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La Bohemie

Os Buraka rebentaram com o Sistema. O nervoso, não o de Som.

Segundo dia do Optimus/ NOS Alive

 

O termómetro marcava os 34 graus. A ressaca de um primeiro dia de concertos lotados obrigaram o corpo a percorrer o Pórtico do Optimus / NOS Alive devagar. Já não se avistavam filas intermináveis para trocar bilhetes por pulseiras. O frenesim e a agitação de miúdos e graúdos já não se fizeram sentir com a mesma intensidade. Deve ser da idade.

Os Buraka Som Sistema foram a última banda a subir ao Palco NOS e prepararam uma noite muito especial ao apresentar o novo álbum, Buraka. Memorável. Conhecidos pelo espectáculo efusivo, pela constante energia e consistência, os Buraka Som Sistema aprumaram-se para a segunda noite do Festival. Uma festa que envolveu muita interacção com o público, em que a banda prometeu não ser só as filas da frente a juntarem-se à festa. Para além do maravilhoso e trabalhado “bumbum” da vocalista, Blaya, tivemos direito a milhares de confetes e a uma legião de fãs femininas a dançar no palco. Sim, foi mesmo um cenário de fazer bem à vista. Garantiram ter tudo para ser um dos espectáculos mais memoráveis que a banda apresentou em Portugal até à data. «Stoopid», «Parede»  e «Vuvuzela (Carnaval)» foram alguns dos temas novos que o grupo apresentou juntamente com verdadeiros clássicos como «Hangover», «Kalemba (wegue wegue)» e «We Stay Up All Night».

São um dos maiores sucessos dos últimos tempos. Aliás, se dúvidas houvessem, bastava ouvir a «Lonely Boy» para perceber como se ginga o corpo e bate-se o pé.  A dupla Dan Auerbach e Patrick Carney estreou-se no Optimus / NOS Alive e  apresentou-se no Palco NOS para a sua única actuação em Portugal este ano. Os norte-americanos The Black Keys não são um caso de sucesso instantâneo, construíram a carreira de forma cimentada, sem pressa, nem preocupação com o estrelato. Optaram antes por ganhar fama como uma das bandas mais trabalhadoras da actualidade, editando discos a uma velocidade vertiginosa e fazendo digressões constantes. O estilo garage rock que os caracteriza começou a ganhar forma com o primeiro longa-duração, The Big Come Up (2002) e foi sendo aprimorado com o passar dos discos – o último, Turn Blue, foi editado em Maio é já um caso de sucesso.

Andrew VanWyngarden e Ben Goldwasser parecem ter sido bem educados no que diz respeito à base musical do MGMT. Basta passear pela curta obra dos norte-americanos para perceber o quanto a essência de veteranos do rock psicadélico se evidencia confortavelmente em cada faixa do projecto. Ao alcançar o auto intitulado terceiro álbum de estúdio, todas as velhas marcas e referências iniciais assumem um efeito ainda mais nítido na proposta da banda, quase escancarado. São canções como «Your Life Is A Lie» e «Alien Days e Astro-Mancy» que podem até passar disfarçadas como composições autorais, fruto da inventividade do duo, mas que são na verdade reflexo de horas de clássicos apreciados exaustivamente sem qualquer acréscimo aparente. Por mais irregular que seja a obra de MGMT, ambos são habitantes de um universo tão estranho quanto  a própria música e fazem de cada novo registo visual a abertura para um cenário particular. As novas músicas são mais calmas e entediantes, o som do concerto desta noite estava péssimo, a banda não conseguiu conquistar o público como seria de esperar. Deparei-me com muitos visitantes sentados no alcatrão e só mesmo a mítica «Time To Pretend» os fez levantar.

Os portugueses The Vicious Five foram os primeiros a subir ao Palco NOS. «Nós fomos os Vicious Five. Bem-vindos ao nosso funeral». Palavras proferidas pelo vocalista neste regresso para o primeiro de dois concertos de despedida. A banda decidiu afastar-se há cinco anos, mas bem ao estilo de Monty Python, decidiram celebrar a sua morte juntos dos vivos.

O trio The Last Internationale também subiu ao Palco NOS. O projecto nova-iorquino contou com Brad Wilk na bateria, além de Delila Paz e Edgey Pires e trouxe a Portugal alguns dos temas do próximo álbum, We Will Reign, a ser editado em Agosto deste.

Uma agradável surpresa foram as actuações no Palco Heineken. Allen Stone é um hippie com alma. Fiquei quase uma hora sentada numa esplanada virada para o palco a assistir ao concerto do músico de soul e R&B. E petrificou-me. Influenciado por Stevie Wonder, Marvin Gaye e James Morrison, as músicas «Celebrate Tonight», «Last To Speak» e «Better Of This Way» entram no ouvido e perfuram a alma.

For Pete Sake faz-nos viajar por universos musicais próximos do folkindie rock e surf-pop. O sexteto de Lisboa faz música com formato tentacular numa mistura que é a receita perfeita para ritmos contagiantes e harmonias de voz bem trabalhadas. Os dois vocalistas – os irmãos Pedro e Concha – têm tanta pinta como um céu estrelado.  A juntar a eles, Vasco Magalhães (bateria), Vítor de Almeida (sintetizadores, piano e voz), Nuno Henriques (baixo) e Daniel Canete (guitarra) formaram-se em 2012 e têm uma agenda cada vez mais preenchida. Ainda não sabem quem são? Talvez conheçam a música «Got Soul» utilizada num anúncio da empresa EDP.

Depois de Au Revoir Simone e antes de Caribou, houve tempo para ouvir SBTRKT (pronuncia-se Subtract). O Dj e produtor Aaron Jerome domina a cena inglesa no seu disco homónimo. Saem os pooooowonnn towonnnn intermináveis, entram batidas quebradas herdadas do drum’n’ bass, graves macios com uma influência de Miami bass, vocais de R&B e uma certa melancolia. A noite terminou com o Dj alemão Alexander Ridha – Boys Noize – a partir pratos no Palco NOS Clubbing.

Hoje é o terceiro e último dia da 8ª edição do Optimus / NOS Alive e os The Libertines ressuscitam para ser cabeças de cartaz.

 

Texto: Mafalda Saraiva

 

Beijinhos, La Bohemie.