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La Bohemie

Os Arcade Fire foram tão “Royalsss”.

Quarto dia do Rock in Rio Lisboa

 

O regresso dos canadianos Arcade Fire e a estreia da neozelandesa Lorde, em palcos portugueses, marcaram este Sábado o Rock in Rio Lisboa, num dia em que o Palco Mundo recebeu uma homenagem ao músico António Variações.

Com o fim da banda Soul Mate iniciada em 2005 pela dupla Calvin e Romeu, nascem em 2013 os UNIFYER, mas o seu primeiro trabalho discográfico, reLOVE, só surgirá este ano. As músicas transmitem ambiências orgânicas e digitais, envolventes e actuais, onde a mensagem ocupa o núcleo da sonoridade. Com um tom positivo, introspectivo e motivador, os UNIFYER abordam nas suas músicas questões relacionadas com a emancipação da mente e do coração, o ambientalismo, os direitos dos animais, o distanciamento entre os Homens que a actual sociedade propõe. Para além de Calvin e Romeu, o baterista Nuno acompanha o crescimento da dupla criativa, assim como Cláudio, nas teclas, e Bruno, no baixo. Os UNIFYER subiram ao Palco da Vodafone às 16h45 e houve momentos acústicos, interação com o público e ainda tempo para Romeu falar das histórias que moldaram as músicas.

São cinco. Chamam-se Tomás Wallenstein, Domingos Coimbra, Francisco Ferreira, Manuel Palha e Salvador Seabra. Embora tenham todos nomes betos e chiques, a estética dos Capitão Fausto aproxima-os do psicadelismo e do rock dos anos 1960 e 1970, nas vocalizações e no tratamento que foi dado às guitarras e à bateria. As músicas «A célebre batalha de Formariz» e «Maneiras Más» fazem parte do novo álbum Pesar o Sol, depois de terem editado em 2011 o primeiro disco, Gazela. Capitão Fausto atuaram no Palco Vodafone às 18h00 e percebe-se porque o seu novo álbum não é obsulento – o quinteto vai adaptando os arranjos à medida que vão soando melhor.

Quem também atuou no Palco Vodafone foram os ingleses Wild Beasts. Editaram em Fevereiro o quarto disco de originais, Present Tense, sucessor de Smother (2011). É um álbum mais melódico e pop com uma mensagem muito política, com o intuito de sensibilizar e consolar as pessoas, e também de reaprender ideias e necessidades básicas. A banda indie-rock britânica aproxima-se agora mais da electrónica e consegue mesmo seduzir o público. Aliás, Hayden Thorpe e Tom Fleming (a voz, entenda-se) seduzem quem quiserem. A música, na maior parte, não é intectual. As letras de «Wonderlust», «Sweet Spot» e «New Life» carregam metáforas sensuais e melodias suaves. O rock é intencionalmente sexual, como se confirmou em «Pregnant Pause».

O Palco Mundo arrancou às 19h00 à grande e à portuguesa, com Gisela João num fabuloso vestido de lantejolas dourado. Gisela é linda, humilde e dona de uma voz incontornável. Cantou a solo as canções «Anjinho da Guarda» e «Quero é Viver» e depois de bater uma salva de palmas ao público, chamou ao palco os Linda Martini, despedindo-se de nós com a maravilhosa «Adeus que vou embora». Os Linda Martini tocarão amanhã no Rock in Rio, mas hoje deram-nos as boas-vindas com «Visões Ficções» e Canção de Engate». No palco a celebração foi arrepiante. Com os adorados Deolinda a cantar «O corpo é que paga» e «É p’ra amanhã», ainda se ouviu «Estou Além», «Dar e Receber» e «Erva Daninha» pela voz de Rui Pregal da Cunha. Numa homenagem ao músico António Variações, que completaria 70 anos este ano, todos os convidados despediram-se das centenas de fãs com a música «Amália na Voz».

O britânico Ed Sheeran tem 23 anos e uma mistura de popfolk e hip-hop. No próximo mês terá novo álbum, «, portanto contentámo-nos apenas com músicas do disco « – «You Need Me, I Don’t Need You», «Lego House» e «Don´t» foram o arranque de um concerto que surpreendeu pela positiva. Mas se Sheeran é pouco dado a grandes títulos de álbuns, em cima do palco a conversa é outra. Estreou-se em Portugal no Palco Mundo às 20h30, mas o jovem cantor, compositor, beatboxer e guitarrista já partilhou o palco com grandes nomes como Elton John e Taylor Swift. Além dos variadíssimos prémios que guarda numa estante em casa, já esgotou três vezes o Madison Square Garden. Mas foi com o single «I See Fire» que Ed conquistou o público mais importante – nós – não dispensando de canções como «Give Me Love» que levou o público a dançar ao rubro e ainda «A Team» e «Sing».

Quem também pisou solo português pela primeira vez foi sua realeza Lorde. «Royalsssss!». É verdade, Royals tornou-se trending esta noite no Twitter.  É nova, é gira e é considerada um fenómeno de sucesso mundial, além de ser uma das grandes revelações da música em 2013. É neozelandesa, tem 17 anos, chama-se Ella Yelich O´Connor, Lorde para os amigos, e tem um estilo difícil de definir, entre o pop, o rock e a electrónica. Além de ser todas estas coisas “fabulásticas” tem um tique estranho a dançar, de cabeça para baixo, como quem procura uma lente de contacto perdida no chão. Ou então é apenas o peso dos cachos de uvas que tem na cabeça. Podia referir que começou o concerto com «Glory and Gore», cantou mais 12 doze canções, terminou com «A World Alone», mas o que interessa é a «Royalssssss». Afinal de contas, foi Trending em Portugal.

47.500 pessoas na Cidade do Rock. «Senhoras e senhores, vamos dar as boas-vindas à fabulosa banda Arcade Fire. Façam barulho!» ouviu-se no Parque da Bela Vista assim que o público é surpreendido com um rôbot enfiado num fato metalizado e cintilante a descer no Slide. O concerto dos Arcade Fire teve como base o mais recente álbum Reflektor, editado em Outubro do ano passado. No ar permaneceu uma aura indie, mas o fogo dos Arcade é pop. No fundo do palco são projectados inúmeros quadrados às cores, imitando o tradicional jogo “quatro em linha”  e ouve-se «Reflektor» e logo de seguida «Flashbulb Eyes». «Ready To Start» e «Month of May» quase se pareceram irónicas uma vez tocadas no último dia do mês. Mas sem ironias, Win Butler afirma-se como um ícone moderno – ontem à noite chegou mesmo a ir beber uns copos ao bar Incógnito e partiu uns pratos. Hoje, no palco, partiu a loiça toda. Houve palmeiras e moinhos de origami prateados. Houve guitarra, bateria, baixo, violino, viola, violoncelo, teclado e acordeão. Houve confettis, a vocalista Régine Chassange cantou num corredor no meio do público acompanhada por um mascarado. E também houve mascarados, qual Carnaval de Torres Vedras. Personagens com cabeças gigantes animaram milhares de fãs da banda, quando de uma delas se desmacara miss «Royalsssss». Mas de lordes está o país cheio, «It´s Never Over». «Normal Person», «Here comes the night time» e «Wake Up» fecharam um alinhamento pensado ao pormenor para um concerto ainda melhor.

 

Texto: Mafalda Saraiva

 

Beijinhos, La Bohemie.