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La Bohemie

Blur, os vendedores de gelados.

Segundo dia do Super Bock Super Rock

 

A edição de 2015 do Super Bock Super Rock tem sido bastante especial. Voltou à cidade num espaço com condições extraordinárias e temos assistido a um cartaz surpreendente com nomes imperdíveis de diversos universos musicais.

Palco EDP

A tarde começou mais uma vez no palco EDP, sob a pala do Pavilhão de Portugal com vista para o rio. Depois de ter lançado o EP Serendipity, Isaura foi a escolhida do Top 50 Tradiio no mês de abril. Ex-concorrente da última edição da Operação Triunfo, a artista inaugurou ontem à tarde o Palco EDP. Dona de uma competência rara para fundir eletrónica e pop, Isaura conquistou o pouco público que a assistia, convidando inclusive uma bailarina de dança contemporânea para acompanhar uma das suas canções. Com uma carga melódica muito moderna e universal, as suas músicas têm tanto de melodramático como de alegre. Os temas como «Change It» ou «Useless» são belos cartões-de-visita para uma carreira que promete bastante sucesso.

Logo a seguir, Ahmed Abdullahi Gallab, mais conhecido como Sinkane. A memória e vivências culturais dos tempos – e géneses – africanos são-lhe inspiração e recorrências vivíssimas, aplicando o espírito musical do país de origem nas suas composições. Não há música como a de Sinkane, porque é incomparável na fusão dançante que faz dos sons de África com o funk, acrescentando elementos electropop e jazzy.

Benjamin Clementine é a voz aristocrática que veio da rua e um dos artistas ingleses que mais clamor tem causado nos últimos tempos. O cantor-compositor de 25 anos é peculiar. Especialmente ao vivo: impressiona pela presença magnetizante, pelo lirismo vocal grandioso, pela música híbrida, com qualquer coisa de clássica, jazz, gospel ou canção ligeira francesa. Os concertos avolumaram-se, as editoras apareceram e hoje Benjamin tem já um LP editado – chama-se At Least For Now – e é um dos casos sérios da música britânica. “I am lonely, alone in a box of stone/ They claim they loved me but they all lying / I am lonely alone in a box of my own / And this is the place, I now belong”, cantava ele «Cornerstone», por entre as cascatas das notas do piano e as respirações ofegantes, procurando pausas para de imediato lançar um grito catártico, acabando a repetir “Its my home, home, home, home”, antes de se fazer silêncio e as palmas irromperem. Poeta, canta com as vísceras elegantíssimos temas soul e pop ao piano, lembrando a intensidade performativa de Nina Simone ou o jeito intimista de Antony Hegarty. A voz é majestosa, sublimando letras autobiográficas que falam da solidão, e a música é intemporal. Não respira o ar dos tempos. Cria o seu tempo. Ao piano, ou quando canta, tem gestualidade teatral, impondo tensão dramática e o exacerbamento das emoções. Em «Cornerstone», a sua primeira e mais emblemática canção, expele todas as frustrações e ressentimentos, com uma força brutal que fascina, mas em «Adios» discorre sobre a saída de Londres, assumindo as escolhas, sem culpados. Adeus Benjamin, até um dia.

A plateia aguardava impaciente por Kindness. A banda de Adam Bainbridge viu o disco do ano passado, Otherness, figurar no topo de muitas das listas dos melhores de 2014. De facto, o maravilhoso registo, é vibrante de estilo e ritmo, e ao vivo, como constatámos no ano passado em solo luso, ganha uma vida extra que inebria qualquer auditório. O génio de Bainbridge ganha corpo em canções que misturam os sons da contemporaneidadepop, com outros, harmonizados, dos anos 80. Foram imperdíveis!

Depois, tivemos as Savages que rapidamente confessaram as saudades que tinham nossas e da nossa linda capital. Vieram ao Super Bock Super Rock apresentar o seu arsenal explosivo de canções pintadas do negro que o póspunk soube, e muito bem, oferecer. Com o disco de estreiaSilence Yourself debaixo do braço, Jehnny Beth (voz), Gemma Thompson (guitarra), Ayse Hassan (baixo) e Fay Milton (bateria), são, no momento, uma das bandas femininas mais amadas do mercado. Lideradas pela carismática Jehnny Beth, dona de uma voz irreparável, defenderam com convicção músicas como «City´s Full», «I´m Here», «She Will» e «I Need Something New». Incendiárias e dedicadas em palco, debitaram visceralmente no Palco EDP uma musicalidade cuja intensidade é imensurável.

De Inglaterra para o Palco EDP, os Bombay Bicycle Club regressaram a Lisboa. Mas se no ano passado tocaram à tarde num palco resguardado no Rock in Rio, este ano atuaram para uma plateia bastante composta e iluminaram a noite estrelada. Composta por Jack Steadman (vocais, guitarra, piano), Jamye MacCol (guitarra), Suren de Saram (bateria) e Ed Nash (baixo), a banda de indierock e indiefolk já conta com um repertório de quatro álbuns. Lançado no ano passado, o disco So Long See You Tomorrow – com os singles «Carry Me» e «Luna» – afasta-os das sonoridades indierock que os caracteriza e marca a viragem para uma vertente mais eletrónica do grupo. Vêm do Norte de Londres, nasceram sob o título The Canals, mas o que marca os Bombay Bicycle Club é a intenção e capacidade de se reinventarem a cada disco. O primeiro álbum foi claramente direcionado para os apreciadores do indierock mais puro, o segundo recebeu inspiração da música folk e o terceiro já mostrava influências da música de dança.

Palco Antena 3

White Haus é o nome do novo projeto de João Vieira, ex X-Wife. Depois do indierock trazido pelo trio, estreia-se com o disco The White HausAlbum, um registo com muita eletrónica dentro, fortemente inspirada nos sons dos anos 80 e 90. Nem tudo retumba para dançar, mas quando soa… soa imperdível!

Da Chick é o vulcão sonoro e irreverente da D.I.S.C.O.Texas. Desconcertante e sempre dedicada, os seus concertos elevam alto o funk e seus derivados. Temas como «Cocktail» ou «Lotta Love», apresentam Da Chick como a melhor representante lusa do groove eterno da soul que balança ritmicamente ao som da música disco.

Do Porto, Best Youth. A banda de Ed (Rocha Gonçalves), composições e produção, e Kate (Catarina Salinas), letras e vocalizações, surpreendeu com o sucesso de 2011 em formato EP, «Winterlies». Os Best Youth, fazedores de um indiepop sofisticado, elegantemente eletrónico, estrearam-se em LP este ano com Highway Moon. Os singles «Red Diamond» e «Mirrorball» ilustram na perfeição a estética independente e universal dos Best Youth, uma cena kitchy para dançar.

Palco Super Bock Super Rock

Os The Drums, banda formada pelos nova-iorquinos Jonathan Pierce e Jacob Graham, trouxeram-nos o novo registo Encyclopedia. Depois dos elogiadíssimos primeiros discos The Drums e Portamento, os norte-americanos continuam na sua deriva rock ‘n’ roll, sem arredondar ou complicar o seu som, mantendo-o espontâneo e cativante. Os autores de hinos como «Best Friend» ou «Lets Get Surfing» têm canções frescas e mostram-nas ontem no Palco Super Bock.

Um dos momentos marcantes da edição que assinala estes 20 Anos de Festival foi, inevitavelmente, o concerto conjunto de Jorge Palma & Sérgio Godinho. Lamentável uma arena praticamente vazia, sem interesse pela reunião de dois dos nomes maiores da música em palco para um espetáculo especial concebido em conjunto. Ambos, com uma carreira com mais de quarenta anos, têm notavelmente sido responsáveis por alguns dos melhores momentos da música portuguesa. Com dezenas de edições entre LPs de originais e colaborações com pares de igual calibre, são uma referência na arte lusa. Autores excecionais, compõem melodias maravilhosas, escrevem letras tocantes e incomparáveis e ao vivo transportam o seu universo de uma forma sempre dedicada e emocionante. Canções como «Dá-me Lume», «Deixa-me Rir», «A Noite Passada», «Com um Brilhozinho nos Olhos», entre tantas outras, tornaram-se clássicos incontornáveis e banda sonora das vidas de várias gerações. Acompanhados pelos músicos Pedro Vidal, Nuno Rafael, João Correia, Sérgio Nascimento, João Cardoso e Nuno Lucas, partilharam muitos dos temas dos seus reportórios e algumas surpresas fora do universo dos dois ícones.

Descidos do céu, dEUS, vieram à terra para atuar no palco principal. Liderados por Tom Barman, a banda já teve inúmeras formações, mas foi sempre constituída por enormes músicos. No ano passado celebraram o 20.º aniversário do icónico disco de estreia, Worst Case Scenario. De 1994 até aos nossos dias editaram 7 LPs, sempre sem desafinar do trilho rock e pop experimentais que lhes garantiram uma marca diferenciadora. dEUS? Adeus!

O Meo Arena encheu para assistir ao coletivo inglês constituído por Damon Albarn, Graham Coxon, Alex James e Dave Rowntree. Falamos naturalmente de Blur, o cabeça-de-cartaz do segundo dia do Super Bock Super Rock. As luzes apagam-se e o espetáculo começa bem – o palco decorado com enormes gelados, mesmo a tempo da sobremesa, ao som de uma música ao estilo da carrinha Family Frost. Mas aquele que podia ser o melhor espetáculo de sempre, ficou pela repetição. Qualquer pessoa que tenha consultado os alinhamentos de concertos dos Blur, percebeu que nos últimos meses as alterações têm sido poucas, podendo prever-se quase certeiramente quais os temas a ser tocados e por que ordem. De onde a ideia de que cada concerto é único e irrepetível, essa doce ilusão em que o público se deixa embalar voluntariamente, parecia esmagada por uma verdade muito clara. Só não tivemos direito a cinco horas de concerto como aconteceu no festival de Roskilde, na Dinamarca. O percurso de Blur feito entre o álbum de estreia Leisure (1991) e Think Tank (2003) foi de conquistas constantes embrulhado magnificamente por edições históricas – 7 no total – e canções que elevaram a banda ao Olimpo da história da música moderna, marcando o panorama do rock alternativo. São uma das maiores bandas britânicas das últimas duas décadas e composições como «Song 2», «Coffee And TV», «Girls And Boys», «The Universal», «Parklife» e muitas, muitas outras, ajudaram a impulsionar a banda para elevados níveis de popularidade tanto em casa como no exterior. E 16 anos depois do lançamento do seu último álbum enquanto quarteto, os Blur lançaram um novo álbum intitulado The Magic Whip. Osingle «Go Out» foi o primeiro avanço de um disco há muito aguardado e que, para além dos clássicos, ressoou com enorme emoção ontem à noite. Blur começaram por «Go Out», «There’s No Other Way» e «Lonesome Street», e terminaram com «Girls & Boys», «For Tomorrow» e «The Universal». Do cardápio fizeram ainda parte «Out of Time», «End of a Century», «Tender», «Song 2», «To the End» e «This Is a Low», temas que exigem tanto das cordas vocais do público quanto do próprio. Depois de ter feito vezes sem conta crowd surfing, e conquistado a plateia histérica entre pulos, saltos e assobios, o encore serviu de digestivo para terminar uma fortíssima atuação com «Stereotypes». Foi uma ótimo refeição, só faltou mesmo comer os gelados.

 

Texto: Mafalda Saraiva

 

Beijinhos, La Bohemie.