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La Bohemie

Dores sem dor.

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Quantos comprimidos tomei?

 

Ainda nem o sol nasceu e sobressaltas da cama com uma tremenda dor no estômago. Acendes a luz do candeeiro da mesa de cabeceira - que na verdade é uma televisão mais antiga do que os teus cabelos feitos em farrapos - tropeças numa caixa de comprimidos, corres para o quarto de banho, mergulhas a cara em água fria que te gela as rugas e interrogas-te na estupidez que é a tua vida. Ou tu própria. As olheiras denunciam-te o cansaço, o esgotamento, a exaustão. Holy God! 

 

           Pára

 

Não consegues. Há duas semanas que não sabes o que é parar. Ou pior. Há duas semanas que tudo à tua volta parou e só a tua cabeça é que não o aceitou. A tua cabeça não aceita e o teu corpo não aguenta. As dores, o fracasso. Aceita que perdeste. Aceita que partiu. Aceita que morreu. Enquanto não aceitares, vai continuar a doer. Não consegues. Ou não queres. As dores, senhores, as dores. De cabeça, de dentes, de ouvidos. Apertas as têmporas com tanta força que quase te escapa pela boca um porra! bem agudo. Mas sabes que a tua dor é crónica. A genética assim o dita, e nem o Freud explica. És operada a um ombro e dói-te o outro. Arrancam-te um dente do siso e começa a doer-te outro. Tudo em ti é dor, tudo em ti é débil, tudo em ti é terror.

 

           Já chega

 

Suplicas encolhida, enquanto choras desenfreadamente enrolada em dois cobertores polares que nem a alma te aquecem. Tens tremores, tens insónias, tens pesadelos. Gritas por um Ben-u-Ron, um Clonix, um Ibuprofeno, um Paracetamol, uma qualquer pancada na cabeça que te faça adormecer eternamente. Precisas de dormir, precisas de esquecer, precisas de aceitar. Sabes que a tua descalcificação óssea é genética e que as dores são passageiras, mas o que te dói é o coração. E esse, só tu podes curar, essa dor só tu podes ultrapassar.

 

Beijinhos, La Bohemie.