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La Bohemie

O Vodafone Mexefest começou e Lisboa vibrou.

Primeiro dia do Vodafone Mexefest 2014

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«O Festival está esgotado. Obrigado a todos». Foi assim que começou ontem mais uma edição do festival que ocupa a Avenida da Liberdade, em Lisboa – o Vodafone Mexefest. As norte-americanas Annie Clark (St. Vincent) e Merrill Garbus (Tune-Yards) foram as primeiras confirmações da edição deste ano e actuaram na primeira noite no Coliseu dos Recreios. O fim de algumas salas dão lugar a outras, o Vodafone Bus dá-nos música e os shuttles levam-nos até onde a magia acontece.

Uma banda de amigos que actua para os amigos dos amigos. Diz-nos a nota de imprensa que desde a primeira edição, o Vodafone Mexefest é um espaço de descoberta, não só da nova música internacional mas também, e com grande ênfase, da criação que nos indica os caminhos futuros da música nacional. E por isso mesmo comecei por ouvir os portugueses Old Yellow Jack, na sala Montepio do Cinema São Jorge. A banda que tem como principal fonte de inspiração o kraut e psicadélico para um rock imparável é constituída por Guilherme Almeida (voz/guitarra), Henrique Fonseca (guitarra/teclado), Miguel Costa (baixo) e Filipe Collaço (bateria). O grupo formou-se em 2011, mas só em Janeiro de 2015 editarão em formato físico e digital o EP Magnus – produzido por Bruno Pedro Simões (Sean Riley & The Slowriders) e gravado nos Black Sheep Studios em Sintra. O single «The Man Who Knew Too Much» já roda por aí, mas o tema «Shoot The Moon» é dos mais aclamados pelo público. A combinação da descoberta da arte da composição com a energia ao vivo que os caracteriza resulta num Magnus rock energético e viajante, assente em guitarras tão agressivas quanto angelicais, deixando uma boa amostra daquilo que podemos esperar da jovem banda de Lisboa que já actuou em diversos palcos do país.

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Assim que entramos na Garagem EPAL faço rapidamente a piada mental de que podiam muito bem ser uma «Banda de Garagem». Depois sobem ao palco quatro miúdas giras e atribuo-lhes o rótulo de «Girls Band». Mas assim que dizem «!Hola Portugal!» arrumei o meu Moleskine e imaginei-me a assistir a uma espécie de New Wave madrilena. Dizem ser a única banda no mundo chamada Deers e eu dou graças aos céus por não estarem no Brasil. Mas falemos de coisas sérias, elas são mesmo uma banda de garagem e são mesmo uma banda composta só por miúdas – Ana Garcia Perrote e Carlotta Cosials iniciaram o grupo no ano passado e a elas juntaram-se Ade Martin e Ámber Grimbergen. Começaram a tocar uma popbaseada em relacionamentos passados e sentimentos desgastados, porém acabaram por reformular as suas perspectivas e agora tocam rock, através do qual nos mostram o seu girlpower. Inicialmente as músicas eram colocadas apenas no SoundCloud, mas agora já mostram ao mundo o quanto são envergonhadas assanhadas. Não sabem muito bem se falar espanhol ou inglês, gingam as ancas, exibem as sapatilhas All Star e entretêm-se com as suas guitarras de meninas rebeldes. É um modo de vida. É uma vida relaxada e feliz. Os temas «Bamboo» e «Gum Trippy» retratam bem o estilo rockeiro deste quarteto que tem como influências Ty Segall e Thee Oh Sees.

Como um burro que olha para um palácio, entrei na Sala dos Espelhos no Palácio Foz de queixo caído. Tudo ali é lindo. As paredes, os móveis, os tectos, o Francis Dale. As escadas, as janelas, a decoração revivalista, o Diogo Ribeiro. A sua motivação é compor música e a minha foi ouvi-lo. «Não importam as salas, os palcos, as bandas em destaque. Não existe concerto mais bonito do que aquele em que existe cumplicidade entre o artista e o púbico. E essa nunca a saberei descrever numa reportagem. Há coisas que são bonitas só pelo facto de existirem e serem sentidas. Obrigada Francis Dale.» Faço das minhas notas minhas palavras. Assim que cheguei à primeira fila do público e me deparei com um vulto em pé, vestido de roupa escura, com um capuz a tapar a cara, e guitarra ao peito lembrei-me de quanto o desconhecido consegue fascinar-nos mais do que o conhecido. O mistério suscita-nos curiosidade e o inalcançável é que nos alcança. A composição das músicas, sem restrições e com total controlo criativo entram no ouvido e fazem-nos levitar. E suspirar. O compositor e produtor lisboeta Diogo Ribeiro assume o seu alter ego Francis Dale e define-se pelo soul alternativo de um Jeff Buckley misturado com Marvin Gaye, projectado em camadas de guitarra, com reverberações assentes em batidas minimalistas que invocam uma introspecção. «Burning» é o single do EP Lost in Finite, do qual fazem também parte os temas «Retrospect», «Pie in the Sky» e «Overture». A finitude daquilo que somos é uma dicotomia que permite que a arte, em especial a música, possa persistir muito para além da matéria, diz o artista que a única coisa que pretende é continuar a compor com liberdade e sem constrangimentos. E nós pretendemos continuar a ouvi-lo.

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Depois de uma viagem de autocarro ao som dos Zanibar Aliens e mais uma festa de garagem com os King Gizzard & The Lizard Wizard, tivemos direito a recreio. Tune-Yards é o nome criativo de Merrill Garbus. Vem de Nova Inglaterra (Connecticut, EUA) e o concerto no Coliseu dos Recreios é apenas um regresso ao nosso país, depois da passagem pelo Festival Paredes de Coura, em 2012. De vestido azul, vermelho e dourado, a artista já nos habituou a um lado mais vistoso e espampanante, porém conseguiu surpreender-nos com uma performance a solo na qual tocou cavaquinho. Autora este ano de Nikki Nack, o seu terceiro álbum editado em Maio, a cantora expõe de forma mais declarada uma veia pop que se escondia sob o manto lofi dos discos anteriores. Ainda assim, trata-se de uma pop multiforme, com percussões em destaque, sugestões R&B, uma voz tremendamente expressiva e uma vivacidade criada pela colisão entre as letras adultas, e a alegria quase juvenil da interpretação. Nikki Nack contém algumas das músicas mais cativantes que Garbus fez até à data – «Water Fountain» e «Wait for a Minute» – aliando os lados mais selvagem e contido.

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Uma hora depois, no mesmo local, apagaram-se as luzes e ouviu-se uma voz off. O Coliseu dos Recreios estava cheio de pessoas ansiosas pela chegada da artista mais esperada da noite. Apesar de ser conhecida pelo seu nome artístico St. Vincent, Annie Erin Clark nasceu em Tulsa (Oklahoma, EUA) e vive em Nova Iorque. A sua passagem por Portugal também não é novidade. Depois de um concerto no festival Super Bock Super Rock, em 2012, e outro no NOS Primavera Sound este ano, a cantora e compositora norte-americana visitou Lisboa para dar a conhecer o álbum homónimo – foi considerado recentemente o melhor de 2014 pelo NME. Ao sucessor de Strange Mercy , o disco de 2011, decidiu chamar St.Vincent por sentir que está, finalmente, a soar a si mesma. Andou em digressão no ano passado com David Byrne – com quem gravou o álbum LoveThis Giant – e talvez por isso o novo disco mostra uma abordagem muito mais destemida e confiante. É um disco sobre expressão, mais do que opressão. Mas o novo álbum apresenta também uma nova imagem, surgindo com o cabelo branco e um visual a remeter para a ficção científica. A artista acha que cada disco que lança tem de corresponder a um certo tipo de arquétipo, que a vai revelando. No Strange Mercy era o da dona de casa aborrecida sob o efeito de barbitúricos e vinho branco. Em St. Vincent começou a surgir o arquétipo de líder de culto num futuro próximo, no qual cria uma linguagem visual à volta da música que a rodeia e acaba por elevá-la. Surgiu no palco do Coliseu dos Recreios como ser alienígena, equilibrada entre o sentido dramático da presença em palco e o lado mais catártico, cortesia do seu imenso talento enquanto guitarrista. A artista contou histórias entre os temas «Cruel» e «Severed Crossed Fingers», exaltou o público com as músicas «Rattlesnake», «Digital Witness» e «Strange Mercy» e ao longo de todo o espectáculo tivemos direito a performances, palmas e muitos assobios.

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Amanhã, Lisboa continua a mexer!

 

Texto: Mafalda Saraiva

Fotos: Vodafone Mexefest

 

Beijinhos, La Bohemie.