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La Bohemie

Da Comporta eu fugi, fui para o Sol da Caparica.

Primeiro dia d´O Sol da Caparica

 

Sob o mote «A Música Deu à Costa», a Costa de Caparica recebeu a primeira edição do Sol da Caparica. Baptizado em honra do êxito dos Peste & Sida, que tocaram ontem, o Festival pretende celebrar a lusofonia, reunindo numerosos artistas portugueses mas também do Brasil (Gabriel, o Pensador) e de Angola (Anselmo Ralph). Fora dos palcos, a ênfase foca-se na ecologia, nos desportos de praia e na arte urbana; no que toca à música, pelos dois palcos passaram uma selecção generosa do que por cá se faz.

Alexandre D’Alva Teixeira e Ben Monteiro são o duo D’Alva. Foram os primeiros artistas a fazer as honras da praia, ou do palco Blitz. Dos anos 1980 mais sintéticos ao hip-hop enquanto festa na pista de dança; do Portugal dos Heróis do Mar ou dos GNR às lições de Prince quando 1999 era muito distante; da electrónica subterrânea movida a riff de sintetizadores à melancolia feita de farrapos de R&B que ouvimos num Franck Ocean – tudo isto filtrado pelas lentes de quem está absolutamente imerso no seu tempo. Quase que vemos um filme a preto a branco, depois uma cena do Vanilla Sky, seguindo-se O Príncipe de Bel-Air, ainda uma foto de um padrão de leopardo, e por fim um 3D manhoso. O foco central está nessas três letras que compõem a expressão mágica: P-O-P. O álbum #batequebate é música enquanto comunicação instantânea, um festim lúdico que vai decorrendo em várias divisões de um mesmo edifício. Isto é o mundo enquanto caleidoscópio, que é a imagem fragmentada que a Internet e as suas redes sociais nos devolvem. Este álbum tem muitas misturas, assume-se como pop sem vergonha e a Internet como contexto. As canções sucedem-se na sua diversidade, rápidas e fugazes, e os D’Alva, com um disco cá fora, não têm ambição desmedida. «Frescobol» é a canção que definitivamente firma a identidade de D’Alva. Numa mistura de clichés 80’s, vão desde os synths, aos sons de bateria, ao solo kitch de saxofone e ao esquecido fade out. «Lugar Estranho» retrata o auge dos anos 80. É uma canção em ritmo shuffle, tão típico daquela era, mas tão pouco explorado hoje. Melodicamente transporta-nos imediatamente para um outro lugar e funciona meio que como homenagem, como que reflexão sobre o belo, assim como as relações e os contornos que adquirem hoje em dia. «Homologação» é uma espécie de balada dançável, uma canção musicalmente etérea, num registo próximo do Kuduro. Há quem diga que as camisas que os elementos da banda veste podiam ser utilizadas como tolhas de mesa, mas é preciso conhecer o início para se julgar o meio. Ben Monteiro tinha uma banda de punk alinhada com as bandas punk banhadas pelo sol da Califórnia, os Triplet. Alexandre D’Alva Teixeira adorava os Triplet e, como os adorava, aquele dia haveria de chegar. E chegou. O sorriso energético de Alexandre, o ar descomprometido de Ben e a voz doce de Carolina transportam-nos para uma viagem alucinante, um ambiente tropical, mágico e radiante.

Via-a a chegar de biquíni e guarda-sol ao ombro. Depois apareceu de cabelo apanhado e óculos de sol. Márcia subiu ao mesmo palco para nos proporcionar um concerto muito bonito. Todos os seus concertos são bonitos, verdade seja dita. A música de Márcia é bela e o seu estilo bastante peculiar transporta-nos para um estado de magia agridoce. A sua presença é -agri, a sua voz é -doce. Começou por cantar a vibrante «Cabra Cega», dançou a serena «Delicado», ofereceu a «Para Quem Quer» e despiu-se d’«A Pele Que Há Em Mim». «Menina», com a presença de Samuel Úria – uma música de encorajamento, principalmente para mulheres que têm medo; e «Camadas» -, uma canção que fala de um sonho de criança, é uma música de mudança. Todo o disco Casulo tem muito de finalização e de reinicio, que passa muito pela coragem de uma mudança. Este carácter biográfico já era assumido há dois anos, quando lançou , mas com Casulo há um aprofundamento do lado pessoal. Além de analista, Márcia também é muito revoltada com as injustiças sociais e políticas e as canções do disco Casulo são gritos de revolta, mesmo que os decibéis sejam sempre contemplativos e melódicos, cheios de luz, para lá «desta nuvem de negrume» que se abateu sobre o país. Esta ideia está resumida em «Desmazelo», a canção que melhor ilustra o disco. «Linda a manhã de um dia a vir, quando eu souber gozar seu frio», ouve-se Márcia a sussurrar no tema, desafiando os ouvintes a cantar em uníssono.

Nascido em Tondela, Samuel Úria tem hoje mais de 30 anos e já morou numa mão cheia de cidades. Quatro anos depois do álbum Nem Lhe TocavaO Grande Medo do Pequeno Mundo é muito provavelmente o seu disco de consagração. Afastado da pinta de ícone pop ou até de artista desvairado, como algumas vezes se mostrou, neste álbum aponta agulhas para uma outra mão cheia de baladas e tantos outros temas densos sobre derrotas e maneiras de lhes dar a volta. Ir no encalço dos versos faz-nos encontrar muito mais do que o sossego que a as guitarras e banjo suaves e a voz sussurrante por si oferecem. É honesto e maduro da parte de Samuel Úria não fazer uso de extravagâncias ou truques espampanantes que se sobreporiam ao essencial. Quem conta com a doçura da velha amiga Márcia ao seu lado escusa-se a muito mais, mas não é só pela companhia em «Eu Seguro» que é caso sério de sucesso. Sem ser rotineiro, acerta em cheio na definição daquele sentimento nobre que é o amor forte. A apaixonada «Essa Voz»  também não lhe fica atrás. A dolente «Lenço Enxuto», fala-nos dos homens que são desajeitados a exteriorizar a tristeza, ao mesmo tempo que comove. E quem melhor que Tiago Bettencourt para cantar o tema mais carregado do disco? É ouvi-la com a disposição certa que a lágrima se ajeita para sair depois de partilharem a lindíssima «Morena», da autoria de Tiago.
Para além do amor e do choro, a mensagem do álbum não é clara, mas parece sensato separá-la nestas vontades: recriminar o conformismo, enfatizar o bem e promover a esperança e coragem para fazer face ao medo. Tudo sem sensacionalismos. A preocupação em acrescentar ritmo à rima notou-se a espaços em alguns temas, mas é perfeitamente óbvia em «Forasteiro», a mais entretida. Só com um soberbo jogo de cintura se consegue uma letra completa construída à base de aliterações e assonâncias que não cheire a farsa. Todos os concertos de Samuel Úria, que hoje fez-se acompanhar pelo grupo Pontos Negros, provocam um efeito sonoro notável.

A primeira banda a pisar o palco SIC/RFM foi a dupla Dead Combo. Dizem que é a banda da moda e eu, que nem sequer vou em modas, não consigo descrever com precisão a razão de gostar tanto deles. Contínuo a defender que os Dead Combo merecem apenas salas acústicas, mas é sempre um enorme prazer vê-los ali, ouvi-los acolá. De um lado, Tó Trips esconde-se no seu mítico chapéu, vai anunciando o nome das músicas e entrega-se à sua guitarra. Do outro lado, Pedro V. Gonçalves divide-se entre os mais variados instrumentos musicais. Ao centro, uma espécie de altar decorado com os mais diversos objectos de muitos anos de estrada, decora um cenário que quase retrata um beco sem saída. A dupla, com mais dez anos de experiência, lançou recentemente o sexto disco A Bunch Of Meninos e continua a conquistar o público com o seu ar de vagabundos com estilo.

Seguiram-se os GNR. Não a guarda nacional republicana, mas os míticos Grupo Novo Rock. Aquela banda de rock que já foi do tempo dos meus pais e que agora é igualmente do meu tempo. Do nosso tempo. A banda liderada por Rui Reininho entrou a matar no palco principal mas não provocou feridos. «Asas», «Mais Vale Nunca», «Sangue Oculto» e «Sexta-feira» foram alguns dos sucessos cantados numa noite bem composta pelo público, apesar do imenso vento que se fez sentir. O El Comandante mostrou que só tem ataques de ansiedade em directos televisivos e que os live ao ar livre são a cena dele. Saltou, pulou, cantou com uma bandeira dos Estados da América Confederados, mandou beijinhos e abraços para os companheiros do programa The Voice, para os pais e filhos Carreira (não é a da Carris), fez piadas sobre Paulo Gonzo, Ricardo Salgado e os mosquitos da Comporta. Desta vez o Sir Reininho comportou-se bem e provou que os GNR continuam a ser uma das bandas mais aplaudidas dos tempos de todos nós.

Começou com a canção «Um Volto Já», mas decidiu ficar uma hora a tocar para nós. João Pedro Pais já não é o jovem com cara de adulto que tocou na primeira edição do Rock in Rio Lisboa. Está mais homem, mais maduro, mais energético. JPP está mais adulto, mais giro e mais tudo. Deixou as suas baladas românticas de parte e entrega-se de corpo, guitarra e alma ao rock. Claro que continua a tocar «Mentira», «Não Há» e «Ninguém é de Ninguém», mas a força que deposita na sua voz e nos acordes de cada canção, mostra-nos como dez anos de versos bonitos e fofinhos foram o suficiente para torná-lo mais seguro de si mesmo e entregar mais força e pujança às novas canções, como «Havemos De Lá Chegar», single do sexto álbum Desassossego.

De volta ao palco secundário, actuaram os Capitão Fausto. Já a noite se fazia sentir, mas o grupo apresentou na mesma o seu mais recente disco Pesar O Sol. Piadas nocturnas à parte, a estética dos Capitão Fausto aproxima-os do psicadélico e do rock dos anos 1960 e 1970, nas vocalizações, no tratamento que foi dado às guitarras e à bateria. Depois da atenção dada ao primeiro álbum Gazela (2011), o segundo disco não é obsoleto porque o quinteto vai adaptando os arranjos à medida que vão soando melhor.

Quem não podia faltar para encerrar os concertos do palco Blitz foi a banda que serviu de inspiração para o nome do Festival, Peste e Sida. Começam com «Orgia Paroquial», festejam com «Na TV», do novo álbum Não Há Crise, mas é depois de se ouvir «é agora» que chega a tão conhecida música com 25 anos de existência «Sol da Caparica». Apesar da música ter a minha idade, não se destacavam idades no meio do público. A banda que revolucionou uma era musical já conta com 28 anos de vida rockeira e continua a fazer cantar e pular desde miúdos a graúdos. E uma pequena criança.

Raras vezes um artista hip-hop consegue escalar até ao topo da cultura popular. Gabriel o Pensador fê-lo no Brasil, mas também em Portugal, ao cruzar retratos sociais e aguçadas paródias políticas. No fundo, através da sua escrita altamente criativa, tem provocado o país constantemente ao colocá-lo repetidas vezes em frente ao espelho e obrigando-o a confrontar-se com todos os defeitos e todas as virtudes de uma terra de excessos. Após algum tempo dedicado à literatura e ao futebol, o rapper regressou aos álbuns em 2012, com Sem Crise, mas ontem à noite não faltaram temas como «Cachimbo da Paz», «Retrato de um Playboy» e «2345meia78», cantada com uma fã. Houve momentos nostálgicos em «Astraunauta», na qual Gabriel dedicou versos bonitos à lua, mas também tivemos direito à brutalidade de «FDP», da qual se repetem vezes sem conta a frase «Filha da p*ta», mas Gabriel é um Pensador e terminou de forma inteligente com a mexida «Festa da Música».

Três foi a conta que Deus fez e foram as vezes que vi os Buraka Som Sistema já com a Blaya a tomar conta do terreno. Tenho para comigo que devia ser considerada a Miss B – mulher bumbum, mulher bomba, mulher boazona. Pontapé de saída com a mítica «Hangover» enquanto são lançadas dezenas de bolas insufláveis pretas e brancas. Rematam com a nova «STOOPID» com milhares de fãs a cantar «na na na get stoopid» e marcam  golo com a alucinante «(We Stay) Up All Night» que é já conhecida por se ir abaixo e dar-se o maior salto possível. Falando de possibilidades, é impossível não dançar, cantar e pular do início ao fim de cada canção. «Parede» desafia-nos a movimentos mais destemidos e provocantes; «Aqui Para Vocês» relembra-nos o Brasil, os seus blocos carnavalescos e os passos frenéticos e dançáveis. Depois de «Komba», começaram a chover centenas de vuvuzelas e não foi difícil perceber a chegada de «Vuvuzela (Carnaval)» e logo de seguida a «Candonga». Já a terminar, ao som de «Tira o Pé», Blaya canta «A Buraka é dona do terreno» enquanto sobem ao palco dezenas de fãs para dançar, mas mais importante do que tudo: tirar selfies. Há confetes, há pistolas de água, há alegria, há festa! Terminam com «Kalemba» (we gue), mas como qualquer bom espectáculo o melhor fica para o fim, ou para o encore. Blaya, já notoriamente rouca, grita «E quando eu entro vocês gritam. E quando eu expludo vocês gritam…», dando início à conhecida «Eskeleto», do primeiro álbum Komba, e terminam com a fabulosa «Voodoo Love».

A noite seguiu madrugada fora com o dj Branko, a força motriz e um dos principais produtores Buraka Som Sistema. Não é uma viragem de 180 graus quando comparado com o som de Buraka, mas é um pouco mais livre e um pouco mais audível.

 

Texto: Mafalda Saraiva

 

Beijinhos, La Bohemie.