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La Bohemie

«Estou sozinha mas não me sinto só»

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Ontem à noite

A - Este ano nem vou passar o Natal a casa.

Eu - Então vais passá-lo em Lisboa, sozinho?

A - Vou fazer voluntariado, ou qualquer coisa.

Eu - Confesso que essa ideia também me passou pela cabeça, mas este ano tenho mesmo de ir ao Algarve. Acho que a minha Mãe nem me perdoava mais uma falta.

A - Sim, mas tu já tiveste a tua dose. Agora é a minha vez de passar por isso.

 

Hoje

M - E já sabe quando vem para o Algarve?

Eu - Não tenho a certeza do dia, mas só depois do aniversário da mana.

M - E depois fica até quando? Onde vai passar a passagem de ano?

Eu - Oh Mãe, a sério, eu não faço ideia. Ainda nem consegui pensar e organizar essas festividades. Logo se vê.

M - Não a quero a passar sozinha outra vez, Mafalda. Nem que a passe aqui connosco.

Eu - Sim, Mãe, não se preocupe. 

 

Se há uns anos optei por fazer as malas e passar as duas semanas natalícias em São Paulo, longe de tudo e todos, no ano passado decidi, no último instante, não fazer as malas e ficar em casa sozinha na Passagem de Ano. Claro que a minha família conservadora e cheia de valores tradicionais achou um atentado preferir passar o Natal numa das cidades mais movimentadas do mundo com 50º graus, enquanto todos trocavam desejos e presentes junto à lareira. Claro que os meus amigos acharam que eu estava definitivamente maluquinha e deprimida quando preferi vestir o meu melhor vestido e abrir uma garrafa de espumante sozinha no meu sofá do que ir festejar com eles. Claro que toda a gente achou errado eu preferir estar sozinha do que acompanhada, que disparate pegado, sem lógica e cabimento. E eu interrogo-me: qual é o mal de eu gostar efectivamente de estar sozinha? Qual é o mal de adorar viver sozinha? Qual é o mal de não ter um namorado, um amigo arco-irís ou companheiro no meu dia-a-dia? Qual é o mal de me apetecer ir ao cinema, ao teatro ou a uma exposição sozinha? Mas isso é deprimente, dá ideia de que ninguém te quer, que és uma rejeitada e solitária. «Estou sozinha mas não me sinto só», digo-o vezes sem conta. E é verdade. Acho que hoje em dia as pessoas se sentem cada vez mais sozinhas porque não sabem estar sozinhas. E o facto de não gostarem e de não se sentirem bem consigo por estarem sozinhas é que é deprimente.

Quem me conhece sabe que não faço fretes e por isso mesmo não faço planos. Detesto ter de combinar coisas e depois, quando chega a altura, sentir-me obrigada a ir só porque já estava combinado. E não vou. E tenho de desmarcar ou cancelar, tenho de inventar desculpas esfarrapadas porque as pessoas não entendem que naquele momento prefiro estar sozinha do que com elas. Mas não me interpretem mal nem se sintam ofendidos: eu adoro os meus amigos e adoro estar com eles, só não gosto é de estar sempre, não suporto sentir aquela obrigação medonha de estar com alguém só para não estar sozinha. Não gosto daquela obrigação medonha de precisar de festejar um aniversário, de ter de ir a um jantar de Natal, de ser de mau tom não aceitar um qualquer convite. Costumam dizer que a rotina estraga relações, eu acredito que o que estraga são as obrigações - e para essas já nos chegam as profissionais e financeiras. Um pouco como a mítica probabilidade «Ou ficamos em casa ou vamos sair», também eu às vezes prefiro «estar sozinha do que (mal) acompanhada».

 

Beijinhos, La Bohemie. 

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