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La Bohemie

Os animais dos seres humanos.

Pesquisei as mais variadíssimas listas com os animais mais perigosos do mundo e em nenhuma delas apareceu o ser humano. E se isto não é de uma atrocidade, então não sei o que é. Andam a enganar toda a gente e ninguém altera a porcaria de um artigo da Wikipédia. Bem dizem, que cada um pode escrever e fazer o que bem entender.

Não me querendo estender demasiado neste desabafo, o que interessa saber é que a minha vizinha da frente tem um cão da raça Pittbull, de 60 kg e cara de mau. Mas má é ela. O cão não passeia, ladra de manhã à noite e está fechado num quintal mais pequeno do que o meu closet. Se faz sol, apanha sol. Se chove, apanha chuva. Até as alas solitárias das prisões dos EUA têm mais condições. Os muros altos do meu jardim não me permitem ver o cão, mas oiço-o e cheiro. As condições atmosféricas não têm sido as melhores e qualquer pessoa sabe qual o resultado de sol e chuva, tempo quente e húmido com rajadas de vento e noites frias. Se não sabem, eu explico: é um cheiro insuportável no meu jardim e grupinhos de moscas irritantes que me entram pela casa adentro caso eu deixe as portas e janelas abertas. 

Ao longo de três meses a situação agravou-se bastante. Nunca conheci a vizinha, nunca a consegui contactar. Fui interpelada duas vezes por uma assistente da Protecção dos Animais que vive no prédio ao lado e tem acesso visual a tudo o que se passa nas traseiras dos prédios. Ainda bem que não ando nua no meu jardim, verdade seja dita. Mas continuando... sabia que teria de fazer alguma coisa. As regras foram alteradas, a lei mudou e pensei que seria muito mais fácil tratar do assunto. Mas não é. Ninguém consegue contactá-la. Ninguém consegue tirar fotografias à situação de modo a ser denunciada. E o cão ladra, de manhã à noite. Escrevi uma carta à vizinha a pedir que resolvesse o problema ou chamaria as autoridades competentes. Arranjei o contacto do senhorio para denunciar a situação e disse que iria tomar medidas. Hoje apresentou-se à porta de minha casa, mas foi a minha irmã que levou com a resposta.

 

- Olha lá, foste tu que escreveste esta carta?

- Não, foi a minha irmã.

- Estive uma semana fora e só li este aviso hoje. Vou deixar o meu contacto caso precisem de falar comigo directamente. Eu trabalho e não tenho tempo de limpar o quintal, mas vou tentar amanhã. O cão é um animal, não é um ser humano, por isso fica lá fora. Eu não o posso passear porque ele é um Pitbull de 60 kg e se a mim me magoa, imagina aos outros cães e crianças. O mau cheiro é da comida, não é das fezes. Como tem chovido, a comida fica molhada e cria aquele cheiro. Mas se precisarem de alguma coisa, liguem para esse número.

 

Esta foi a resposta muito resumida e traduzida de russo para português. De repente, só me ocorre oferecer-me para tratar do cão ou mandar a vizinha tratar-se. Portanto, admite que fica uma semana fora; que não tem tempo para tratar do cão e muito menos passeá-lo. E pior de tudo, que a comida está à chuva e cria mau cheiro. Se a comida cria mau cheiro, imagine-se as fezes. Mas um cão, só por ser um animal, não tem direito a uma refeição digna e saudável? Um cão, só por ser um animal, tem de ficar fechado na rua, à chuva? Um cão, só por ser um animal tem de ser mau tratado pela animalesca da dona?

Não sei mais o que fazer, confesso. Por mais denúncias que faça, a vizinha nunca está em casa - ela vive à minha frente há pelo menos meio ano e eu nunca a vi na vida. A Protecção dos Animais acaba sempre por tocar à minha campainha para saber se eu a vi. Resta-me que o senhorio acredite em mim e tenha muita paciência nas minhas queixas. E que aquele cão consiga ter um destino bem melhor do que tem vivido. 

 

Beijinhos, La Bohemie.