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La Bohemie

Prodigy: o prodígio da segunda noite do NOS Alive.

Segundo dia do NOS Alive

 

Os concertos ainda não tinham começado e já centenas de festivaleiros passeavam-se pelo Passeio Marítimo de Algés de chapéu branco da NOS na cabeça e cerveja na mão. Os stands dossponsors propõem jogos e oferecem brindes aos visitantes que se aglomeram em longas filas. Já ostand móvel do Casal Garcia percorre o recinto de uma ponta à outra com o animado refrão «Haja Alegria, haja Casal Garcia». O público aproveita cada espaço com sombra dos palcos secundários para conversar e descansar antes de desgraçarem o corpo e alma.

Palco Heineken

A tarde começou muito calmamente com um simpático concerto de Daniel Kemish ainda com o sol a raiar bem no alto. Cantor e compositor com influências Outlaw Country muito vincadas, transmite em palco um estilo musical que está longe de ser europeu. Daniel tem uma voz quente e rouca, recriando os sons dos primeiros cantores fora da lei. Daniel toca guitarra, bombo, harmónica e canta. Os seus espetáculos integram ainda Jean Christian Houde, do Quebec, Canadá, que toca contrabaixo e prato de choque. Juntos conseguem criar um som que é difícil acreditar que apenas se encontram dois músicos em palco. Não há alegria maior do que ir ao desconhecido e ser surpreendido pela positiva. O folk e o country resultam sempre muito bem ao fim da tarde, e nós não conseguimos evitar bater o pé e abanar a anca.

Aproveitámos a onda do palco Heineken para assistir ao concerto de Bear’s Den. O trio londrino estreou-se ontem em Portugal e trouxe ao Passeio Marítimo de Algés o álbum de estreia Islands, editado em outubro de 2014. O primeiro longa-duração foi produzido por Ian Grimble, conhecido pelos seus trabalhos com bandas como Travis e Manic Street Preachers. A banda composta por Andrew Davie (voz e guitarra), Kevin Jone (bateria e voz) e Joey Haynes (banjo e voz), interagiu bastante com o público e foi recebida com muitos aplausos e assobios.

Com o recinto quase lotado e o público extasiado, o início da noite foi cogalardoado com a estreia dos Bleachers em solo nacional. Depois de umaintro com a música «Tommorow», do filme Annie (1999), o projeto de Jack Antonoff – guitarrista dos Fun e vocalista dos Steel Train – apresentou em primeira mão no Palco Heineken o álbum Strange Desire. O primeiro registo de originais de Bleachers, editado em julho do ano passado, conta com a produção de Vince Clark (Depeche Mode), e com a participação especial de Grimes e Yoko Ono, nos temas «Take Me Away» e «I’m Ready to Move On/ Wild Heart Reprise», respetivamente. «I wanna get better», o primeiro single do disco retro futurista pop rock de Antonoff, conquistou o primeiro lugar na tabela e um lugar no coração dos fãs. As milhares de palmas e assobios que o digam.

O duo britânico The Ting Tings também passou pelo mesmo palco. A banda de Manchester apresentou o seu terceiro álbum de originais, Super Critical, editado no passado mês de outubro e do qual fazem parte os temas «Do It Again» e «Wrong Club». O novo trabalho do grupo, formado por Katie White e Jules De Martino, conta com toda a magia das batidas dos anos 80, que já lhes são características, tendo no entanto, sido, de acordo com a banda, inspirado em Diana Ross, ícone da “disco music” dos anos 70.

Os Future Islands visitaram Portugal pela primeira vez e pisaram o Palco Heineken para nos apresentar o quarto disco de originais, Singles, editado em março passado. O trio de Baltimore, EUA, que em palco apresenta uma energia única personalizada nas coreografias do vocalista Samuel T. Herring, trouxe na bagagem os seus quatro álbuns de estúdio, o mais recente, Singles, produzido por Chris Coady. A banda foi desde o seu lançamento fortemente recebida pela crítica especializada, bem como pelo público. Hoje é reconhecida como um fenómeno que aborda a pop numa mistura com o rock dançável de uma forma contagiante e que promete deixar marcas na cena musical atual.

James Blake, uma das vozes mais aclamadas dos últimos tempos, foi um dos artistas muito aguardados ontem à noite e recebidos com milhares de assobios dos fãs. Com apenas 26 anos James Blake consegue misturar, nas doses certas, a clássica sensibilidade confessional de cantor/compositor com a vanguarda sonora da eletrónica. O músico londrino, grande vencedor da edição de 2013 dos Mercury Prize, atuou no Palco Heineken completamente lotado – houve mesmo quem tivesse de assistir ao concerto na rua. Desde o lançamento do álbum de estreia que não houve margem para dúvidas quanto ao talento de James Blake porque é sem margem para dúvidas um talentoso pianista que se apaixonou pela música eletrónica e que canta como um anjo caído. O rápido reconhecimento por parte da crítica e do público explicam-se não só pelas fortes e inteligentes composições, como pela intensidade das suas atuações ao vivo. Pouco dado a euforias, a figura circunspecta e a falta de star qualityquase parecem trabalhadas com o intuito de canalizar todas as atenções para a música. Consegue cantar num falsete trémulo e doce como gelatina que muitos comparam ao de Antony Hegarty. No seu catálogo é escusado procurar uma grande guitarrada ou um refrão repetido vezes sem conta ao longo de cinco minutos. Blake pratica uma eletrónica intimista com os seus sintetizadores de composições personalizadas, por vezes tingidas detrip-hop. Especialista em estados de espírito e criação de atmosferas, atuou ontem à noite acompanhado por dois músicos de suporte: Ben Assiter (bateria) e e Rob McAndrews (Guitarra/Sampler). Depois de James Blake, Overgrown é o segundo álbum do artista e já está a preparar o próximo.

Palco NOS

A banda portuguesa Blasted Mechanism foi a primeira a atuar ontem no Palco NOS, onde apresentou o mais recente longa duração Egotronic, editado no passado dia 22 de junho. O grupo, conhecido por aliar a música e as letras às artes visuais e conceitos tecnológicos para criar atuações inesquecíveis, trouxe ao Passeio Marítimo de Algés o seu oitavo álbum de originais, sucessor de “Blasted Generation”, lançado em 2012. Blasted Mechanism definem-se como um projeto artístico de música tocada por seres de outro mundo. Os pequenos grandes bichos conseguiram transformar o palco numa espécie de retiro selvagem psicadélico. Para além de sobressaírem do panorama musical pela sua imagem forte e extravagante, criaram a sua imagem de marca graças à fusão de sons ancestrais que produzem com novas tecnologias, através da elaboração dos seus próprios instrumentos, como o “Bambuleco”, a “Kalachakra”, o “Mawashi”, o “MaeGeri”, o “Banjuleco” e o “Onozone”, com os quais criaram uma sonoridade única. Vestidos com fatos de napa alucinantes e adereços mirabolantes, tocam instrumentos que poucos usam e têm o dom de surpreender e destacar dos demais comuns mortais. Como os próprios dizem, «Liberation».

Ainda antes do maravilhoso pôr-do-sol, subiram ao palco o quinteto britânico Marmozets, juntando-se a nomes como The Prodigy e Mumford & Sons. Estreantes em Portugal, os Marmozets são apontados como a grande revelação de 2014 no Reino Unido e arrasaram a crítica com o discoThe Weird And Wonderful Marmozets. Com uma estreia impressionante e ambiciosa, mostraram segurança e classe do disco. As atuações ao vivo mantém a fasquia alta, o vozeirão da vocalista perpetua no ouvido e quem os viu garante que é uma experiência incendiária.

O início da noite recebeu com muito vento a banda australiana Sheppard. O grupo sensação de Brisbane trouxe consigo o álbum de estreia, Bombs Away, lançado em julho do ano passado. O trio de irmãos George Sheppard (voz, teclados e piano), Amy Sheppard (voz secundária e harmónica), e Emma Sheppard (baixo e voz secundária), fazem-se acompanhar por outros três músicos na formação, nomeadamente, Michael Butler (guitarra), Jay Bovino (guitarra e voz secundária) e Dean Gordon (bateria). A vocalista secundária, de cabelo azul, é gira que se farta, o grupo tem um estilo jovem e descontraído, a música é do estilo “glico-doce” e a banda é mais direcionada para o público adolescente, mas eu, que sou uma pequena criança, esperei incansavelmente pelo contagiante «Say Geronimo». Sim, porque o famoso single do grupo, “Geronimo”, conquistou o número um no TOP australiano e chamou rapidamente a atenção da crítica e do público, mas quem quis muito ouvi-lo teve de esperar mesmo pelo fim do concerto, não sem antes o grupo tirar a bela da fotografia com o público sem o “pau de selfie”.

Os ingleses Mumford & Sons foram um dos grupos mais aguardados do palco principal, depois de terem passado pelo Passeio Marítimo de Algés em 2011. O grupo britânico apresentou o primeiro álbum, Sigh No More, no final de 2009, tendo conquistado imediatamente a crítica e os fãs. O segundo álbum de originais, Babel, editado em setembro de 2012, tornou-se um dos maiores sucessos do ano e garantiu à banda o merecido reconhecimento internacional. Mas ontem à noite o folk que caracterizava o quarteto britânico deu lugar a uma sonoridade mais pop rock ao terceiro disco, Wilder Mind. O tem «Snake Eyes», do novo registo, foi a primeira canção a ecoar no recinto, mas foi com «I Will Wait» – êxito retumbante – que a banda conseguiu chegar ao coração dos fãs e ouvir um coro em uníssono a acarinhar um dos seus refrães mais populares. «Believe», primeiro single do novo trabalho, fica no ouvido e colhe junto da multidão, mas foram canções como «Little Lion Man», «Roll Away Your Stone» e «The Cave» e «Sigh No More»ne” que protagonizaram os momentos altos do espetáculo.

The Prodigy, o grande prodígio da noite. O palco decorado com seis guarda-chuvas, luzes strobes e um grande urso no ecrã de fundo. The Day Is My Enemy é o sexto disco da banda britânica e sucede Invaders Must Die, seis anos após o lançamento do último trabalho de estúdio dos The Prodigy. Com contribuições dos Sleaford Mods, o novo longa duração da banda marca o seu 25º aniversário. Os pioneiros do “big beat” encerram ontem à noite as atuações no palco principal para um recinto bastante composto, mas longe da enchente registada em frente ao palco principal no primeiro dia, com os Muse. A banda de Keith Flint, Maxim e Liam Howlett mostrou toda a garra que a fez atravessar os anos 90 e chegar a 2015 com uma credibilidade inabalável e com a mesma energia que o público português já conhece de cor. The Prodigy são desde o primeiro dia sinónimo de revolução. Experience, o disco de estreia de 1992, sonorizou a cultura rave numa época em que não era suposto os artistas de dance musicfazerem álbuns. Em 1998, já com três discos editados, singles como «Breathe», «Firestarter», e «Smack My Bitch Up» tornaram-se pilares, elevando-os a um novo patamar, desta vez a nível global. Hoje, após terem pisado os mais importantes palcos mundiais, contam com sete discos de estúdios e vários prémios conquistados na bagagem. No balanço de quase 25 anos de carreira, dizemos nós que os ouvimos que estão mais agressivos, irreverentes e ultrajantes.

Palco NOS Clubbing

O Palco NOS Clubbing recebeu ontem uma programação especial que reuniu algumas das mais proeminentes sonoridades nacionais e luso descendentes – DJ Kamala, Batida, Capicua, Magazino, Moullinex e Skip&Die.

Com influências sul-africanas, mas fortes raízes portuguesas, os Skip&Die trouxeram até ao NOS Alive’15 várias sonoridades do mundo. Apesar de não terem nascido em solo nacional, as suas ligações com Portugal são fortes.

Pode o old school ser avant garde e cool? Só há uma resposta possível: sim, quando nos pratos está DJ Kamala. Referência incontornável do panorama nacional da música de dança, Kamala é o mentor das festas SWEET (agora R&B Sweet Sessions) e lidera o Radio Hotel: ponto obrigatório da noite lisboeta. Dinâmica e criatividade são palavras-chave nos sets de DJ Kamala, numa verdadeira fusão de estilos musicais que revoluciona os melhores clubes do nosso país. Todas as suas performances são uma viagem. Para Kamala não há preconceitos ou fronteiras entre a Soul, R&B, Hip Hop, House, Dubstep ou até mesmo Drum&Bass. Ter DJ Kamala na cabine é garantia de festa e de memórias sensoriais que perduram muito além de uma noite.

O Palco NOS Clubbing recebeu a tão acarinhada pelo público Capicua, Ana Matos Fernandes. Nascida no Porto, cresce a gostar de rimas e de palavras ditas ao contrário. Capicua e a sua companheira MC, Marta Bateira, dispararam no microfone as rimas de canções como «Casa no Campo», «Jugular», «Maria Capaz», «Medo do Medo», ou «Medusa», com o rapper Valete.

Batida dispensa apresentações e a lista de prémios e elogios junto da crítica é já longa. Resumindo em poucas palavras, Batida é o nome com que Pedro Coquenão assina o que faz.

Moullinex, o alter-ego do viseense Luís Clara Gomes, também marcou presença no Nos Clubbing. Apesar da intensa atividade nesse mundo, Moullinex quer ser, e é, muito mais do que uma mera máquina de fazer dançar. Igualmente conhecido por ser um dos fundadores da essencial Discotexas, o músico vai levou até ao NOS Alive’15, depois de já ter passado em Paredes de Coura, a sua mais recente aventura, Elsewhere, sucessor de Flora (o disco de estreia, editado em 2012).

Uma das maiores referências da eletrónica portuguesa, Magazino, é o último nome que se junta ao alinhamento deste dia. Luís Costa, que já conta com cerca de 20 anos de carreira, há muito que mobiliza público atrás de si.

RAW Coreto

Aos Naked Affair e Prana, juntaram-se Los Waves, Tape Junk e Fernando Alvim com um DJ set.

José Tornada e Jean River (Jorge da Fonseca) já tocam juntos desde os 16 anos mas só em 2011 criaram o que são hoje, Los Waves. É um trabalho tridimensional que se funde entre a new wave, o psicadelismo melodioso, viciante e eletrónico com uma abordagem etérea, envolvente mas ao mesmo tempo pop e viciante. Uma conjugação de sons que fez com que esta banda fosse rapidamente reconhecida. O Coreto ontem à noite estava a abarrotar de pessoas a dançar ao ritmo de cada acorde, aplaudindo a cada música, e a banda provou que merecia ter atuado num palco maior.

 

Texto: Mafalda Saraiva

 

Beijinhos, La Bohemie.