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La Bohemie

O amor incondicional.

Um dia disseram-me que eu só iria saber o que é o amor incondicional quando fosse mãe, que só iria ter aquele instinto protector quando tivesse um filho nos braços. Eu abano a cabeça como quem diz que sim, como se eu não fosse capaz de dar a vida pela minha Mãe e pelos meus irmãos, como se eu não soubesse o que é terem um cancro ou estarem internados no hospital à beira da morte e eu pedir a Deus com todas as minhas forças para que fosse eu a estar no lugar deles. Como se eu não soubesse o que é errar e massacrar-me por ter dito ou feito algo que eles na verdade não mereciam. Claro que o amor por uma mãe é diferente do amor por um irmão e o amor por todos é diferente do amor por um filho, mas é amor. E é incondicional. No meu caso é incondicional. Se levassem um deles, levavam parte de mim. Por isso não me venham dizer que preciso de ser mãe para saber amar incondicionalmente.

Ontem cheguei de um jantar em casa de uns amigos e a primeira coisa que fiz foi agarrar na Matilde e enchê-la de mimos.  No início não era nada assim, ela sabia que eu chegava a casa e fazia primeiro as minhas coisas e só depois deixava-a passar para a zona da sala e quartos. Tive que me chatear imensas vezes e repetir os mesmos movimentos dezenas de outras porque, de cinco em cinco minutos, encontrava-a entretida a beber café, a deitar velas ao chão, a derrubar as filas de livros que tão delicadamente organizo por cores, a brincar com o rolo dos toalhetes, a trepar as prateleiras da despensa, a baloiçar nos tapetes pendurados na corda, a roer fios e cabos de telemóveis, a escrever no Facebook. A Matilde já foi um pequeno diabo em gato, se foi, e eu não conseguia nem trabalhar, nem mostrar-lhe o que podia ou não fazer. Agora é diferente, apesar de morder tudo o que é mãos e pernas, já sabe que não pode comer as flores do jardim, que não sabe ler e por isso não vale a pena desarrumar os livros, já aprendeu que o café sabe mal, que ainda não tem idade para ter Facebook, já se deita sossegada no sofá a ver televisão comigo, já sabe que quando eu vou dormir, também ela tem de ir dormir. Já reage quando lhe chamo Matilde, já sabe que fez asneira quando lhe abro os olhos, já sabe que assim que me levanto da cadeira, ela tem de descer dos móveis.

Ontem, depois de trancar a porta de casa, fui deitar a Matilde. Embalei-a, sosseguei-a e deita-a na cama, como faço sempre. O quarto dela fica num pequeno anexo da cozinha que dá para o jardim e ela já sabe que assim que a deito e fecho as portas, é hora de dormir. Mesmo que não durma, ela sabe que eu vou à minha vida e que ela deve ir à dela. Pois ontem, já passava das quatro da manhã, ouvi um estrondo assustador. Dizem que o nosso corpo está preparado para reagir, mesmo que em sono profundo, a sons suspeitos, como pancadas, tiros ou simplesmente as chaves a rodar a fechadura da porta. Primeiro achei que estavam a assaltar a casa e não me mexi. Depois pensei que fosse apenas a janela da sala de jantar que nem sempre fica bem trancada. Levantei-me e estava tudo fechado. Em míseros segundos olhei para trás, os olhos atravessaram o hall da entrada, a cozinha e as portas para a rua estavam todas abertas, as três, uma atrás da outra. Matilde!, gritei. Não havia Matilde. A Matilde não estava na cama dela e chovia torrencialmente. A porta do anexo do jardim também estava aberta. Ia jurar que a tinha trancado, mas a chave estava na porta. Não conseguia ver nada, chovia tanto e o vento era tão forte que parecia estar no meio de uma terrível tempestade. A entrada do anexo estava vedada porque o vento deitou ao chão tudo o que se encontrava junto da porta. Procurei a Matilde em todo o lado e nada. Tentei ouvi-la a miar e nada. Tentei ouvir o guizo da coleira e nada. Procurei na casinha dela, procurei no tanque, procurei nos canteiros... voltei para dentro de casa porque com as portas abertas devia ter entrado. Virei a casa do avesso e nada de Matilde. Já chorava aflita sem saber dela, quando fui à janela do meu quarto e fiquei a olhar para o jardim a pensar que teria fugido, apesar de ser quase impossível trepar os muros e as redes. Olhei em frente para o anexo e no meio de escadotes e prateleiras vejo uns olhos brilhantes. Matilde! Volto ao jardim e tento agarrá-la. Como raio foi aquela porta abrir-se? Trouxe-a para dentro e estive até de manhã enrolada com ela numa manta. Não miou, não reagiu, não nada. Dei-lhe imensa comida e água, mas ficou completamente devastada com o susto. A minha pequenina de cinco meses está aterrorizada e eu com um aperto gigante sem saber o que fazer. 

Sim, eu ainda não sou mãe, mas sei o que é o amor incondicional. Eu sei o que é ficar com o coração em fanicos quando fazem mal aos que amo. Eu fico completamente devastada quando alguém que eu amo está mal ou doente. Eu sofro quando sofrem. Eu viro o mundo do avesso para compor o mundo dos que amo. Porque quando se ama, ama-se a sério, ama-se incondicionalmente. 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

(a Matilde descobriu o maravilhoso mundo dos botões dourados)

 

Beijinhos, La Bohemie.