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La Bohemie

Razão na loucura.

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Como cortamos a realidade em pedaços? Cortamo-la em três. Deitamos fora a verdade porque já temos a nossa ideologia. Empurramos a bondade para o lado porque o dogma político tem a sua moralidade própria. O que resta então é «beleza pura» e «acção sublime», que o esteta amoral extravagantemente admira.

A linguagem existe para nomear a realidade, e nesse aspecto a linguagem tem uma função quase sagrada: sem linguagem nunca podemos saber o que é verdadeiro, bom ou belo. Karl Kraus, Victor Klemperer, Aleksander Wat, Thomas Mann - muitos poetas e escritores sublinharam que, quando a linguagem é atacada, a mentira erradicará a verdade da sua alma. Mas nomear a verdade começa por permitir que a realidade exista na totalidade, não reduzindo-a à imagem e semelhança de cada um.

O poeta sabe que nem tudo pode ser nomeado. O filósofo sabe que nem tudo pode ser explicado. E qualquer um com experiência de vida sabe-o também. O ódio e o mal nunca podem ser completamente explicados, tal como acontece com o amor e a bondade. Estes fenómenos não podem ser reduzidos a «razão» e «motivo». É precisamente o facto de não poderem ser racionalizados, serem tornados manobráveis e resolúveis, que lhes dá esse poder. A insensatez, o ódio e o ciúme são forças cegas, irracionais. Quem é possuído por elas fica cego e, mais uma vez, reduz a realidade. Esse é o segredo de todo o estereótipo do inimigo. Mas nem tudo o que um louco berra tem de ser disparatado. De vez em quando, alguma verdade pode estar contida no seu resmungar. Contudo, «razão na loucura» não significa que a loucura possa ser racionalizada e transformada em razão.

 

Beijinhos, La Bohemie.