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La Bohemie

PAUS, Palmas e Martinis.

Segundo dia d´O Sol da Caparica

 

O Sol da Caparica não é só um Festival, mas a celebração de música, surf e cultura urbana. Para lá da festa das ondas e da festa paralela das diferentes tribos musicais, há a celebração permanente de um património comum que é a língua que a nossa História ofereceu ao mundo. Ontem foi o segundo dia de celebração d´O Sol da Caparica e nós fomos apanhar umas ondas, de música.

Palco Blitz

Procura a simplicidade, amor e é nisso em que acredita. O percurso de Dino D’Santiago pela música portuguesa conta, ele mesmo, uma história interessante da nossa ideia de lusofonia e do crescente sentimento de harmonia com a nossa identidade que se sente em muitos artistas. Dino gravou em nome próprio, passou pela Jaguar Band dos Expensive Soul e formou os Nu Soul Family com Virgul, homem que então militava nos Da Weasel. Até que se encontrou como Dino d’Santiago.Eva foi o resultado desse encontro de uma nova identidade, um disco diferente: este disco é ele, é o resultado do que vê, do que sente, como nós sentimos em nos temas «Kabu Tchora», «Santa» e «Monti Graciosa». O disco conta com a participação do cantor cabo-verdiano Jay, no tema «Nôs Tradison» e do cantor e compositor angolano Paulo Flores – que atuou no palco SIC/ RFM – em «Pensa na Oji». O crioulo de Cabo Verde e o português são as línguas dominantes, numa mistura perfeita de sons únicos da lusofonia. Foi este novo sentir que Dino levou ontem ao Sol da Caparica, perante uma plateia ainda pouco composta, mas bastante interessada no seu trabalho.

Gostei muito da Brigada Victor Jara, tanto que senti vontade de cortar os pulsos. Na vertical. E ainda bem que fui a única, porque o público, bastante mais velho e devorador de bailaricos deste querido mês de Agosto, fartou-se de dançar e de cantar canções cujos versos «Ponha aqui o seu pezinho, devagar, devagarinho» e «Sim, sim, Marião, não, não Marião» ecoam no ouvido para lá ficar, mesmo sem querermos. A Brigada Victor Jara é a maior instituição da música tradicional do nosso país e este é um ano importante na sua muito recheada carreira: a Brigada comemora 40 anos de uma frutuosa atividade com a edição da caixa retrospetiva Ó Brigada que reúne os 10 álbuns que o coletivo lançou desde a sua fundação em 1975. Demasiado tempo para eu não saber sequer quem eram, mas eles são muitos. As canções que foram sendo lançadas em trabalhos como «Eito Fora», «Tamborileiro», «Marcha dos Foliões» ou «Danças e Folias» foram cruciais para o entendimento geral que se tem da música de raiz em Portugal, ajudando-nos a todos a conhecermos melhor as nossas próprias tradições. Ontem chegou a vez do público d´O Sol da Caparica poder igualmente aplaudir a Brigada e dançar como se estivesse num verdadeiro bailarico popular, mas para mim os Santos terminaram em Junho.

Acontecesse o que tivesse de acontecer, sabia que às 20h00 tinha de estar na primeira fila do Palco Blitz para ouvir uma das minhas bandas portuguesas preferidas. Eles são a força da batida atlântica e o peso da velha Europa. Eles são o que verdadeiramente se pode descrever como um fenómeno. Eles são os OqueStrada. Deram que falar pela primeira vez em 2009 com Tasca Beat, um álbum em que apresentaram uma visão descomprometida da portugalidade, pegando no fado e noutras marcas musicais da nossa identidade para lhes darem um twist bem ao sabor do século XXI. E foi precisamente naquela tarde de Junho de 2009 que tive um acidente de carro a ouvir esta banda que pouco conhecia, mas tanto mexia comigo. Estava tão embalada na sua sonoridade que em vez de entrar em pânico, fiquei sentada no carro a cantar cada verso como se nada à volta importasse. O sucesso foi imediato: dentro e fora de portas, Marta Miranda, Pablo e João Lima não tardaram a viajar por todo o mundo. Já em 2014 chegou um novo capítulo nesta singular história musical. Esta “AtlanticBeat Mad’in Portugal” lança o conceito de canção dançante, um dancing music bordado à mão, sem complicações. Quem os vê em cima do palco quase que pensa ser uma banda circense, com a vocalista a passear-se no palco em movimentos feirantes, num vistoso vestido verde estonteante e uma saia preta com uma ancora, ou até mesmo um músico em cima de um banco a tocar numa bacia e ainda outro artista vestido de marinheiro a tocar trompete. Essa ideia de um certo artesanato sonoro acaba por distinguir o trio que pega na simplicidade para fazer coisas complicadas, como meter muita gente a cantar as suas canções – «Sesta Rua», «Eu e o meu país» e «Oxalá Te Veja», são as mais conhecidas e mexidas. E no recinto, já com o sol a despedir-se do Sol, o público não só dançou freneticamente como cantou em uníssono todas as músicas, das mais calmas às mais rítmicas ou até mesmo instrumentais. Ontem os Oquestrada preparam-se para vir dar o seu toque Atlântico ao Sol da Caparica, num espetáculo intenso e emocional, chegando mesmo Marta Miranda a subir a um dos andaimes laterais do palcos e rezar aos Céus. Ou aos marinheiros.

Os PAUS são aquilo que normalmente se designa como um super-grupo. Mas não necessariamente porque no seu seio se abrigam talentos com carreiras ligadas a outras bandas, como Linda Martini ou Vicious Five, mas porque tem de facto super-poderes. Nos álbuns PAUS e Clarão, de 2011 e 2014 respetivamente, apoia-se uma singular visão artística que lhes tem valido a presença regular nas listas de melhores discos do ano, aplausos generalizados da crítica nacional e internacional e os favores do público que corretamente entende os seus concertos como incríveis momentos de celebração. Já este ano os PAUS editaram o álbum Bota Perna, expressão direta e bem humoradamente derivada de boot leg, que documenta a incrível força que conseguem conjurar ao vivo, numa espécie de esquizofrenia difundida em fumo. Super-poderes, de facto. Os Paus têm levado a sua música celebratória, entusiasmada, incrível a diversos países do mundo, tendo realizado tours por toda a Europa e até América do Norte. E em boa hora chegaram à Caparica: o concerto está rodado, a música plenamente afinada, o entusiasmo no nível máximo. Ontem à noite, perante o palco repleto de fãs, iniciaram o concerto com o tema «Corta Vazas» para enlouquecer de imediato quem os assistia. Sem grandes conversas, «Mudo Surdo» é demasiado confusa e «Clarão», uma música dedicada à Margem Sul e ao hip-hop fazendo a o trocadilho com Carlão. Com as primeiras palavras de «Bandeira Branca», o público que, até então, estava em modo “sardinha enlatada” começa a distanciar-se, devido ao pequeno mosh pitque surgiu bem nas primeiras filas. Surge finalmente o derradeiro single «Deixa-me Ser» e os temas «Cauda Curta» e «Pelo Pulso» foram guardados para o final, fechando o concerto com chave de ouro! Pedia-se mais. A duração de menos de uma hora para um concerto dos PAUS soa sempre a pouco, e apesar das muitas músicas deixadas de fora, algumas fizeram mesmo falta, como o caso de «Lupiter Deacon» e a tão pedida e esquizofrénica «Nó».

Para terminar a noite no palco Blitz, fomos beber Martinis com rock e uma pedra de gelo. Os Linda Martini são, obviamente, uma banda de trabalho que tem os olhos sempre postos no futuro, sendo uma grande referência e um mais que incontornável ponto da História do rockportuguês. A banda de Cláudia Guerreiro, que foi mãe há pouco tempo, Hélio Morais, André Henriques e Pedro Geraldes é um dos mais sérios casos de militância do nosso país. Compreende-se porquê. O trabalho desenvolvido pelos Linda Martini nos álbuns Olhos de Mongol, Casa Ocupada e Turbo Lento e ainda em Eps como «Marsupial», «Intervalo» e agora «Linda Martini» constituem um originalíssimo corpo de canções, com força, eletricidade, velocidade, peso e algo mais que só a eles pertence. Esse carácter singular valeu múltiplos aplausos à banda que tem visto não apenas os seus discos serem distinguidos, como os seus concertos serem acompanhados por um intenso fervor. Ouvir os Linda Martini é sentida uma vontade imensa de viver, saborear a garra de lutar, o sangue a ferver. A vontade de ir, o prazer de chegar. O som está mais adulto e trabalhado. Tem mais rock e é mais bonito. Os gritos de revolta soam a esperança, as guitarras desalinhadas dialogam entre si com a cumplicidade dos amantes, o baixo sublinha a intensidade da música e a bateria descarrega toda uma garra própria de quem ama o que faz. Com o recinto lotado de fãs, os Linda Martini subiram ao palco e abriram o concerto com «Dá-me a tua melhor faca», mas nós nem com selfie sticks podemos entrar no Festival, por isso limitámo-nos a cantar e aplaudir. O registo cuidado e tranquilo das cordas anunciam a urgência que se aproxima enquanto a batida frenética da bateria traça a ansiedade do som que suplica e deseja explodir. O ritmo continua com o frenesim de «Panteão», uma canção que leva o público a suspirar, saltar e gritar. «Febril (Tanto Mar)», é um manifesto desconcertante que o sample de «Tanto Mar» de Chico Buarque ajuda a tornar mais intenso. A canção é desconcertante, faz- nos largar a raiva e a ansiedade dos dias com a violência do instrumental e dos refrões. No público grita-se «tenho o sangue a ferver», berra-se da ressaca de movimentos e intenções. Canta-se, sente-se, vive-se. Os Linda Martini arrastam centenas de fãs aos seus concertos e pedem dinâmica, vida e agitação, no qual o mosh e o crowd-surfingfazem mais do que sentido nos seus concertos. «Amor Combate» dedicada a Makoto por ter substituído Cláudia nos meses de gravidez e logo a seguir «Ratos», sofredora e bombástica, com refrão cantado a plenos pulmões, fez o seu papel de single conhecido numa audiência febril, de absorção imediata que serve de ponte com o álbum anterior e continuou até encontrar a ebulição na canção seguinte. «Juventude Sónica», de um Casa Ocupada que envelhece bem no seu estatuto de clássico recente, levou as hormonas adolescentes à ebulição. A maravilhosa e suave canção «Volta», composição escolhida como o segundo single do último álbum e que mostra uma faceta mais tranquila, culminando a interação com uma invasão de palco recebida de braços abertos pela banda num «Cem Metros Sereia» que encerraria o “falso encore” com chave de ouro. Obrigada Linda pelo Martini.

Palco SIC/RFM

As primeiras atuações no palco SIC/RFM estiveram a cargo de Vitorino e do artista angolano Paulo Flores. Autor, compositor e intérprete, Paulo Flores é uma das principais referências na música de Angola e um defensor incansável do semba. A voz de Flores, doce e quente, vibrante e grave, inspira-se na tradição urbana de Luanda e conta-nos histórias de ontem, de hoje e de amanhã, o que ajuda a explicar porque tanto ressoa a sua música junto do público. Angolano e não só. O artista explora o olhar crítico da geração que cresceu depois da independência e reflete o sentimento de revolta face à destruição que assiste no seu país. Encontra as palavras certas para falar da extraordinária capacidade de resistência do povo angolano, da sua energia e da sua vitalidade, expressos na sua música e na sua dança. O semba de Angola é através de Paulo Flores revisitado nas suas matrizes tradicionais e reinventado graças ao talento de Mias Galheta no baixo, à harmonia dedilhada do violão de Pirika Duia, aos perfumes urbanos do acordeão e do piano de Ciro Bertini, ao carisma das frequências elétricas de Tedy Nsingi e graças ainda às percussões tradicionais como a puíta, a dikanza, o mukindo, o hungo e os batuques. Paulo Flores é um tesouro de Angola e um tesouro do mundo. E é em palco que este tesouro pode ser melhor apreciado.

Vitorino é, sem dúvida, um dos artistas-chave da lusofonia, mas é igualmente alguém que soube olhar para lá desse universo e aproximar-se doutras culturas e doutras línguas, nunca esquecendo, no entanto, a sua identidade profunda que tem raízes no Alentejo. No palco do Sol da Caparica, aproveitou o especial cenário balnear para regressar à “sua” Havana revisitando o projeto especial que gravou com o Septeto Habanero e que é um dos momentos mais altos da sua vasta discografia. E essa é uma ideia importante, a da vastidão da obra de Vitorino. Um dos seus maiores êxitos, «Menina Estás à Janela» não foi esquecido.

Tim é um dos maiores heróis da música portuguesa e não apenas pela sua posição de vocalista da mais duradoura máquina rock do nosso país, os Xutos & Pontapés, mas também porque há muito é timoneiro e pode reclamar uma posição dianteira numa certa forma elétrica de escrever em português, com uma voz defensora dessa nobre arte de cantar na nossa própria língua. Nesse sentido, ofereceu ao imaginário português e ao cancioneiro nacional inúmeras pérolas que fazem, verdadeiramente, parte da nossa cultura, de «Remar Remar» a «Contentores». A sua voz e personalidade marcaram igualmente outras aventuras, como os Resistência – que atuaram ontem à noite – , que continuam a dar cartas no presente, ou os Rio Grande cujo «Postal dos Correios» se tornou outro momento clássico a que imediatamente se associa a voz de Tim. Além dos projetos colaborativos e da entrega a uma sempre agitada carreira dos Xutos que não tem conhecido outro sentido que não o ascendente, Tim foi desenvolvendo uma rica carreira a solo a partir da edição em 1999 do álbum Olhos Meus. Companheiros de Aventura, álbum ao vivo e que também teve extensão em disco de palco, foi a mais recente etapa de um percurso em nome próprio que em comum com todos os outros bem recheados capítulos da sua história tem a nota tónica da total entrega às canções e às suas palavras. Tim foi um dos nomes mais aguardados no palco SIC/ RFM, teve como convidado especial João Cabeleira que festejava o seu aniversário e cantou temas como «A Estrada», «Avenida», «Lisboa» e para terminar «Túnel», deixando o público ao rubro com canções que lhes são tão conhecidas.

Jorge Palma está cheio de força e em pleno! Pelo menos é o que dizem os rumores. Mas Jorge é outro veterano incontestado da música nacional, um cantautor de corpo inteiro que ofereceu incontáveis clássicos ao cancioneiro português, de «Frágil» a «Encosta-te a Mim». Subiu ao palco para iniciar um concerto com os temas «A Chuva Cai» e «Dormia Tão Sossegada», mas os fãs mostraram que estavam bem acordados e nada sossegados. Presente na música portuguesa desde finais dos anos 60, estreou-se em nome próprio em 1972 e desde aí não parou de construir uma das mais distintas e aplaudidas carreiras da música portuguesa. Jorge Palma é o Rei! Mais de uma dúzia de álbuns originais dão-lhe uma das mais extensas discografias do rock nacional, um extenso reportório de onde extraiu um alinhamento memorável para o Sol da Caparica, com as canções «Dá-me Lume», «Deixa-me Rir» e «Encosta-te A Mim». Em termos de trabalhos de maior fôlego tudo começou há exatamente 40 anos, com Com Uma Viagem na Palma da Mão, trabalho que é hoje visto como um dos tesouros que a nossa cultura elétrica gerou na década da revolução. E desde aí a sua carreira fez-se em crescendo: de aplausos, de exposição, de sucesso e de prémios. Repito, Jorge Palma é o Rei! Bairro do Amor rematou-lhe os anos 80 e inaugurou-lhe os anos 90, década em que os seus pares se reuniram à sua volta para criar o Palma’s Gang (com Zé Pedro e Kalu dos Xutos ou Flak e Alex dos Rádio Macau a secundarem-no). Palma cantou-nos «Portugal Portugal», «A Gente Vai Continuar», mas logo a seguir chegou mesmo a terminar o concerto com o tema «Picado Pelas Abelhas».

Nem sempre o melhor fica para o fim, de qualquer forma, Paulo Gonzo é igualmente um veterano absoluto, dono de uma das mais longas carreiras musicais do nosso país, sendo um dos intérpretes que o público português mais aprecia. Ou pelo menos um certo tipo de público. A sua entrega particular e a sua voz única são os pilares principais de uma carreira que continua a surpreender. O marco mais recente da carreira de Paulo Gonzo, que remonta a 1975, ano da formação da mítica Go Graal Blues Band, é o álbum Duetos que o viu a cruzar a sua voz com a de alguns dos maiores nomes da música que se faz e ouve em Portugal: de Anselmo Ralph a Jorge Palma, de Rui Reininho a Fafá de Belém e mais além. O concerto de ontem à noite, quase a terminar a noite de atuações, cantou enormes sucessos como «Sei-te de Cor», «Ser Suspeito», «Dei-te Quase Tudo» ou «Jardins Proibidos». Trata-se de canções que suportaram recordes de vendas, de airplay e que ainda hoje fazem vibrar diferentes gerações. Foi este o percurso que Paulo Gonzo levou ao palco d´O Sol da Caparica, conquistando certamente um público ávido daquelas canções de que se fazem as suas histórias individuais.

Para terminar o segundo dia d´O Sol da Caparica, fomos ouvir o Senhor do House. No panteão máximo dos djs nacionais encontra-se, já há vários anos, o nome de Mastiksoul, um dos mais apreciados mestres do house em terras nacionais, conceituado remisturador e produtor que alia à sua capacidade de impor a festa nas maiores pistas de dança um óbvio talento para escrever temas que conquistam invariavelmente espaço nos lugares cimeiros das tabelas de vendas. Por momentos fiquei na dúvida se tinha regressado à minha viagem de finalistas ou ao Meo Sudoeste, mas a verdade é que já não dançava até escorrer água há muito tempo. E diverti-me como se tivesse voltado aos meus queridos 17 anos, numa mega festa com serpentinas e confetti. O recinto estava cheio e é demasiado injusto dizer que não senti uma certa nostalgia no meio daquele ambiente que já não me pertence. Mastiksoul começou a carreira nos anos 90, mas foi já neste milénio que afirmou a sua visão única de um house de raízes tribais onde a sua herança africana acaba por desempenhar um importante papel. Naked in the Streets é um dos mais recentes êxitos. «In Love», colaboração com Anselmo Ralph, é outro importante e recente êxito, parte do seu mais recente projeto Night and Day que o apresenta como um homem com duas visões.

 

Texto: Mafalda Saraiva

 

Beijinhos, La Bohemie.