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La Bohemie

De Ataques Massivos está o Império dos Gatos cheio.

Primeiro dia do Super Bock Super Rock

 

Começou ontem a 20ª edição do festival Super Bock Super Rock, na Herdade do Cabeço da Flauta, em Sesimbra. Três palcos num recinto de cinco hectares preparados para receber 30.000 pessoas. Três dias de muito Meco, Sol e Rock & Roll. Os Massive Attack não atacaram, os Metronomy arrasaram e The Cat Empire triunfaram.

A primeira grande estreia do dia foi a minha. Nunca tinha ido ao festival Super Bock Super Rock e tudo foi uma novidade. Percorri o recinto de uma ponta à outra, visitei a área do Campismo, entrei no supermercado à procura de Donuts, experimentei todos os cantos da área VIP e cheguei à conclusão de que o SBSR é uma versão do Meo Sudoeste, mas na onda do Rock. De resto está lá tudo – hipsters e roqueiros, malta de calções e chinelos, tendas mal montadas, comidas mal cozinhadas. Redes penduradas em árvores, piscinas insufláveis nos chuveiros, sotaques de Norte a Sul, carros mal estacionados, festivaleiros aprumados. Mas iremos ao que realmente interessa, os concertos.

Quem fez as honras da casa foram os portugueses mesmo da casa, Million Dollar Lips. São de Sesimbra e formaram-se em 2007. São uma banda de pop-electrónica formada por José Raimundo na voz, João Proença na bateria, Pedro Mateus na eletrónica/ teclados e Ricardo Alves na guitarra. Já contam com dois álbuns – Lust e Gluttony – e subiram ao Palco EDP no início da tarde. Tudo o que havia para correr bem, correu mal. À terceira música, ouvimos Ricardo Alves a fazer tempo na guitarra, obrigando mesmo o vocalista a explicar quem eram e que trabalho estavam a apresentar. Primeiros problemas técnicos resolvidos, continuam com «Elegant Flower». A intenção de nos transportarem no tempo até à música electrónica/ new wave anos 80 era boa, mas não resultou. O público esperou, entendeu, aplaudiu. Tentaram, ainda, tocar a cover «Mystify» mas os problemas técnicos voltaram e tiveram mesmo de interromper a actuação e começar do início depois de longos minutos de espera. Já um pouco aborrecidos, mas sem nunca desistirem, tocam «Always The Pain» e conseguem finalmente mostrar a energia e descontracção que tanto os caracteriza. Aproveito para deixar uma nota que me parece bastante relevante: as bandas precisam de fazer sound-check. Principalmente estes grupos de estatuto e renome ainda pouco elevado porque são estas bandas que estão habituadas a dar o corpo e a alma pelo trabalho, mesmo que precário. São estas bandas que começam a tocar em bares, ensaiam em salas pequenas e gravam em estúdios submersos. São estas bandas que precisam de confirmar se o som resulta num palco de grandes dimensões. Se continuam a criar concursos para bandas e novos talentos com o intuito de conquistarem maior visibilidade e depois não as suportam com ajuda técnica, mais vale dedicarem-se apenas aos palcos principais e às bandas da moda. O concerto só não foi bom porque o apoio técnico foi péssimo.

Quase como uma espécie de teletransporte, viajamos até à América. Vindos de LA, Califórnia, os Vintage Trouble estrearam-se em Portugal e deram-nos a conhecer o seu blues rock tradicional com canções que remetem para nomes como The Rolling Stones, Ike and Tina Tuner e Jimi Hendrix. O quarteto norte-americano composto pelo vocalista Ty Taylor, guitarrista Nalle Colt, baixista Rick Barrio Dill e baterista Richard Danielson subiram ao Palco Super Bock  com uma compilação de canções do seu primeiro e único trabalho The Bomb Shelter Sessions, onde cantaram temas como «Blues And Me Now», «Nobody Told Me» e «Still And Always Will». Logo a seguir ao folk, o meu estilo de música preferido é muito provavelmente o blues, por isso foi um dos melhores concertos do dia. Os problemas são uma coisa muito Vintage, portanto foi o concerto ideal para um fim de tarde descontraído, onde quatro músicos vestidos de smoking e chapéus de feltro dançaram e fizeram dançar. A interacção de Ty para com o público foi irrepreensível – «Say break it down», «Dance with me», «I’m feeling a kind of sexual today» foram algumas das frases que levaram o público a vibrar euforicamente. Muitos braços no ar, alguns jogos de cintura e uma vibe tão doce como sensual, intercalados com as acrobacias do vocalista, sempre muito entretido com o microfone e o suporte do mesmo. Sim, senti-o um pouco sexual.

Regressamos ao Palco EDP para um ambiente completamente diferente. Outro dos convidados para o Meco este ano foi o norueguês Erlend Øye. Não é uma estreia – ainda há oito meses encheu uma das salas do Cinema São Jorge, no Festival Vodafone Mexefest – mas é um regresso com novo trabalho, Legao. Com uma carreira feita como uma das metades dos Kings of Convenience, o mestre de uma pop feliz conquistou o mercado com as suas canções replectas de harmonia, guitarras cristalinas, notas sensíveis e luminosas. Projectos como The Whitest Boy Alive retratam a sua aventura na electrónica mais dançável, dominando pratos em cabinas de djing, mas acabou e o músico dedica-se inteiramente ao seu trabalho a solo. «La Prima estate», primeiro single do novo disco, e «Fence Me In» inspiram bons momentos vívidos e dignos de serem registados de alguma forma. Numa atmosfera mais chill-out, quase cozy, Erlend abraça-nos com aquele ar de cachorro abandonado como quem pede mimos e aplausos. E consegue-os. O público gosta dele, quanto mais não seja pelas referências musicais que nos deixou com o seu repertório como Rei da Conveniência. E convenhamos, Oye é fofinho e tem um olhar sereno. Aqueles caracóis louros, o seu estilo cada vez mais italiano e os óculos com lentes de garrafa transmitem-nos uma serenidade e proximidade crescente a cada música. Depois existe todo aquele carisma ingénuo e humilde – quando tocou a primeira música em italiano, pediu-nos para repetirmos «ciao» e «arrivederci», como se também nós fizéssemos parte dela. Chegou mesmo a perguntar se alguém tinha uma palheta para ele poder tocar a «I just can’t imagine…»

O que eu não conseguia imaginar é que os Metronomy iriam ser as grandes estrelas do primeiro dia de festival. Depois de terem lotado, em 2012, um dos melhores concertos no Optimus Alive, o quarteto britânico regressou a Portugal para um concerto que levantou poeira no Meco, num cenário completamente branco com nuvens rosa, com vontade de comer como se fossem algodão doce. Após o disco quase perfeito The English Riviera, apresentam o quarto álbum, Love Letters. Depois de «The Bay» e de «The Look», conhecemos o primeiro single «I’m Aquarius», mas deixa-nos insatisfeitos. Uma batida electrónica minimalista, teclados lânguidos, uma toada morna que nunca chega a aquecer, e queremos mais.  Tocam «Love Letters» e a esperança renasce. Esta não é só a melhor música do disco, é uma das melhores músicas do ano. Explosão de piano com ares de saloon do princípio ao fim, coros ao estilo de girl groups Motown, um groove de baixo incrível e a voz de Joe Mount a puxar o público. Agora sim, estamos prontos para seguir viagem. The English Riviera deu o salto, é um álbum de canções, todas elas  fenomenais, extrovertidas, com grandes ritmos e fraseados que não saem da cabeça. «Love Letters» combina esses universos. Tem grandes canções de candura pop e momentos mais introspectivos. Busca frequentemente uma base mais electrónica, com teclados e sintetizadores sempre presentes, mas também com salpicos de guitarras acústicas em «The Upsetter» e «Mounstous» ou a guitarra eléctrica em «Month of Sundays». Depois regressam ao disco anterior, tocam as míticas «Everything Goes My Way» e «The Look» e  tudo é simples, tudo é eficaz, e quando se chega ao fim do disco, a insatisfação do princípio desaparece.

Da Austrália, e em estreia em Portugal, actuaram os The Cat Empire, formados em 1999 com uma fusão de reggae, rock e jazz. No ano passado editaram Steal the Light, que deu mote ao concerto de hoje. O ambiente é quase indescritível. O Palco EDP estava cheio, os festivaleiros mais do que animados e os oito elementos deram um concerto formidável.  O público cantou, gritou, dançou e mostrou conhecer as letras de todas as canções do ínicio ao fim. A música «Still Young» obriga-nos a repetir freneticamente «Find your heart and find your song»; da «How To Explain» ouve-se em uníssuo «Music is the language of us all» e na «Prophets In The Sky» canta-se «All you tricksters and hipsters and prophets in the sky…», enquanto se batem palmas e sincronizam-se as ancas com as almas. Horas depois, Panda Bear, membro fundador dos Animal Collective actuou quase literalmente em casa, já que continua a viver em Portugal. Mas o público não soube aproveitar a qualidade do seu trabalho e preferiu a andar a brincar às decorações de Natal, atirando com dezenas de perucas cintilantes para as árvores.

Kevin Parker, Dominic Simper, Nick Allbrook e Jay Watson regressaram a Portugal para apresentar o melhor que a banda de rock psicadélico tem feito nos dois álbuns até agora editados – o último Lonerism.  O quarteto subiu ao Palco Super Bock e quase que arrasou com as músicas «Elephant», «Feels Like We Only Go Backwards» e «Mind Mischief». A recepção do público podia ter sido mais entusiasta. A banda australiana fala uma língua global, transversal, universal e o som electronic é quase sempre dividido em camadas. A música dos Tame Impala costuma provocar uma identificação imediata independentemente de gerações ou até de hábitos e consumos musicais, mas hoje não conseguiu.

Os históricos do trip-hop Massive Attack também regressaram para a visita habitual a Portugal. Cabeça de cartaz, subiram ao Palco Super Bock com um novo espectáculo, descrito como uma performance áudio e visual artística e com um marcado discurso político, embora isto já tenha estado presente em concertos anteriores. A qualidade visual estava lá, a sonora não. O público pouco cantou, quase nem pulou. Faltou garra, emoção, energia, elementos conseguidos apenas na música que serve de banda sonora à séria House, «Teardrop». As duas bandas mais desejadas deixaram pouco a desejar.

A noite terminou com o regresso dos ingleses Disclosure. Os irmãos Lawrence não abrandam o ritmo e fecharam o Palco Super Bock com o álbum Settle. Vinte minutos de atraso, um público impaciente, num ambiente trascendente. «When A Fire Starts To Burn» descreve bem a intensidade que se sentiu ao fim da noite, mas a meio do concerto e do single «You & Me», cortaram o som e, apesar dos músicos terem continuado como se nada fosse, cortaram mesmo a luz. Som cortado, luzes apagadas. Fim. Ou o início do fim. Depois de longos minutos de espera, regressam, pedem desculpa pelo sucedido e dão um espectáculo arrepiante.

 

Texto: Mafalda Saraiva

 

Beijinhos, La Bohemie.