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La Bohemie

Natal o ano inteiro.

Senhora minha Mãe leva a época do Natal muito a sério. Conservadorismos e catolicismos à parte, sempre foi uma altura de juntar os dois lados da família e comemorar. Como vivíamos no Algarve - que há 20 anos era pouco desenvolvido - a chegada a Lisboa era sempre mágica - que há 20 anos era bem iluminada nesta altura. Lembro-me de passar pela Av. da Liberdade, a Av. Almirante Reis, a Av. de Roma e pela Alameda e fascinar-me com as suas luzes e adornos de Natal. Eu sentia-me tão feliz em Lisboa que não entendia por que raio tinham os meus pais decidido ir viver para uma terra onde não existia muito mais do que campo e mar. Eu sentia-me tão feliz em Lisboa que jurei a mim mesma que um dia voltaria a viver na cidade que me viu nascer. Com o tempo, a família foi-se tornando cada vez mais pequena. As mortes de uns criaram guerras entre outros e os Natais passaram a ser em casa da minha Mãe, no Algarve. Deixei de ir à Missa do Galo na Igreja de Arroios, deixei de passar a noite de consoada em casa dos avós maternos e o dia de Natal em casa dos avós paternos. Deixei de ter dezenas de presentes; deixei de receber beijos e abraços dos bisavós, avós, primos e tios. Deixei de percorrer as imensas avenidas de Lisboa só para ver as luzes de Natal; deixei de me encantar na Toys "R" Us e como deixei de fazer tanta coisa que adorava, perdi um pouco o fascínio pelo mês mais natalício do ano.

Dizem que o Natal é das crianças e apesar de não concordar totalmente com esta ideia, na minha revoltada adolescência comecei a vivê-lo de uma maneira um pouco diferente. Como havia escolhido uma educação católica, sentia e vivia o Natal de forma mais espiritual do que física. Preocupava-me mais a questão de não ter uma família unida do que a festa em si. Preocupava-me mais a construção de um presépio digno do seu significado do que a Árvore de Natal. Interessava mais oferecer do que receber. Interessava-me mais a dedicação e empenho em fazer presentes do que comprar prendas. O Natal tornou-se numa altura em que eu agradecia mesmo a vida e família que tinha e tenho.

As pessoas chocam-se que já existam luzes, músicas e enfeites de Natal. As pessoas chocam-se que as cidades, centros comerciais e lojas já estejam decorados, iluminados e enfeitiçados. As pessoas chocam-se que alguém decore a Árvore de Natal com azul e rosa em vez de vermelho e verde. As pessoas chocam-se com tudo o que se seja diferente, fora de horas, alternativo. Eu rio-me, eu gosto, eu divirto-me. Sempre gostei do diferente, do absurdo, do original. Há alguns anos começámos a receber no Natal pessoas que não têm com quem passar a noite e o dia e é este tipo de Natal que ainda me fascina. A união. Seja com a minha família ou com pessoas que não têm família. Saber que posso fazer as malas e viajar até ao Algarve para junto daqueles que amo. Saber que seja qual for a minha escolha e decisão, tenho quem me receba de braços abertos e acolhedores. Saber que, por mais falta física que me façam algumas pessoas, elas estão comigo cada vez que penso nelas. E por mais hipócrita que possa parecer, agradecer que haja pelo menos uma altura do ano em que as pessoas se unem e se amam. Hoje em dia já não é Lisboa que me fascina no Natal, mas precisamente a terra onde existe campo e cidade, mar e Amor. E esse sempre o tive a qualquer altura do ano, por isso, que seja Natal o ano inteiro. 

 

Beijinhos, La Bohemie.