Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

La Bohemie

Coisas que me fazem sorrir #25

Postais. Sempre que um amigo ou conhecido viaja, lá digo em tom de brincadeira «Manda postais». E não há sorriso mais honesto do que aquele que eu esboço cada vez que abro a caixa do correio e deparo-me com o dito postal. Quando o Gonçalo começou a postar fotografias de Cabo Verde no Instagram, disse-lhe logo que aquelas fotografias metiam nojo. É indecente estar uma pessoa a trabalhar enquanto outras estão de férias, francamente. E pedi-lhe que pelo menos me enviasse um postal. «Sim, sim, claro Mafalda. Não conheces as pessoas de lado algum e elas vão mesmo enviar-te postais.» Bom, tentar não custa, e a verdade é que recebi mesmo o dito postal há dias.

IMG_20141120_130443.jpg

 

Lembro-me de ser bem pequena e ficar horas a olhar para uma parede do quarto do irmão da minha Mãe. Tinha tantas fotografias e postais de viagens que eu pensava que ele não podia viajar mais por causa da falta de espaço. Como os meus avós e tios sempre viajaram imenso, habituei-me a receber presentes de todos os cantos do mundo, mas o que eu queria mesmo era um postal. Claro que na cabeça de um adulto, uma criança prefere mil vezes biquínis do Brasil, t-shirts das Canárias e socas da Holanda do que um simples postal sem graça, mas eu vivia com o sonho de um dia ter uma parede como aquela do quarto do meu tio.

Uns anos mais tarde, já depois da morte do meu avô paterno, descobri em casa dos meus pais um caixote com imensos pertences seus, e foi talvez das melhores viagens da minha vida. Dezenas de cartas e postais do meu pai e do meu tio direccionadas aos meus avós. Desde as maravilhosas férias na Grécia, às conturbadas peripécias nos países da antiga URSS, episódios de surpresa e fascínio com a crise económica decorrente do desmoronamento dos regimes comunistas do Leste, as noites mal dormidas em comboios, os problemas na Jugoslávia que se encontrava sob o domínio da Sérvia, o Estado Comunista da Croácia e a dificuldade de entrar numa Bósnia e numa Herzegovina que ainda não eram independentes. Se estava habituada a uma Mãe que sempre viajara de avião e paquetes entre África e as mais lindas capitais europeias para fazer compras, fascinei-me com o lado mais aventureiro de um pai que nunca cheguei a conhecer intimamente. Eu queria aquilo. Queria poder viajar pelo mundo e enviar postais aos meus pais a contar as minhas aventuras. Eu queria que um dia também eles tivessem um baú com o meu passado. Mas eu nasci no ano em que se deu a queda do muro mais emblemático do mundo, festejei a entrada num novo milénio que com ele trouxe o acesso à Internet em Portugal, cresci com a ritualização televisiva do terrorismo, o terror em directo e mediático. Bin Laden serviu-se habilmente do vídeo, da televisão e da Internet para contar a sua história. E eu também.

Desde as viagens de avião e cruzeiro, às de comboio e autocarro; desde as viagens às capitais da Moda às cidades de países subdesenvolvidos, fui contando a minha história através de emails e telefonemas, videochamadas e mensagens SMS. Eu nunca escrevi um postal aos meus pais, mas nunca perdi o sonho de ter uma parede como aquela do quarto do meu tio. Muito por isto é que os postais são das coisas que eu mais gosto de comprar quando viajo, são das coisas que eu mais gosto que me ofereçam quando viajam. Por isso, quando eu digo aos meus amigos a mítica frase «Manda postais», não é uma metáfora, é mesmo um pedido honesto. Porque, apesar de ter guardado as t-shirts das Canárias e ter na minha sala as socas da Holanda, ainda não tive uma parede com postais, onde cada imagem conta uma história, onde cada história conta uma aventura. 

 

IMG_20141125_143126.jpg

 

Beijinhos, La Bohemie.