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La Bohemie

Perfumes, Vacinas e Sting em dia.

Primeiro dia do Super Bock Super Rock

 

Primeiro estranha-se, depois entranha-se. É com esta sensação que se entra pelo grande pórtico do Super Bock Super Rock. Está muito na berra criticar tudo o que é diferente, arriscado e ousado, mas digam o que disserem, é um privilégio e um luxo ter um Festival com vista para o rio. Uma tanta nostalgia remete-nos para a grande festa que foi a Expo´98, mas desta vez vê-se e ouve-se rock. O Super Bock Super Rock nasceu há 20 anos como o primeiro festival de Verão nacional, em 1995. Começou em Lisboa, espalhou a sua Super mensagem por todo o país, e também por fora, compilando duas décadas de história na bagagem. Bock! Após 20 anos, regressaram às origens. À cidade da luz, da eletricidade, de vozes e de guitarras amplificadas pela grande capital da música. «Sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam», escreveu uma vez Saramago. Durante três dias o Super Bock Super Rock instala-se no Complexo do Parque das Nações, junto ao Tejo. E nós contamos-te como foi.

O Sol já vai desaparecendo pela cidade e os passeios à beira Tejo ao som da melhor música começam a ecoar nas cabeças de todos os visitantes. Por ser novidade, nota-se a derradeira curiosidade dos festivaleiros em querer saber onde se situa cada palco, que brindes estão a oferecer, que bandas não podem perder.

Palco EDP

Os novos convidados tocarão no Palco EDP, situado sob a pala do Pavilhão de Portugal e com uma vista de cortar o fôlego. Neste espaço aberto, desfilarão artistas que atraem o público que procura as novas tendências, os nomes emergentes, os registos mais alternativos. O Tradiio junta-se ao Super Bock Super Rock numa parceria que resultará na escolha de 3 novas bandas para abrirem o Palco EDP em cada dia do Festival.

Os OSTRA S. R. foram a banda selecionada no mês de maio através da parceria com a plataforma Tradiio para atuar no primeiro dia do Festival. Dizem que fazem música para dançar ou viajar, e a verdade é que quem os ouve, concorda. Gonçalo Barão da Cunha e Pedro Sanctis apresentaram com os seus sons e perante uma pacata plateia uma perspetiva fresca que deve ser consumida com moderação.

Os King Gizzard & The Wizard Lizard editaram em dois anos 4 LPs e o público mostrou conhecê-los bem. Em 2014, os discos Float Along­ Fill Your Lungs e Oddments confirmaram os australianos como uma das mais interessantes, produtivas e arrebatadoras bandas da atualidade. Fazedores de um rock psicadélico com temperos claramente vintage, a música do septeto é frenética de ritmo, casando na perfeição riffs de guitarras e acordes percussivos. Assistiu-se a um concerto explosivo ontem ao fim da tarde, merecedor das centenas de assobios e aplausos por parte de um público que dançou freneticamente.

No Palco EDP, o dia de ontem foi marcado também com o regresso aos palcos lusos de Perfume Genius, após a sua passagem pelo Vodafone Mexefest no ano passado. Depois de um breve soundcheck e de alguns problemas de som na primeira música, Mike Hadreas desce ao público e oferece abraços aos derradeiros fãs. O projeto de Mike Hadreas oferece uma música rica de delicadeza, mas igualmente abundante de força vulcânica, do tamanho das letras intimistas e vazias de pudores que recheiam as melodias doces e pungentes dos discos até hoje oferecidos. Mike é talvez dos músicos mais queridos da atualidade. Os seus tiques afeminados roubam-nos sorrisos, os seus movimentos sensuais sugam-nos para o ritmo da música, os gritos agudos, as melodias graves. Tudo em Mike Hadreas transpira um perfume genial e faz-nos viajar para uma qualquer galáxia gravitacional. No ano passado Perfume Genius editou Too Bright, disco que conta com a coprodução de Adrian Utley (Portishead) e a colaboração de John Parish e que esteve nos lugares cimeiros dos discos do ano mais aclamados pela imprensa especializada. Ontem ao final da tarde quem o aclamou foi o público, bastante satisfeito com a sua atuação, da qual fizeram parte as maravilhosas canções «My Body», «Sister Song» e «To Bright».

Depois de uma mirabolante atuação de Flyboard, mesmo no rio ao som de vários clássicos da música, os Little Dragon subiram ao palco EDP decorado com enormes e iluminados triângulos pendurados. Os pequenos dragões são suecos e representam, desde o disco de estreia homónimo de 2007, a melhor pop-rock-eletrónica europeia. Com quatro discos no reportório – o último Nabuma Rubberband do ano passado -, têm na voz de Yukimi Nagano o elemento protagonista. Visivelmente orgulhosa da sua ilustre saia bordada com flores, a sua voz conquistou e encantou o público. Dançáveis e muito melódicos, os escandinavos são incríveis ao vivo. Comprovaram-no na edição de 2012 do Super Bock Super Rock e agora voltaram com música nova para desfilar.

Desde que SBTRKT lançou o disco de estreia homónimo em 2011, é um dos nomes mais falados e reconhecidos da música eletrónica e ontem chegou ao 21.º Super Bock Super Rock para a última atuação do dia no palco EDP. Entre EPs, singles e LPs, Aaron Jerome já remisturou grandes nomes do panorama musical. Misterioso q.b., Aaron prefere o anonimato e que a música fale por si, apresentando-se ao vivo sob máscaras, ano após ano. Em 2014, SBTRKT lançou o magnífico segundo longa duração de originais, Wonder Where We Land, com o single de arranque «New Dorp, New York», a contar com a voz de Ezra Koening (Vampire Weekend).

Kate Tempest é uma das artistas mais faladas do momento, mas infelizmente cancelou alguns dos concertos da sua tour europeia, incluindo o do Super Bock Super Rock.

Palco Antena 3

A 21.ª edição do Super Bock Super Rock dará ao longo de três dias protagonismo à música moderna portuguesa. E o seu lugar privilegiado será, como vem sendo hábito, o Palco Antena 3.

Duquesa é o nome que Nuno Rodrigues, elemento dos roqueiros Glockenwise, resolveu dar ao seu projeto a solo. Em nome próprio lançou um EP homónimo com 6 magníficas canções pop, capazes de nos transportar para outras geografias: quentes e com sabor a Verão.

Do Porto, a música simples, caseira, distinta e farta de pop com eletrónica chega-nos através de PZ. Com dois registos editados, Anticorpos (2005) e Rude Sofisticado (2012), as composições singulares de PZ têm igualmente uma componente visual que merece ser atentada: os vídeos autoproduzidos pelo artista são extensão óbvia do jeito «do it yourself» de fazer canções.

Os Gala Drop são uma banda diferente. Não existem em Portugal bandas similares. Depois de dois primeiros discos – o homónimo de estreia eBroda – cheios de kraut, funk, dub e rock psicadélico, apresentam-se em formato quinteto, enriquecidos pelo músico norte-americano Jerry The Cat. A voz e as palavras entram na música dos Gala Drop, e um tempero soul e muitas vezes tropical acrescenta luz às composições dos lisboetas.

Palco Super Bock Super Rock

Com dez minutos de antecedência, o concerto de Milky Chance começou ainda com uma Arena vazia. Clemens Rehbein (guitarra e voz) e Philipp Dausch (DAW e turntables) são de Kassel, Alemanha e, juntos, constituem os Milky Chance. Estrearam-se em 2013 com o single «Stolen Dance» conquistaram a atenção do público. Ainda no mesmo ano veio a estreia em formato LP, Sadnecessary. O som do duo combina o formato canção estruturado e clássico com incursões pela eletrónica. Ontem surpreenderam pela simplicidade e um imediatismo que não cansa, fundindo géneros como o folk, reggae e jazz. Por ter sido o primeiro concerto no palco principal, sentiu-se o impacto de deixar o dia para trás e entrar numa cápsula escura e abafada. E, de repente, bom dia alegria! Ainda assim, Milky Chance mostraram-se bastante descontraídos e a voz do vocalista, rouca e sexy, conquistou o público feminino. Foi um concerto bonito e relaxado… ideal para se assistir com um pôr-do-sol por trás.

Os The Vaccines são uma das bandas indierock mais apreciadas do momento. Quando surgiram em 2011 com What Did You Expect From The Vaccines, espantaram com o seu rock direto cheio de influências punk, sempre melódicas, vintage. No ano seguinte lançaram o segundo álbum de originais Come of Age e comprovaram o seu sucesso. A carreira é ainda curta, mas os The Vaccines são um fenómeno musical reconhecido e que ao vivo incendeia multidões. Ao Super Bock Super Rock trouxeram consigo o disco deste ano, English Graffiti, cujo single «Handsome» nos conquistou.

Noel Gallagher é, indubitavelmente, um dos melhores escritores de canções pop rock das últimas décadas. O Meo Arena bastante composto comprovou-o. De feitio forte, de personalidade aditiva, uma espécie de bad boy, é inatacável quanto ao jeito e talento para compor melodias à guitarra e a elas juntar letras cativantes. De Rain passaram a ser Oasis e assim nasceu uma das mais icónicas bandas da história da música pop. A banda é constituída pelo pianista de estúdio dos Oasis, Mike Rowe, pelo baterista Jeremy Stacey (The Lemon Trees), pelo baixista dos The Zuttons Russell Pritchard e pelo guitarrista Tim Smith. No mesmo ano editaram um disco de estreia homónimo e este ano saiu o segundo LP, Chasing Yesterday. Amante dos Beatles e The Animals, mas também dos conterrâneos Smiths, Noel Gallagher continua um mago dos acordes e no Super Bock Super Rock tivemos o privilégio de ouvir muitas das canções do repertório do músico – fiquei com a sensação de ouvir apenas Oasis – mas também as novas do último disco.

Já com um Meo Arena quase lotado, foi a vez do mítico e tão aguardado Sting subir ao palco principal para nos oferecer um concerto soberbo do que não se esperava mais do que era capaz: tudo. Aos 63 anos já pouco falta a Sting. É compositor, cantor, ator, autor e ativista. Compôs punk,rock, reggae, jazz e música sinfónica. Sting nasceu em Newcastle, Inglaterra, e formou os míticos The Police com Stewart Copeland e Andy Summers. A banda lançou cinco álbuns de estúdio, e ganhou meia dúzia de prémios. A solo desde 1989, lançou catorze álbuns e recebeu mais uma dúzia de prémios. Ontem recebemos o multi-instrumentista Sting, acompanhado pela sua banda e uma backvocal de cortar as cordas vocais e com a seu mais que velho e gasto baixo de estimação. Do muito extenso reportório que pudemos ouvir, conseguimos ainda cantar e dançar a tão conhecida «De Do Do Do De Da Da Da», dos The Police. Foi um concerto fabuloso, apenas para aqueles que apreciam, verdadeiramente, a arte que é a música.

Escolhido para fechar o palco Super Bock no primeiro dia de Festival, Madeon é um jovem francês que precocemente se transformou num fenómeno da música electro-house. Tudo começou com «Pop Culture», um tema que incendiou a plataforma YouTube garantido a Madeon milhões de visualizações, catapultando-o para voos que, com toda a certeza, não preveria tão antetempo. De 2009 para cá, Madeon editou uma série de singlescomo produtor e, já este ano, lançou o incrível LP de estreia Adventure. É um DJ de exceção e provou-o ontem no palco principal.

Palco Carlsberg

E porque o festival não oferece apenas os melhores nomes representantes do rock, no Palco Carlsberg, vários dos géneros da eletrónica e da música compassada por rimas e beats tiveram o seu lugar de destaque.

Chega-nos Chazwick Bradley Bundick (aka Toro Y Moi). Hey Toro, hey Toro! Um génio que se distingue de todos os pares da música eletrónica pela capacidade incrível que apresenta ao trabalhar texturas ricas de melodias mas nelas concentrar imensas marcas (deste e de outro tempo) estéticas que vão do funk, ao r&b, indie-pop, rock, synthpop, entre outras.

O dia de ontem contou também com o projeto Mirror People de Rui Maia. Mestre na fusão dos sons clássicos da eletrónica dos anos 80 com os dos nossos dias, Mirror People teve disco de estreia ainda este ano. Chama-se Voyager e resulta de 2 anos longos de trabalho, contando com colaborações de artistas nacionais e de além-fronteiras.

A música de dança teve outro protagonista: Xinobi. Mas assistir a Xinobi sentado faz tanto sentido como comer feijoada ao pequeno-almoço e não houve quem dispensasse da marmita com comida. Bruno Cardoso (ex-guitarrista dos The Vicious Five) é um dos nomes mais reconhecidos da música eletrónica lusa do presente, mas ontem a sala Tejo esteve a meio, apenas para os últimos sobreviventes. Depois do passado rock continua a gostar de bandas e do som orgânico que elas oferecem. Na música de Xinobi a tecnologia pode imperar mas sente-se corpo na forma como a melodia de cada tema é construída. No ano passado estreou-se com o LP 1975, um disco marcante no mercado nacional discográfico de 2014. Já no fim, subimos e descemos escadas e desejamos a todos os super santinhos que nos levassem a rockar para casa.

 

Texto: Mafalda Saraiva

 

Beijinhos, La Bohemie.