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La Bohemie

Marte e Júpiter.

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           Quanto tempo passou?

 

Os dias, um a seguir ao outro, haviam passado sobre a pele como um dissolvente, levando com eles uma finíssima camada de pigmento das suas tatuagens e as recordações de ambos. Marte e Júpiter. Os contornos, assim como as circunstâncias, ainda estavam ali, negros, mas as cores da memória misturaram-se todas, até se esbaterem numa tonalidade pálida e uniforme, numa neutral ausência de significado. Dois planetas sós e perdidos, mas não o suficiente para se encontrarem totalmente.

 

           Quatro meses

 

Parou. Sentiu as palavras a apertarem-se no ventre, como plantas trepadeiras despontadas de repente da cama. Os seus olhos estavam abertos. Tinham-se habituado à escuridão. E à solidão. A ponta do cigarro entre os seus lábios era a única cor acesa naquele dia todo cinzento, igual ao anterior e, certamente, igual ao próximo. O peso das consequências quebrara por completo numa noite de um par de semanas antes.

 

           Cento e dezoito dias

 

Uma noite regressara do trabalho e deparara-se com a porta de ardósia cheia de tracinhos brancos marcados a giz. Não havia mais espaço. Quando não há espaço para o Amor, a saudade sufoca-nos. Começou por limpar com a ponta do dedo indicador os dias pares. Havia, agora, buracos entre os traços brancos, espaços negros que testemunhavam o início do fim. Detivera-se a olhar para eles e, pela primeira vez, o distanciamento assumira os contornos concretos de um dado de facto, a consciência maciça de uma forma sólida.

 

           Duas semanas

 

Com um certo alívio deixara-se ir. Tinha a impressão de ter sempre feito tudo para agradar a alguém, mas agora só existia ela e podia simplesmente desistir, render-se e basta. Tinha mais tempo para as mesmas coisas, mas sentia uma inércia nos movimentos, o esforço de se deslocar como que dentro de um líquido viscoso. Acabou por descurar até os compromissos mais fáceis. A roupa a lavar amontoava-se no quarto de banho e ela, deitada no sofá horas a fio, sabia que estavam ali, que se trataria de um esforço banal, mas a nenhum dos seus músculos isso parecia motivo suficiente.

 

           Catorze dias

 

As dores no corpo. As dores na alma. Os comprimidos para as dores. Fechava os olhos, mas via-se obrigada a abri-los de novo, já que um monte de terríveis recordações esperavam por ela, amontoadas sob as suas pálpebras. As insónias lutavam abruptamente com o cansaço. Dormia muito mais do que o necessário, também durante o dia. Nem sequer baixava as persianas, bastava-lhe fechar os olhos para ignorar a luz, para apagar os objectos que a rodeavam e esquecer o seu corpo fraco e odioso, cada vez mais frágil mas ainda tenazmente apegado aos pensamentos. O peso da consequência estava ali, como um desconhecido que dormia em cima dela. Velava sobre si também quando mergulhava no sono, um sono grave e saturado de sonhos, que se assemelhava cada vez mais a uma dependência.

 

           Dezoito domingos

 

O despertar era infestado de pensamentos apenas em parte estruturados. Levantava-se quando já não podia deixar de o fazer e a confusão da modorra diluía-se lentamente, deixando na sua cabeça resíduos leitosos, como que recordações interrompidas, que se misturavam com outras e não pareciam menos verdadeiras. Vagueava pelo apartamento silencioso como o fantasma de si mesma, perseguindo sem pressa a própria lucidez. Estou a enlouquecer, pensava muitas vezes. Mas não lhe desagradava. Aliás, fazia-a sorrir, pois finalmente era ela quem escolhia.

 

           Quanto tempo passou?

 

À noite, sentava-se numa das poltronas do jardim e olhava para o céu à procura dos planetas escondidos. Tatuou-os para nunca mais os perder, mas acabou por ser ela a perder-se, ali sozinha, num universo que a queimou e desfez em cento e dezoito dias. Comia folhas de salada, tirando-as directamente do saco de plástico. Eram estaladiças e feitas de nada. Como eles os dois. O único sabor que dali retirava era o da água. Que a afogou. Não as comia para encher o estômago, mas apenas para substituir o ritual do jantar e ocupar de algum modo aquele tempo, do qual não saberia mais que fazer. Mastigava a salada até se nausear com aquela comida inconsistente. Esvaziava-se deles os dois, de todos os esforços inúteis que fizera para chegar até ali e não encontrar nada. Observava com distanciada curiosidade o emergir das fragilidades de Marte e Júpiter. Aquela imagem parada fez manifestar-se outras e a sua mente juntou-as recriando o movimento, os fragmentos de sons, farrapos de sensações. Sentiu-se invadida por uma nostalgia lancinante, mas agradável.

 

           Não importa o tempo

 

Se pudesse escolher um momento a partir do qual recomeçar escolheria precisamente esse: dois planetas sós e perdidos num quarto silencioso, com as suas intimidades que hesitavam tocar-se mas cujos contornos coincidiam exactamente. Pela primeira vez, sentiu todo o espaço que os separava como uma distância ridícula. Porque Marte e Júpiter estavam unidos por um fio elástico e invisível, sepultado debaixo de um monte de coisas de pouca importância, um fio que podia existir apenas entre dois planetas como eles: duas pessoas que havia reconhecido uma na outra a própria solidão.

 

           Nunca houve tempo

 

Quando abriu os olhos o céu ainda ali estava, com o seu azul monótono e brilhante. Nem uma nuvem o atravessava. Júpiter estava longe. Marte estava perdido. A corrente brisa do vento produzia um ruído débil e sonolento. Não sabia onde estava e para onde ia. Desta vez não viria alguém. Mas ela já não esperava ninguém. Sorriu para o céu limpo. Com um pouco de esforço conseguia levantar-se sozinha.

1544387_10202205984385047_3222803322855525801_n.jpBeijinhos, La Bohemie.