia caótica, ou simplesmente o seu conceito enquanto porto de abrigo. Em termos místicos o Homem continua sozinho sem «Um Deus» que o escute, perdido num meio de um povo que «quer é mais futebol» e um pouco d’ «O Milagre de Fátima». Houve um tempo, houve um espaço que desapareceu debaixo de um cilindro compressor composto de bancos, chineses e buracos. O café desapareceu, a loja, o irmão emigrou, o país vai ficando cada vez mais vazio, mais desfeito nesta lógica absurda que só destrói e destrói até não sobrar nada. O futuro vai-se derretendo sobre as feridas, a fome e o desespero. Por fim temos «Longe (Perdido na Multidão)», uma história de solidão e inacessibilidade, «manhã submersa, onde é que tu foste», a balada de um canto escondido, distante, de um grito que só se calará com a morte. Ou seja, os Xutos continuam aquilo que sempre foram, reforçando com mais este trabalho a solidez da sua aura mítica construída ao longo dos anos. Não conseguindo surpreender mantêm-se no elevado nível de qualidade a que sempre nos habituaram. Não desiludem, não desarmam e não deixam de pensar. Os Xutos são, claro, o maior exemplo de longevidade e estamina no rock português: ativos desde finais de 1978, os músicos de «Contentores», «A Minha Casinha» ou «Remar Remar» são sinónimos de energia e entrega e um dos maiores fenómenos de palco que o nosso país já gerou. O culto que lhes é devotado tem, obviamente, toda a razão de ser: são já 13 álbuns de originais a que se junta um assinalável acervo de gravações ao vivo, dvds, prémios, condecorações presidenciais e marcos com que poucas outras bandas nacionais podem ombrear – passagens pelas maiores salas portuguesas, presença assídua em festivais e tanto mais. As conquistas têm no entanto razão de ser: a entrega singular destes homens do rock, o carisma e o facto de terem escrito canções que tanto dizem a várias gerações sustentam todos esses troféus e sucessos. Não há em Portugal outra máquina rock assim tão bem oleada. Zé Pedro, Tim, João Cabeleira, Gui e Kalú são gigantes! O espetáculo de ontem à noite foi só mais uma prova de que os Xutos fazem tudo à maneira deles.

Até para o ano Sol da Caparica, nós agora vamos para outra Costa!

 

Texto: Mafalda Saraiva

 

Beijinhos, La Bohemie.