Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

La Bohemie

Linda Martini e Gisela João – Um copo com rock, fado e uma pedra de gelo.

Linda Martini no Lux

 

Ontem à noite, os Linda Martini subiram ao palco do Lux Frágil para uma noite que há muito havia esgotado. Além de terem convidado a fadista Gisela João, estrearam na página do Facebook o vídeo de «Febril (Tanto Mar)». A canção faz parte do último álbum Turbo Lento, lançado no ano passado, e contém um sample de «Tanto Mar» de Chico Buarque.

Os Linda Martini dispensam apresentações. São uma grande referência e um mais que incontornável ponto da história do rock português. Começaram como quinteto em 2003. Pouco mais de dez anos depois são apenas quatro, mas André Henriques, Cláudia Guerreiro, Hélio Morais e Pedro Geraldes chegam ao terceiro álbum de originais com mais garra, maturidade e conhecimento.

Turbo lento é a tão aguardada continuação e confirmação de uma carreira pautada pela qualidade. Se o álbum Olhos de Mongol (2006) foi uma estreia fantástica e Casa Cheia (2010) explorou os cantos da criatividade, uma das novidades do mais recente disco é a maior extensão das letras, dizem. Ouvir os Linda Martini é sentida uma vontade imensa de viver, saborear a garra de lutar, o sangue a ferver. A vontade de ir, o prazer de chegar. O som está mais adulto e trabalhado. Tem mais rock e é mais bonito. Os gritos de revolta soam a esperança, as guitarras desalinhadas dialogam entre si com a cumplicidade dos amantes, o baixo sublinha a intensidade da música e a bateria descarrega toda uma garra própria de quem ama o que faz.

Se na rua a chuva não dava tréguas, lá dentro o pública aguardava impacientemente e, assim que abriram o acesso ao piso inferior do Lux, encheu. De repente. Com a sala lotada, os Linda Martini subiram ao palco e abriram o concerto com «Ninguém tropeça nos dias», um instrumental crescente que nos amarra à sonoridade deliciosamente preparada e que iniciou um dos alinhamentos mais bem pensados e conseguidos. O registo cuidado e tranquilo das cordas anunciam a urgência que se aproxima enquanto a batida frenética da bateria traça a ansiedade do som que suplica e deseja explodir. O ritmo continua com o frenesim lírico de «Sapatos Bravos», uma canção que leva o público a suspirar, saltar e gritar.

O baterista Hélio Morais aproveitou a pausa para agradecer a presença dos fãs e o convite do Pedro Ramos, radiolista da Rádio radar, que organizou mais uma vez o tão mítico evento Black Balloon. «Ratos» fez o seu papel de single conhecido numa audiência febril, de absorção imediata que serve de ponte com o álbum anterior e continuou até encontrar a ebulição na canção seguinte. «Isto é para quem tem aulas amanhã», brinca a vocalista Cláudia Guerreiro voltando um pouco atrás com a música «Juventude Sónica», onde gritam todos que são putos e não têm aulas amanhã. Seguiu-se a estonteante «Febril (Tanto Mar)». A música tem agora um vídeo feito pelo Pedro Geraldes e a namorada Ana Matos, gravado num passeio pela serra que serviu de presente para a banda. É um manifesto desconcertante que o sample de «Tanto Mar» de Chico Buarque ajuda a tornar mais intenso. A canção é desconcertante, faz- nos largar a raiva e a ansiedade dos dias com a violência do instrumental e dos refrões. No palco fala-se da vida, da sociedade e da política. No público grita-se «tenho o sangue a ferver», berra-se da ressaca de movimentos e intenções. Canta-se, sente-se, vive-se. Os LindaMartiniarrastam centenas de fãs aos seus concertos e pedem dinâmica, vida e agitação. «Não sei se já repararam mas isto é um concerto de rock», explica o baterista, como quem diz que o mosh e ocrowd-surfing fazem mais do que sentido nos seus concertos. E é precisamente essa energia acumulada que se liberta de seguida com as canções «Juárez», uma mistura de punk gritado que liberta o stress, «Partir para ficar» com dedicatória a José Mário Branco e ainda «Panteão» dedicada a Tó Trips.

Mas não só de rock furioso se fez a noite. O fado de Gisela João marcou presença, não fosse esta fadista do Norte uma das novas sensações da música nacional, com a sua entrega avassaladora aos sentimentos que as palavras contêm. A maravilhosa e suave canção «Volta», composição escolhida como o segundo single do álbum e que mostra uma faceta mais tranquila, serviu de entrada a Gisela João que mostrou que o seu vozeirão de fadista passa facilmente também por rockeiro. «As putas dançam slows», «Pirâmica» e «A corda do elefante sem corda» confirmaram queesta reunião dos rockeiros Linda Martini com a fadista Gisela João acaba por não ser assim tão estranha. Numa altura em que ambos assinam dois dos discos melhor recebidos do ano passado – Turbo Lento e Gisela João. Despediu-se com a surpresa da noite, fazendo-se passar por António Variações com a canção «Adeus que me vou embora».

Depois da sua saída houve ainda espaço para duas canções, «Amor combate» e «Cem metros sereia», onde os Linda Martini provaram mais uma vez porque continuam monstruosos na hora de misturar as melodias dissonantes e que Turbo Lento é mais e melhor porque entra, mexe e desarruma as ideias. Para encerrar a noite com muitos balões pretos, houve o famoso confronto entre Dj ́s – Pedro Ramos, Hélio Morais e Joaquim Albergaria. Hoje à noite o encontro repete-se. Sem balões pretos, mas com casa cheia.

 

Texto: Mafalda Saraiva

 

Beijinhos, La Bohemie.