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La Bohemie

Para (quase) sempre.

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É quando chego à noite a casa e oiço a tua respiração tranquila que me apetece fechar as portas do mundo e inventar outra vida num outro lugar, onde só existimos tu e eu, e talvez aqueles que amamos.

Antes de ti eu já sonhava com uma vida assim, a chave na porta à procura de uma respiração tranquila, um olhar eternamente pousado no meu, as mãos sempre à temperatura certa sobre as minhas ancas e a certeza de que amanhã estarás aqui comigo e a certeza ainda maior de que amanhã tem muitos dias, tantos quantos a vida assim permitir. Antes de ti eu sonhava com a tristeza e o medo de quem sabe que isso pode nunca acontecer. E sonhava acordada e a dormir, antes e depois de todas as decepções, porque essa era a minha incerta certeza. Não sabia que te ia encontrar, não imaginava o azul dos teus olhos nem o tamanho das tuas mãos, mas, quando te vi e me senti para (quase) sempre em casa, percebi que estava a viver o sonho tantas vezes enganado e adiado e isso deu-me vontade de nunca mais te largar.

Quando me vens à memória, lembro-me sempre daquele abraço imenso, junto ao rio, um abraço que me levou para fora deste mundo, enquanto assistia ao desenrolar da minha anterior existência. Lembro-me que senti muito medo. Um medo enorme, quase infinito, como se desaparecesse nos teus braços e não voltasse. Mas o teu olhar azul tranquilizou-me, a tua voz era uma bálsamo de doçura e magia e as tuas palavras, certas e serenas, faziam-me sentir que tudo estava certo e, por isso, quando passavas muito devagar as tuas mãos pela minha cara e ficavas a nadar nos meus olhos era como se me levasses para um lugar qualquer só nosso, cheio de verde e de azul, e se calhar era por isso que te dizia que confiava em ti, e, mesmo quando não vinhas, eu adormecia tranquila e serena, porque já te tinha cá dentro e pensava que podia ser assim para (quase) sempre.

Agora os meus dias começam e acabam contigo, a tua respiração enche o meu ar, acompanha-me no silêncio das manhãs e no sossego das noites, e todos os dias agradeço à sorte ter-te encontrado naquela tarde, com Lisboa a enfeitar-me os sonhos e a imaginação. Quando falámos e ouvi a tua voz pela segunda vez e me senti para (quase) sempre em casa respirei fundo por não seres mais um equívoco, um engano, um sonho adiado. Tu foste ficando, com a doçura de quem tem a certeza daquilo que quer, e agora já não me quero lembrar de como era a minha vida antes de me entregar a ti. Sei que houve dias de alegria e outros de solidão, lembro-me de um vazio quando chegava a casa e a chave na porta não seguia nenhuma respiração. Lembro-me que estava frio e que a cama me parecia imensa, tão imensa que, às vezes, antes de adormecer, pensava que quando acordasse na manhã seguinte não me iria conseguir encontrar nela. E lembro-me de mais coisas, mas o passado é só uma prisão que não nos deixa andar para a frente nem nos ensina a ser melhores, por isso guardo-o onde ele deve estar e ponho os olhos num lugar distante, onde podemos desenhar o futuro. Para (quase) sempre.

 

Beijinhos, La Bohemie.

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