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La Bohemie

Reggae, Rock e Soul – Que rica Caparica.

Segundo dia d´O Sol da Caparica

 

Almoçar numa esplanada, dar um mergulho no mar e passar mais de dez horas no parque a ouvir música portuguesa. É este o espírito que se vive no festival O Sol da Caparica – um pé na areia, o outro no recinto. 300 voluntários e 40.000 festivaleiros em dois dias, garante a organização.

A festa começou no Palco Blitz com o músico e compositor português Orlando Santos. Dizem que é uma das melhores vozes masculinas nacionais, mas esqueceram-se de mencionar que actua com um dos melhores saxofonistas que já ouvi. Admirador da cultura jamaicana, Orlando Santos mergulha em territórios próximos do reggaerock e música soul. Basta olhar para ele e perceber que navega em mares descontraídos. Chapéu à pescador, calças de lona e top tank com uma âncora e o palco é dele. Canta sentado, sorri e admira quem o acompanha, fecha os olhos e viaja com o público. É um dos raros músicos em Portugal a tocar de forma exímia a slide guitar, instrumento que lhe foi oferecido por Ben Harper no final um concerto em Lisboa.

Após muitos anos de música e composição onde tocava em bares e festivais, editou em Março de 2013 o seu primeiro álbum My Soul, do qual faz parte o single «For Real» e onde a um extraordinário lote de canções originais como «African Culture», «My Soul» e «Early in The Morning» se junta uma versão de uma canção dos Melodians, de 1972, «Rivers of Babylon», na qual Orlando mostra o seu invulgar talento de intérprete. Neste álbum existe ainda uma canção – «Only Love» – em dueto com Petaah Morgan, cantor emergente da Jamaica, numa partitura tocada por músicos jamaicanos. As suas composições são marcadas por palavras de esperança e amor por todos os seres, onde se destacam a preocupação pela Natureza ou a observação das transformações sociais.

Levados pela onda do reggae, sobe ao palco Freddy Locks acompanhado pela banda The Groove Missions. Apesar de ter dado os primeiros passos na música através de projectos punk, foi no reggae que o músico de Alvalade se especializou. Dez anos depois de lançar «Wake up», o single que deu a conhecer o seu trabalho, Locks partilha com os seus fãs «RootsRockStruggeling», o primeiro LP que nunca chegou a ter edição oficial. A sua biografia musical deixa-nos claro que encara a Música como a sua vida, com rebeldia e positividade, e sempre com o horizonte aberto a novas abordagens e perspectivas. Depois de Bring Up the Feeling (2007) e Seek Your Truth (2009), o músico trouxe-nos Rootstation em 2012. Aliás, ao longo destes 10 anos, Freddy gravou quatro álbuns de originais, muitos concertos, muitas participações e revelou uma consistência que o coloca como um dos nomes mais facilmente reconhecidos da música reggae em Portugal. Todos os seus discos são uma viagem com experiências variadas. Embora a liberdade, a justiça e o amor sejam o elo de ligação, cada canção como «Bring Up The Feelings», «Crazy Eye», «Get Up Stand Up» e «Infinite Roots» desperta diferentes estados de alma e sensibilidades.

Quem também pisou o palco secundário foram os Macadame. Se pesquisarmos o nome no dicionário, o mesmo diz-nos que é um sistema de pavimento ou calcetamento de ruas ou estradas por meio de brita e saibro. Mas é também o nome do quinteto coimbrense que se reuniu em Coimbra, em 2010, para formar um grupo dedicado à reinvenção da música tradicional portuguesa. De tanto verem e ouvirem cantar gente à sua volta no GEFAC – Grupo de Etnografia e Folclore da Academia de Coimbra, decidiram avançar também com a sua própria proposta musical. Chamam-lhe “homenagem criativa, enérgica ou reverente” à música tradicional, e fixaram-na no álbum de estreia Pão Quente e Bacalhau, lançado em 2013. Os Macadame subiram ao palco, mas o público não quis ficar para ouvi-los. Doze gatos pingados do mar da Caparica, uma pena.

Nós apanhámos a boleia e percorrermos o recinto de uma ponta à outra para encontrarmos o melhor lugar no estacionamento entre o público. O primeiro concerto do Palco Principal arrancou com «Vida de Estrada», o último single dos Diabo na Cruz. O compasso uníssono das palmas do público e a percussão de João e Manuel Pinheiro foram a entrada perfeita para a primeira música da noite. O concerto continuou com uma nova música. «Ganhar o dia» tem um início mais electrónico do que o habitual, e inclui beatbox, contudo, a identidade dos Diabo está toda lá, com uma dose acrescentada de felicidade. «Estou pronto para ganhar o dia», diz o refrão, e a canção é mesmo isso em ritmo e letra. O vocalista, não assumindo que está tudo bem, grita que não está tudo mal, e que é preciso «não perder a fantasia». Regressam ao primeiro trabalho Virou! com «Combate Com Batida», «O Regresso da Lebre» e «Tão Lindo», cuja explosão de euforia deixa a banda entre sorrisos de missão cumprida logo ao início do concerto. Virou! E virou mesmo. Qual grito de libertação! Que vício! Os Diabo na Cruz não são apenas bem dispostos e desconcertantes, em Virou!, de propósito ou não, há uma posição que se vinca, arriscada, mas também excitante. É uma espécie de «ou vai ou racha». Felizmente é. A chegada de «Os Loucos Tão Certos» dispara os níveis de suor consequência da loucura dançante instalada no recinto. Ouvimos, dançámos e cantámos «Roque Popular», «Dona Ligeirinha», «Assobio» e «Casamento».  A música «Lenga Lenga» desfaz-se em rock sem perdão e em «Chegaram os Santos» Jorge Cruz pede ao público para fazer um comboio e a plateia entra na brincadeira. Já a anunciar o fim do concerto, «Corridinho de Verão» chega antes de «Fecha a Loja» e fecharam mesmo o concerto com «Bom Tempo». É verdade Diabo, «há tanto tempo que não se via bom tempo».

Logo de seguida actuaram no mesmo palco os Deolinda. Cansada, e com dores nas costas (a idade não perdoa, senhores!), sentei-me num puff na varanda para assistir ao concerto e nem de propósito, Ana Bacalhau começa a cantar «As minhas muletas deitei-as fora/ A minha marreca já não me dobra/ Ó senhor doutor esta doença só me dá para dançar». Não dancei ao som de «Não tenho mais razões», mas cantei do início ao fim a «Mal Por Mal» e seguiu-se uma música que casa duas coisas incompatíveis, relações humanas e gramática – «Concordância». Três músicas dos três álbuns e os Deolinda continuaram o concerto a saltitar e a cantarolar cantigas dos disco Dois Selos e Um CarimboCanção Ao Lado e Mundo Pequenino. Ouvimos a mítica «Fado Toninho», a maravilhosa «Clandestino» e a energética «Jogo». Houve tempo para «Movimento Perpétuo», «Musiquinha» e a desvairada «Doidos».

Ao mesmo tempo, actuou no palco secundário o artista Júlio Pereira. A sua música caracteriza-se pela utilização de instrumentos tradicionais portugueses, como o cavaquinho e a viola braguesa – instrumento que só conheci por causa dos Diabo na Cruz. Apesar de ter iniciado a sua carreira como músico rock, nos grupos Petrus Castrus e Xarhanga, mais tarde Júlio Pereira começou a dedicar-se à música tradicional portuguesa.

A finalizar o conjunto de actuações no palco Blitz, o grupo Kumpania Algazarra veio fazer a festa. «Nós agora fingimos que não te conhecemos» disseram-me. Não entendo. Uma pessoa esquece as dores nas costas, lembra-se que tem apenas 25 anos e uma vida pela frente, dança freneticamente e ouve comentários de cotas mais novos do que eu. Invejosos! Se eu estou toda para as curvas, quem melhor para me fazer abanar o corpo e a alma senão uma Kumpania que existe para ser vista e ouvida ao vivo? Haja alegria que este povo anda triste. Uma tristeza interminável, rasgada por uma loucura sonora que passa pelo ska, pelo reggae, pelo funk, pelas sonoridades cubanas, arábicas e latinas, pelo klezmer, pelo afrobeat, pelo que cada um quiser. É uma espécie de jogo do vale tudo, onde vale principalmente dançar, dançar bastante e sorrir. Tirei a camisola e parti numa viagem incessante de descoberta e prazer. É uma longa e dispersa viagem, por tantos e tantos lados, que os lados perdem a sua importância. É a expressão da loucura da fusão, da confusão.
Só o resultado interessa, a boa disposição, a alegria, a capacidade de nos surpreender. São tantos os sons que por vezes ficamos com a ideia que nem eram necessárias palavras. A energia está toda no som. Está toda lá em músicas como «Almighty Love», «Libérez Le Monde», «Skabicine» e «Gipsy Reaggae». Kumpania Algazarra são uma espécie de Farra Fanfarra, um colectivo de músicos e animadores, altamente especializados na euforia colectiva e na transmissão de energias positivas através da música acústica e do poder dos instrumentos de sopro e percussão. Capazes de levar a força e alegria da música a todos os contextos e situações, tudo é possível, menos alguém ficar parado ou indiferente, tanto que o guitarra, saxofonista e vocalista Luís Barrocas chegou a pedir-nos para aquecer o corpo porque o concerto ia ser uma verdadeira aula de ginástica. E foi. Eu, que não fui correr de manhã, mostrei aos meus amigos cotas, que são mais novos do que eu, como se dança ao som dos fabulosos Kumpania Algazarra. Vamos dançar rapaziada!

Num estilo completamente diferente, os 5-30 actuaram ao mesmo tempo no palco principal. O projecto reúne Carlão (Pacman), Fred (Orelha Negra) e Regula, mas tiveram como convidado especial Samuel Mira (Sam The Kid). O nome escolhido é, nada mais nada menos, que o número da porta do estúdio onde foi idealizado e gravado este projecto. O concerto terminou com «Chegou a Hora», o single do recente trabalho – um tema que fala de uma relação, de uma pessoa a quem a coisa não correu muito bem mas afirma «Estou aqui e vou partir esta merda toda». As músicas «Vício» e «Pode Ser» foram as que levaram o público ao rubro, talvez por serem as mais conhecidas, mas também tocaram «Pitas Querem Guito» e um remix de «Drunk in Love», de Beyoncé e Jay-Z.

Logo de seguida, os Expensive Soul provaram como os seus 15 anos de carreira fazem deles um dos melhores grupos portugueses a tocar soulhip-hop e funk. Começaram o concerto com «Cúpido» – single do quarto álbum de originais, Sonhador – a canção de amor sem pretensões a mais, uma celebração rítmica de melodia fresca, na qual cordas, metais e vozes de entrelaçam alegremente. O sucessor de Utopia é soul music cantada em português, feito no Norte de Portugal, oscilando entre os sensuais midtempos e os grooves mais dançáveisNo que diz respeito às letras é o trabalho mais interventivo da dupla de Leça da Palmeira, que está cada vez mais exímia na transmissão de ideias em ambiente de festa. O amor continua sempre presente, mas existe uma mensagem de conformismo aqui e ali, como se constata na música «Progresso». Ouvimos os clássicos «O Amor é Mágico», «13 Mulheres» e «Hoje é o dia mais feliz da minha vida». New Max ainda tentou a sua sorte ao perguntar à plateia feminina quem ia dormir com ele, mas o seu momento mais glorioso foi quando dedicou a música «Que Saudade» – o segundo single do novo disco – aos Da Weasel, mostrando o seu enorme desejo da banda se voltar a juntar. «Vocês são do ca#*lho, fo%*-se», partilhou connosco bem à moda do Norte. O vosso concerto também foi fixe, diz-se na margem Sul.

20.000 pessoas no recinto. Duas horas de concerto. Pedro Abrunhosa encerrou a segunda noite d’O Sol da Caparica. E não fosse a actuação do DJ Diego Miranda, o veterano continuava madrugada fora a interpretar todo o seu reportório. Mas esteve lá perto. Dedicou a intensa «Para os braços da minha Mãe» a todos aqueles que deixaram Portugal à procura de uma vida melhor, fazendo chorar alguns fãs, mas também deixa o público em êxtase com «Socorro» e grava ainda um vídeo de «Todos Lá ‘Pra Trás» para comemorar o meio milhão de fãs na sua rede social. Digam o que disserem, Pedro Abrunhosa é um entretainer e, apesar de não se ter espatifado no chão ontem à noite, sabe agarrar o público miúdo e graúdo do início ao fim. Desde as baladas românticas, às músicas de intervenção, Abrunhosa vai lembrando como o Amor é tão importante como o país não se deixar calar nem morrer de depressão. O artista prometeu que o concerto se ia passar no público mas, como é hábito, chamou todos os fotógrafos a subir ao palco e o Marco Almeida (vejam as fotos dele) teve o seu momento de glória – só não cantou «Hoje é o Teu Dia» com receio do vocalista se enganar na letra. Mas não foi tudo, o público também teve direito ao seu estrelato e as dezenas de fãs que se juntaram a Abrunhosa puderam partilhar o palco, o microfone e até tirar selfies com o artista ao som de «Que nunca caiam as pontes entre nós». Sem tempo para completar toda a setlist inicial, ouvimos ainda «Fazer o que ainda não foi feito» e «Talvez Foder». É sempre um bom final.

 

Texto: Mafalda Saraiva

 

Beijinhos, La Bohemie.