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La Bohemie

O meu irmão.

«Estás a ficar igual ao pai», dizia-lhe tantas vezes com receio de também ele se tornar num monstro que me cortou as asas e quase me matou os sonhos. Mas o meu irmão não é igual ao meu pai. O meu irmão é das pessoas que eu mais admiro na vida. Nunca lhe disse, por isso ele não sabe. Mas escrevo-o agora. O meu irmão é o homem mais importante da minha vida. Vida essa que nos afasta cada vez mais. Por vezes gostamos tanto de uma pessoa que nos afastamos com medo de a magoar, de a desiludir, de a desapontar. Como se um simples toque na pele estragasse a essência do cheiro. E eu sempre tive receio de magoar o meu irmão. Porque sou bruta e digo as verdades sem medir as palavras. Porque sou impulsiva e bato com portas sem medir as réplicas. Porque sou a irmã que sempre viu nele um exemplo a seguir e não sigo. Nunca segui. Um pouco como o meu pai, o meu irmão é tão inteligente que me sinto uma medíocre a conversar com ele. E esse fascínio de ficar horas sentada numa esplanada a beber da sua cultura por vezes desvanece quando me sinto incapaz de acompanhar o seu raciocínio. E por isso a vida afastou-nos. Eu afastei-o da minha vida. As suas feições lembram-me o meu pai. A sua sabedoria lembra-me o meu pai. A sua voz lembra-me a do meu pai. E isso afastou-me. Tudo nele, apesar de tão fascinante, lembra-me a pessoa que mais me magoa há mais de vinte anos e isso afasta-me. E apesar de ser uma guerra minha, é uma batalha para ambos. Eu afastei o homem que mais admiro na vida e nunca tive coragem de lho dizer. Mas escrevo-o agora.

Se não tenho memórias do meu pai durante toda a minha infância, o meu irmão está lá sempre. Sempre. Foi com ele que comecei a andar de bicicleta e fiquei com a perna presa nos raios da roda. Foi com ele que aprendi a subir às árvores e era com ele que passava tardes inteiras numa constante luta de laranjas podres. Era por causa dele que vinha dos pomares todas as tardes a chorar desenfreadamente por causa das urtigas, por causa das cobras, por causa dos bichos esquisitos e medonhos que ele me levava a explorar no campo. Foi o meu irmão que me ensinou a colocar alho em cima de uma picada de vespa depois de ter sido picado por uma no olho. Era com o meu irmão que jogava às escondidas na casa do meu pai nos Olivais. Tem cinco andares e eu passava o tempo perdida entre a garagem e o sótão ou presa no elevador. E de todas as vezes começava a chorar e dizia à Amélia que o meu irmão era um batoteiro. Foi o meu irmão que me ensinou a fazer batota em todos os jogos. Foi com o meu irmão que aprendi a ganhar em tudo ou, pelo menos, não deixar o adversário ganhar. Foi com o meu irmão que aprendi a jogar snooker e pingue-pongue, a apanhar ondas numa prancha de bodyboard e a fazer surpreendentes construções na areia. Foi a mim que me vieram avisar em primeira mão que o meu irmão tinha levado uma tareia com um taco de basebol no colégio e eu desatei a chorar mesmo antes de lhe ver o rosto negro. No colégio eu era conhecia pela «irmã do Ivo». Uma vez os meus irmãos apanharam todos papeira e eu tive de ficar muitos dias longe deles. «Não se pode aproximar, senão também fica doente», dizia senhora minha Mãe. E eu ficava sentada no sofá a olhar para eles com o rosto desiludido. Também queria ficar doente só para poder ficar ali enroscada no sofá com ele. Que triste deve ser não ter irmãos, pensava. Uma vez cheguei mesmo a pedir aos meus pais mais irmãos. Queria a casa cheia de irmãos para brincar comigo. Mas isso não aconteceu e eu tive de começar a gramar com as namoradas do meu irmão, as sonsas. Lembro-me da primeira, a Marta. Era tão bonita que ainda hoje guardo a imagem do seu rosto feliz na igreja, no dia da Primeira Comunhão do meu irmão.

Eu não me lembro do meu pai. Passava o tempo em congressos e a viajar e sempre que eu acordava a única coisa que tinha era uma mesa cheia de presentes. Mas o meu irmão estava sempre lá. Sempre. Em casa, no colégio, na catequese, na natação, no ténis, nas festas, nas viagens. Eu vinha sempre a Lisboa com o meu irmão e passávamos os fins-de-semana com os nossos avós. Íamos para os escritórios da empresa e brincávamos aos doutores. Ao almoço comia sempre um bitoque cheio de batatas fritas. Depois crescemos, o meu irmão saiu de casa e eu vivi os  piores anos da minha vida, enclausurada entre casa e colégio. Saí pela primeira vez à noite com 17 anos e o meu irmão estava lá. Tudo era um inferno sem o meu irmão por perto, sem a sua protecção. Vivi anos com medo do meu pai e um dia também eu saí de casa e vim ter com o meu irmão. Foi ele que me mostrou Lisboa, foi ele que me levou à Universidade Católica no dia das inscrições, foi ele que me ajudou na minha primeira mudança de casa, que me apresentou o homem por quem me apaixonei pela primeira vez. Foi ele que me mostrou as festas, os bairros típicos, os sítios da moda. O meu irmão é muito mais do que aqui escrevo, porque é o meu irmão que me ensina muito do que sei hoje. O meu irmão será sempre muito mais do que aqui escrevo, porque tem sido ele o apoio que não sabe que é. Apesar da distância que lhe imponho, o meu irmão continua a ser o homem que mais admiro na vida. Porque o meu irmão é o melhor irmão que podia ter. E tenho.

 

Beijinhos, La Bohemie.