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La Bohemie

Questões importantes #11

Uma questão por dia, nem sabe o que temia, devia ser o título deste texto, porque hoje não trago bem uma questão, mas antes uma situação. Mas vamos ao que interessa: esclarecer as minhas dúvidas, está bem?

Há alguns meses que tenho vindo a reparar que várias pessoas confundem o significado de preocupação com o de cusquice. Ou pelo menos dá-lhes jeito assumir essa confusão. Mas eu, que até sou pessoa com alguma paciência, estou aqui para vos elucidar essa cabecinha meio cusca, meio confusa. Ora, eu costumo preocupar-me com dois tipos de pessoas: eu mesma e as que eu amo. E é, talvez, um acto um pouco egoísta porque no fundo se aqueles que eu amo não estão bem, eu também não estarei. E eu gosto de estar bem, por isso preocupo-me. Comigo e com os outros. Os que me são importantes, repito. Não quero com isto dizer que se vir uma pessoa aflita no meio da rua ou se alguém que eu não conheço me vier pedir ajuda, eu não ajude. Fá-lo-ei com todo o gosto e se puder, mas no dia-a-dia não tenho por hábito preocupar-me com o senhor do café, com a senhora da mercearia ou o idoso da loja de ferragens. Primeiro porque não sou a Madre Teresa de Calcutá nem a Princesa Diana, segundo porque não tenho o dinheiro da Angelina Jolie ou da Madonna para ajudar milhões de refugiados ou para adoptar dezenas de crianças que não sabem o seu próprio nome. São gestos nobres que custam muito dinheiro e ficam sempre bem aparecer nas revistas. Eu, quando ajudo, fica entre mim e quem ajudo. Eu, quando me preocupo, oiço a pessoa, converso com ela, amparo-a e se for preciso caímos as duas para que partilhemos a mesma dor. Isto é tudo muito bonito, define muito os amigos que achamos que somos e faz-nos sentir nalgum momento da nossa vida pequenos heróis, é verdade. O problema, meus caros leitores, é quando não se sabe distinguir muito bem o conceito de preocupação com o de cusquice. E é aqui que surge a minha dúvida.

Então imaginemos que temos uma pessoa na nossa vida que nos é mesmo importante. Durante muito tempo partilhámos alegrias e preocupações, disparates e cusquices, dramas, comédias, filmes que pedem tigelas de pipocas e caixas de Kleenex. Sabemos que aquela pessoa gosta de nós e nós gostamos dessa pessoa. Ou gostaram, em tempos. Como todos os ciclos de um rio, cada uma segue a sua maré e cada uma desenrasca-se como pode e sabe na ilha onde atracou. Como vivemos no século XXI e não existem telemóveis, nem internet, nem redes sociais, essas coisas retrógradas, essas mesmas duas pessoas só comunicam de tempos a tempos e por telegramas. Enviados dentro de garrafas, claro. Como uma está nas Bahamas e outra nas Fiji têm 12,240 km a separá-las, por isso comunicam muito pouco. Uma dessas pessoas safou-se muito bem nas Bahama, a outra não. Azar, o karma é lixado, quem mandou ir parar às Fiji? E lixado é quando uma dessas pessoas se mostra preocupada pela outra, mete conversa, faz perguntas, lamenta esta ilha e a outra e no fim, pumbas. Corte nos telegramas. Corte e costura, pensa a outra. Olha-me esta, mostra-se preocupada de mês a mês, quer saber se a areia das Fiji é fofinha e a água de coco docinha, «vá, diz-me lá que estás mais do que enterrada aí nessa ilha» e fim de conversa.

Agora expliquem-me: que raio tencionam este tipo de pessoas? Escusam de dizer que sou uma perfeita otária que ainda acredita que se preocupam mesmo comigo que isso eu já sei. Quem me mandou vir parar às Fiji? O que eu quero mesmo saber é: que raio leva uma pessoa a mostrar-se preocupada com outra, se no fundo não vai ajudar em nada? Rigorosamente nada. Essa pessoa fica a par das nossas maiores dores, perdas e frustrações e depois «adeus, toma lá um queijo e faz uma sande»? Para quê? O que é que essas pessoas fazem com as nossas palavras? Onde é que essas pessoas enfiam a nossa dor? Onde é que essas pessoas enterram as nossas confissões? Nas Bahamas? Expliquem-me porque eu sou mesmo otária: essas pessoas são mais felizes por ficarem simplesmente a saber dos nossos podres? Sentem-se vitoriosas por confirmarem que perdemos? Que raio passa pela cabeça das pessoas que confundem preocupação com cusquice? Vá, dêem respostas que vou ali à padaria perguntar pelo pardalito da D. Custódia, sim?

 

Beijinhos, La Bohemie.