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La Bohemie

Percebeste ou queres que te faça um desenho?

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Se há pergunta retórica mais irritante é «Percebeste ou queres que te faça um desenho?». E é irritante porque além de eu não ser arrogante, também não sei fazer desenhos. Ok, se calhar sou um pouco arrogante, mas quanto aos desenhos não há mesmo escapatória possível. E eis a prova.

Não perceberam, pois não? Pois... eu disse que era péssima a desenhar. Mostrei-o à minha irmã e pedi-lhe para me explicar o que entendia destes gatafunhos, mas a sua explicação foi tão elaborada e profunda que percebi de imediato ter sido um erro mostrar uma bodega destas a uma designer. Mania que a malta das artes tem em ser tão lunático e complicar tudo. Mas eu explico... Dizem que todos nós temos uma alma gémea por aí perdida. Ou eu acredito cada vez menos nesta ideia ou a minha alma gémea está tão perdida que assim que a encontrar, ofereço-lhe um GPS. Dos bons. Com alerta de notificações. Estou a brincar, eu não acredito mesmo nesta ideia. E este desenho é sobre ligações, não sobre almas. Todos nós tentamos de alguma forma encontrar a tal alma gémea. Mas como eu não acredito nessa ideia e este desenho é sobre ligações, digo que todos nós tentamos de alguma forma encontrar alguém que se identifique connosco. Ora, naturalmente todas as relações têm altos e baixos, momentos bons e maus, desafios fáceis e difíceis. Todas as relações têm um início e um fim, seja ele quando e como for. E isso muda-nos. Ou devia mudar-nos. O problema é que uma pessoa vai errando, aprendendo, engolindo, desistindo, conquistando, deprimindo e um dia... pum! Encontra a tal suposta alma gémea. É esta. Era mesmo isto que eu queria. Finalmente! Mas, muito provavelmente, quando encontramos essa pessoa, já trazemos tanta bagagem de tantas outras viagens que nos despenhamos com o peso. Então, mas se era mesmo esta a pessoa que eu queria, por que raio não nos entendemos? Por que raio está ela a fugir? Por que raio não estamos a dar certo? Pois... Porque muito provavelmente a outra pessoa também anda à procura da sua alma gémea e não tem de levar com as nossas ex-almas sexagémeas, não tem de carregar com as nossas bagagens, nem te de levar com merdinhas que nada têm a ver consigo. 

Nós mulheres temos muito a mania de, no fim de uma relação, interrogarmo-nos sobre a criação do universo e a existência do buraco negro. Como é que fomos tão tontinhas? Como é que é possível termos sido enganadas outra vez? Culpamos o Karma, o Buda e o cabrão que nos deixou outra vez sozinhas e deprimidas. Achamos que o problema é nosso. Acusamos que o problema é afinal dele. Ou até mesmo ele. Achamo-nos feias e por isso enchemo-nos de maquilhagem para ficarmos ainda mais feias. Achamo-nos gordas e por isso lambuzamo-nos de chocolates e porcarias que nos deixam ainda mais gordas. Achamo-nos miseráveis e por isso cometemos erros e parvoíces que fazem de nós mesmo miseráveis. Primeiro, vitimizamo-nos para terem pena de nós. Depois, tentamos mostrar que estamos bem e que somos as maiores, mas acabam por ter mesmo pena de nós. A minha questão é: por que raio preferimos questionar o lado mau e não nos orgulhamos do lado bom? Eu nunca gostei da extremista ideia de que uma pessoa passa de bestial a besta. Não gosto, nem acredito nela porque uma pessoa não dança o tango sozinha. É verdade que todos nós vivemos qualquer tipo de luto de forma diferente, mas quase todos passamos pelas cinco fases. Negação, raiva, negociação, depressão e aceitação. O problema é que a aceitação devia ser uma fase em que estamos bem connosco, com os outros e com o universo. A aceitação devia ser uma altura em que escapamos do buraco negro e alcançamos paz interior, satisfação pessoal, conquista interna. Mas não, como já estamos boas, bora lá continuar a marchar e a carregar malas e bagagens para despenhar-nos outra vez.

Complicamos tudo, tal como este desenho está miseravelmente confuso e mal desenhado, mas a ideia continua a ser muito simples: pode até existir uma qualquer alma gémea para cada um de nós, mas em todas as viagens, por mais bagagens que carreguemos, nunca devemos perder a nossa alma, a nossa essência. Ou, traduzido por um desenho, nunca devemos deixar de ser o bonequinho inicial, seja qual for a sua cor. 

 

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Beijinhos, La Bohemie.