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La Bohemie

Os óculos são como os homens.

Os óculos são como os homens. Quando somos miúdas achamo-los horríveis, toscos e feios. Não gostamos deles, ficam-nos mal e somos gozadas se os usarmos. Fazemos de tudo para os evitar até uma certa idade, mas há um dia que não há maneira de os ignorar. Começamos a ver a vida passar cada vez mais depressa e tudo nos parece mais distante, mais turvo, mais desfocado.

A escolha dos primeiros óculos não é fácil, é um momento tão importante que nos sentimos nervosas e levamos tempo a escolher o par perfeito. Experimentamos um e outro e ainda outro. Por vezes voltamos ao primeiro, mas decidimos pelo último. É aquele. O par perfeito. Os óculos que farão parte de nós por tempo indeterminado. Muitas vezes custa a habituar-nos mas depois de os sentirmos nossos, parte de nós, exibimo-los com orgulho e vaidade. Queremos que todos vejam o nosso novo par de óculos, queremos que reparem como fazem os nossos olhos maiores, mais brilhantes e definidos. Queremos que todos gostem deles e que gostem ainda mais de nós com eles. Quem não gostar leva com uma resposta torta, um insulto, uma cara feia. Com o tempo também somos apanhadas pela tendência dos óculos de sol. Primeiro porque é moda, toda a gente usa e fica bem mantermos um certo secretismo ao escondermos os olhos de quem se cruza connosco na rua. Depois porque nos tornamos mais sensíveis à luz do dia e precisamos mesmo deles para nos protegermos. Todas nós sentimos falta de protecção. Todas nós desejamos ser protegidas, seja do sol, seja da poeira que passa e incomoda.

Os óculos são como os homens. Há quem tenha apenas um par, o tal, o perfeito, o insubstituível. Há quem prefira coleccioná-los e trocar de par todos os dias, todas as semanas, todos os meses. Curiosamente no Verão gostamos de ter vários pares, às cores, com riscas, de lentes espelhadas. Raramente sabemos deles, atirados para o fundo de uma mala, perdidos na esplanada do café, riscados com a areia da praia. Trocamos tanto de óculos, como de biquínis, como de amores de Agosto. Depois vêm os saldos, optamos por comprar uns bons, caros e de marca para que durem imenso tempo. Gostamos tanto deles que os estimamos, cuidamos e guardamos cuidadosamente na caixa. Estes vão durar, pensamos. Estes são dos bons, têm de durar. E mesmo antes de pedirmos os desejos do novo ano, partimo-los como quem rebenta um foguete, como quem estala um copo de champanhe. Ano Novo, óculos novos. Agora é que vai ser

Os óculos são como o homens. Levamos uma vida a desabafar que precisamos de uns novos. Levamos uma vida a comprar e a perder óculos bons e maus. Levamos uma vida a procurar os malditos óculos de sol, de ver, de sentir, quando eles sempre estiveram ali, na cabeça, na caixa, no coração.

 

Beijinhos, La Bohemie.

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