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La Bohemie

De opiniões está o inferno cheio.

 

Quando o meu pai me perguntou se tinha ido cortar o cabelo, deu-me vontade de lhe dizer «Nãooo, é apenas fruto da tua imaginação, sabes que isto da idade pesa na memória. E na barriga». Óbvio que era uma pergunta retórica com tom pejorativo. O meu pai sempre gostou de mulheres com cabelo escuro e comprido e eu levei anos a ter de ser apenas uma boneca criada aos olhos dele. «Não usas sapatos altos porque provoca lesões. Não pintas as unhas porque o verniz tem químicos. Não podes usar colares porque se alguém te der um puxão, morres asfixiada. Nem penses em usar maquilhagem que pareces uma prostituta. E não cortas o cabelo porque eu não quero que cortes o cabelo.» Olhava para fotografias minhas em pequena e era a única loura com cabelo curto e liso. Dizem que no meio está a virtude, mas dei comigo a utilizar gotas para o cabelo crescer mais e mais e mais, a pintá-lo cabelo de castanho escuro e a encaracolá-lo todos os dias para ficar igual aos meus irmãos. Um dia cortei o cabelo, deixei-o louro o Verão inteiro e começaram a surgir os mais variados comentários.

Se eu já detestava a ideia de ir ao quarto de banho aos pares, começo a abominar a tendência de se ir ao cabeleireiro e exigir que todos reparem, que todos gostem. Salvas raras excepções em que uma pessoa opta por um valente extreme makeover, eu não noto quando vão ao cabeleireiro. E como não tomo atenção, também não exijo que reparem que cortei as pontas, que fiz uma nuance loura junto à nuca ou que enrolei um pouco a franja. E se repararem, quero lá saber das opiniões. Confesso que adoro mulheres com cabelo comprido (se estiver bem tratado), adoro homens com cabelo rijo e saudável. Gosto de cafunés na cabeça, massagens no couro cabeludo e lavagens à alma. Gosto, sabe bem, nada a fazer. Mas também gosto de ir ao cabeleireiro e cortar 20 centímetros de cabelo só porque sim. Eu gosto de ter a liberdade de ir ao cabeleireiro e fazer do meu cabelo o que me apetece, sem ser bombardeada com comentários de tudo e todos. Se eu não vos interpelo por não depilarem as virilhas, vocês também não têm de opinar sobre o facto de eu cortar o meu cabelo. Claro que podem fazê-lo, mas é escusado porque que não quero saber se vocês gostam ou não; a mim tanto me dá como me deu se preferem ver-me de cabelo comprido ou curto; eu estou-me a marimbar se acham que estou mais gira ou mais feia. 

«Então e quais têm sido as reacções ao teu corte de cabelo?», perguntaram-me há dias. Eu não quero saber! Não ando a memorizar quem disse bem ou mal. Não ando a fazer uma contagem de votos positivos e negativos. Claro que sabe bem ouvir dizer que estou mais gira, mais jovem, mais simples. Se vier de pessoas que nos querem bem, alimenta-nos o ego por segundos. Mas eu quero lá saber! O problema é que há tantas e tantas pessoas que querem saber. Importam-se mais com a opinião dos outros do que com a sua. Há tantas e tantas pessoas que não têm a certeza do que querem e depositam essa responsabilidade nos outros. Se uma pessoa não sabe o que gosta, saberão as outras? Se uma pessoa não está certa das suas decisões, vai basear-se nas dos outros? Se uma pessoa não tem a certeza do que vestir, dizer ou fazer, vai perguntar às outras? Eu tenho duas opiniões sobre estas perguntas: cresçam. Ou cortem o cabelo na esperança de vos nascer novas ideias, perspectivas e, acima de tudo, autoconfiança. Mas não se esqueçam, são as minhas opiniões, não devem preocupar-se com elas. De opiniões, está o inferno cheio.

 

 

 

Beijinhos, La Bohemie. 

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