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La Bohemie

Pedro Abrunhosa – 20 anos de Viagens em Contramão.

Pedro Abrunhosa no Meo Arena

 

Pedro Abrunhosa não é só do tempo dos meus pais ou do meu irmão mais velho, é também do meu tempo, do nosso tempo. Eu sei que tenho apenas 25 anos, mas já com sete cantava freneticamente as músicas «Socorro! Estou a apaixonar-me» e «Não posso mais, viver assim». Só com sete anos de idade tinha algo em comum com os 16 de Abrunhosa: acreditava mesmo que ia ser cantora. Não sou, nunca fui, mas hoje escrevo sobre quem acreditou mais do que eu, hoje escrevo sobre o concerto de um dos maiores artistas dos nossos tempos e temo que as minhas palavras não sejam justas para com tamanho talento.

Fui para o concerto sozinha, sentei-me sozinha, e no meio de milhares de pessoas, senti-me sozinha. As luzes do Pavilhão Meo Arena apagam-se. Começa a intro instrumental do espetáculo, pausada, sem pressas. Muito calma e sorrateiramente entram os músicos e ocupam os seus lugares. Pedro Abrunhosa sobe ao palco com um holofote na mão e percorre todos os cantos da Arena como um farol ilumina o Mar. No ecrã de fundo, uma imagem a preto e branco que tantas vezes coloriu as minhas noites. Os versos «Vem ver-me esta noite/ Se a solidão deixar/ Aponta-me os faróis/ Depois vem devagar» lembraram-me como o «Senhor do Adeus» me comoveu tantas vezes no silêncio e solidão de uma Lisboa que dormia, recordaram-me as tantas vezes que encontrei naquele gesto de adeus simples e sorriso puro o calor e sinceridade de quem muito provavelmente se sentia tão sozinho como eu. Logo de seguida «Voámos em Contramão» nas «Viagens» onde «Pode o Céu Ser Tão Longe» na companhia de mais de uma dezena de músicos e mestres que fizeram com que eu não me sentisse tão sozinha. Pedro Abrunhosa começou a sua carreira na música acompanhado pelos Bandemónio, mas agora os Comité Caviar são fundamentais na gravação e decisivos para atacar os palcos – Cláudio Souto nos teclados e órgão, Marco Nunes e Paulo Praça nas guitarras, Miguel Barros no baixo, Pedro Martins na bateria e percussão e, ainda, Eurico Amorim no piano. É uma banda com muito mais atitude e, sobretudo, com uma força brutal em palco, mas esta noite tivemos direito a um espetáculo com todos.

Quando eu digo todos, são todos. Ao sexto tema da noite, «Hoje é o Teu Dia», Pedro Abrunhosa convida os fotógrafos presentes a subir ao palco e fotografarem onde quiserem, como quiserem. Esta sua atitude tem vindo a tornar-se um clássico e só prova que por trás daqueles olhos escondidos, há um coração destemido. «A festa hoje é feita aí em baixo», prometeu-nos, mas logo a seguir, no tema «Ponte Entre Nós» é a vez do público sair da plateia, descer bancadas, correr para cima do palco e juntar-se ao espetáculo. As pessoas apressavam-se, as pessoas afilavam-se, mas como nos diz a mensagem política: «Calma, o povo é sereno». A noite é de festa e euforia, a noite é de tristeza e nostalgia, a noite é de saudades e emoções, mas no fundo, o «O Melhor Está Pra Vir». Pedro A. não é só um músico e um compositor que escreve e canta, P. Abrunhosa é emotivo, é certeiro, é humano. Escreveu e dedicou este tema à Associação Mundos de Vida, de Vila Nova de Famalicão, e partilhou connosco o quão duro foi perder cedo demais o amigo, colega e técnico de estrada, Jorge Sousa, ao cantar «Toma Conta de Mim», homenageando assim a sua «tenacidade, luta e bondade».

Todas as músicas de Pedro Abrunhosa obrigam-nos a inspirar, suster a respiração e expirar tão depressa como a backing vocal Diana Martinez cantou «Não Posso +». Em «A.M.O.R», o artista faz referência aos atentados ao Charlie Hebdo, que antecederam a sua atuação no Olympia de Paris, desabafando «Não acredito que haja deuses que matam pessoas que fazem desenhos». Não falta Amor, falta Amar, penso para comigo, mas Abrunhosa canta que «É Preciso Ter Calma» e não dar o corpo pela alma e rapidamente percebemos que todos nós precisamos de um «Momento» a sós ou com o piano, ir «Acima & Abaixo», gritar «Socorro» e «Talvez Foder». Mas Pedro Abrunhosa sabe que tem de «Fazer o Que Ainda Não Foi Feito» e percorre o público, cumprimenta-o, abraça-o. Na música como na vida não há impossíveis e o silêncio leva sempre ao caos. É esta a mensagem que nos transmite nestes escuros tempos que atravessamos e que as suas músicas têm coberto de luz a estrada de muitos. Das histórias que muitos generosamente partilharam com ele ao longo dos anos, fez canções. De sete álbuns editados em 20 anos, partilhou connosco as mais bonitas, as mais sentidas. Dos milhares e milhares de quilómetros corridos a palmo e amor, recolheu um mar de afetos que hoje o é por dentro. Despediu-se de nós, mas eu sabia que a luz daquele holofote que trouxe na mão e ainda iluminaria mais a minha noite.

Com um único encore, Pedro Abrunhosa voltou com «Eu Não Sei Quem Te Perdeu» e eu percebi que me encontro muitas vezes nas suas letras. O último convidado da noite foi um dos melhores fadistas da sua geração, o pequeno grande Camané, e de repente desejei voltar «Para Os Braços da Minha Mãe», mas a dupla acalmou o meu estado com «Ilumina-me». Para Pedro Abrunhosa, um Disco é cada vez mais um Livro, uma narrativa contínua de histórias desencontradas que se reencontram na Música que escreve, de personagens, por vezes atormentadas, outras felizes, de sentimentos de perda ou de conquista que acabam por ser comuns a muitos de nós. Através da Música fez memória, história e futuro. Encontrou eco nas vozes de tantos tornadas fortes pelo uníssono da consciência, da vontade, das revoltas e da dádiva. E é essa capacidade de regeneração que brota dele em cada concerto e que continua a ser o motor emocional da sua escrita.

A tour Inteiro não é só um conjunto de concertos de apresentação do mais recente álbum Contramão e é muito mais do que 20 anos de Viagens. Inteiro é apenas uma parte de «Tudo o Que Eu Te Dou» porque fica sempre a questão: «Se Eu Fosse Um Dia O Teu Olhar». Inteiro foi um concerto que encheu mais uma sala de espetáculos, foi um concerto que nos fez partir em pequenos e dispersos pedaços.

 

Texto: Mafalda Saraiva

 

Beijinhos, La Bohemie.