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La Bohemie

Balada de Lisboa.

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Há muito tempo que desejo escrever-te esta carta. Como se uma força oculta fosse falando cada vez mais alto dentro do meu peito, uma voz que solta um grito mudo, uma voz que ganha força e sobe até à garganta, arranhando pelo caminho, inevitável e consciente, como o curso de um rio. O nosso rio. O Tejo.

Tenho saudades. Tenho saudades claras, luminosas como estrelas abertas, dadas, como mãos estendidas, saudades caladas mas não esquecidas, à espera do momento certo para morrerem nos braços do nosso amor... saudades do Tejo. De Lisboa. Lisboa existe porque nós a inventamos cada vez que pensamos um no outro.

Escrevo-te porque estás longe, numa cidade onde o nevoeiro roubou o brilho ao sol e as pessoas pensam mais do que sentem. Transmito-te uma sensação de transe quase como se algo neste ambiente bravo me possuísse realmente e, durante este torpor físico, a caneta desliza ligeiramente sobre as folhas baças, enchendo-as de belíssimas palavras e profundas mensagens de amor. Nem sempre conseguimos encontrar-nos no momento presente, nem sempre tens tempo para mim, mas sei que posso contar contigo, sei que, num momento de fraqueza estarás ao meu lado, que voltarás sempre, porque se a vida é um eterno regresso a casa, a nossa amizade é um amor eterno. Tu foste e és tudo isto, e ainda mais agora, que somos amigos, entre nós não há pesos nem amarras, e o silêncio não quer dizer ausência, apesar da mesma reinar nos nossos dias.

Ontem passeei pela minha cidade. Acho que nunca tinha parado para ver Lisboa. Por vezes o trânsito não ajuda, as obras não inspiram, os eléctricos encravam, as buzinas incomodam... Mas todas estas imagens negativas se evaporam quando se passa um dia a vaguear por Lisboa ao teu lado. Para nós, lisboetas, vemos tudo da mesma maneira. Por isso, é que ver Lisboa pelos olhos de um turista consegue ser tão libertador. Ontem fui turista na minha cidade.

Uma vez chegada à Estação de Santa Apolónia, subi até ao curiosíssimo bairro medieval de Alfama, dédalo de becos e de escadinhas que se atropelam e se confundem; casas com empenas desencontradas e fachadas salientes; telhados que se beijam; minúsculos e graciosos largos e recantos, onde há mistério e poesia, graciosidade e pitoresco, tradição e história. Atentei nos seus arcos e chafarizes; nas torres vetustas; nas janelas, adufas e minaretes; nos seus cruzeiros, congostas e travessas e nas fachadas imponentes dos velhos e armoriados palácios.

Alfama, um bairro humilde e fidalgo, arrabalde que foi da Lisboa mourisca, possui, sem dúvida, um interesse que não pode passar despercebido ao turista. Depois de ter encontrado o Souk de Marrakech e a Alfama de Lisboa fui à descoberta do Panteão Nacional. Fica situado na freguesia de São Vicente de Fora, na Igreja de Santa Engrácia, “As obras de Santa Engrácia, as obras de Santa Engrácia”, onde se encontra o túmulo da nossa fadista portuguesa, Amália. Não resisti e fui até à Feira da Ladra fazer umas comprinhas. Sabes como gosto de decorar o meu apartamento com todas aquelas velharias. De seguida passei pelo Arco e pelo Mosteiro de São Vicente de Fora e fui até ao Castelo de São Jorge. Como a vista daquele mirante perante a minha cidade me inspira. Como eu admiro as sete colinas de tal inspiração.

Dei um passeio de eléctrico na carreira 28. Gosto tanto de me sentar naquele bichinho amarelo e vaguear pelos carris olissipos. Ouvir o “tlin – tlin” da campainha, num jeito fanfarrão de quem traz novidades, e descer numa qualquer ruela lisboeta. Dirigi-me até ao Cais do Sodré e fiz a travessia para Cacilhas. É olhar o rio e ver o Sul na outra margem. Depois, beirando a linha da água límpida e quieta dum azul – leitoso, o Terreiro do Paço abriu o átrio solene. O sol projectava, por trás dos barcos, o seu reflexo no leito cristalino, criando um panorama de acrescida beleza. Vivi o entardecer de Lisboa. A vista corre, lés a lés deste vasto cenário, desde a barra e o mar até às lezírias e casais do Ribatejo, que já mal se lobrigam ao nascente. Fui à Igreja de Santo António. Uma mistura do barroco com o neoclássico. Já o sol, com os seus derradeiros raios vermelhos, refulgia na superfície prateada da ria, quando o grito de uma gaivota atroou os ares de uma forma tão repentina que, por momentos, captou a minha atenção. Continuei a pisar calçadas portuguesas e percorri o Rossio. De pé enxuto e garganta arrebatada, saltou um vendedor de lotaria a apregoar os seus números, e foi uma guerra de promessas, com terminações para todas as esperanças. Cantarolava em verso e corria atrás dos fregueses. O Rossio tem uma das praças mais bonitas desta cidade que se entranha entre nós. Nunca tinha reparado na imensidão da sua beleza. Não é apenas a vaidade dos monumentos e das suas fontes, ou a sua fascinante história... o Rossio é um livro vivo.

O relógio do Carmo insinuava as horas. Caminhei até às Portas de Santo Antão. Deliciei-me no meio de tantos petiscos e ginjinhas. Saboreei o anoitecer. Subi as ruas estreitas de um dos bairros mais contemplados desta cidade, o Bairro Alto, outrora fidalgo, hoje popular e buliçoso, de ruas alinhadas, e acabei nas Escadinhas do Duque a jantar no Café Buenos Aires. Esperei pelo amanhecer da minha cidade e subi até às muralhas pela calçada da Graça, de tom puro aristocrático. O nascer do dia visto do miradouro de São Pedro de Alcântara é de uma magia interminável. É de uma miscelânea de cores, sons e cheiros encantadores. A vista estende-se desde o extremo Leste, sobre o rio, seguindo até Norte, deparando-se, a cidade, cercada por uma série de eminências. À direita, alveja São Vicente, coroada pelas torres simétricas em volta da fachada branca. Ao longe e para além de uma nesga azul do Tejo, estende-se uma lista branca de casarios embrechados. Sobre a esquerda erguem-se depois, em acastelamentos cerrados de pequenos prédios, os altos da Graça e a Igreja da Penha de França. Entre o Castelo de São Jorge e essa linha de cimos cava-se uma funda depressão, onde o olhar se abisma. Seguindo depois para poente, a cidade eleva-se de novo, o olhar repousa na vasta massa verde do Jardim Botânico, abraça ao longe as torres e a cúpula da Estrela, e mais ao longe ainda a silhueta dissipada do Palácio da Ajuda. Volvendo o olhar de novo para o vale encantador, avista-se, por uma longa brecha, o Rossio. E terminei um novo dia no destino da minha inicial partida. Na doce e solene Santa Apolónia.

Lisboa é a capital do império perdido. A monumentalidade convive porta a porta com o rebuliço da vida de muitos que se cruzam. Lisboa é de uma beleza inexplicável. É uma cidade de bairros típicos de esquinas, de rostos e de estórias. Estórias que estão num pulsar único de sorrisos e entre janelas. Subir e descer o Bairro Alto e a Bica. Sentir a luz única e inspiradora. Ouvir o fado, do típico e do apaixonado. Sentir Lisboa. Viver por Lisboa. Morrer com Lisboa.

Em Lisboa, o coração manda mais que a razão e o sonho comanda a vida. Porque Lisboa é tudo o que eu quero. Tudo o que desejo. Tudo o que vivo. Lisboa é a minha cidade. Sou portuguesa dos quatro impérios e quero mostrar-te a minha cidade, quem sabe a tua cidade, ou até a nossa cidade, se um dia formos um todo maior do que a soma das nossas duas partes, das nossas duas vidas. Mas agora que embarcas outra vez com a vida inteira dentro de uma mala, como quem atravessa o rio Tejo num barqueiro em direcção ao infinito, quero que leves um pedaço de mim dentro do coração. E quando chegares à cidade dos pampilhos e das celestes, onde as pessoas comem em tascas, caminham em terra batida e dormem em apartamentos, quero que olhes para o céu e vejas o azul matizado da minha grande Lisboa. Quero que adormeças como se eu estivesse ao teu lado e acordes a pensar que, no final do dia, eu estarei lá para te abraçar e beijar.

Tenho saudades desses fins-de-semana compridos em que me reconcilio comigo mesma numa cidade de ruas estreitas e casas sem cortinas, onde toda a gente anda de bicicleta e os carros não buzinam. Na minha cidade, onde os carros buzinam e toda a gente se esconde atrás das cortinas, passo os dias a fingir que sou feliz sem notícias tuas.

Longe de ti, percorro as imensas ruas olissiponenses, oiço “Lisboa de mil amores” e sonho que voltarás nas asas e vapores de um comboio qualquer, com os braços abertos e o sorriso gigante e feliz, como no primeiro dia em que te vi mas não conheci, no dia em que procurava um alguém para além do meu próprio ser. Imagino-te sentado no calçadão que te leva até ao rio. Paro, escuto e observo o teu corpo, confundindo os teus olhos com o luar e, num misto de prazer, calo os teus gritos calados, que se soltam dos teus lábios sem se ouvir. A escuridão desvaneceu e os mais sensíveis raios que o sol irradiava, dissiparam-se por entre as margens do Cais.

Neste momento a luz do pôr-so-sol é perfeita para fotografar os canais e as pontes, na esperança de encontrar um alguém por entre o nevoeiro, ou no desfile, por detrás de uma máscara mágica, com o corpo coberto por um manto de veludo. E pouco a pouco o pedestal vai baixando como um elevador do princípio do século, até ao nível da nossa esquecida lucidez.

Recordo-me quando andávamos de mãos dadas e aos beijinhos clandestinos nos jardins do Império, com a Torre de Belém a fazer as vezes de chaperron, quando o Terreiro do Paço ainda não adivinhava o Centro Cultural. Sabes, meu amor, descobri que a pedra dos Jerónimos e da torre de Belém não é fria, nem muda, nem rememora em sua natividade negrumes infernais, gritos de prisioneiros ou justiçados.

Lisboa é, de facto, a cidade dos pastéis. Pastéis de nata, pastéis de Belém, pastéis de bacalhau, de massa tenra e pastéis de frango. Na minha cidade o pastel é rei e a doçaria é imperatriz, reinando despoticamente em todos os balcões de pastelaria da cidade. Lisboa emerge como uma caravela de luzes e música, navegando acima do tempo e da realidade, imperturbável. Espantosa cidade esta, na minha imaginação: nua, fulgente, cortante como lâminas e árida como um deserto polido, rodeado de água de prata.

Quando me vens à memória, lembro-me sempre daquele abraço imenso, nas ruas despidas de Lisboa, um abraço que me levou para fora deste mundo, enquanto assistia ao desenrolar da minha anterior existência. Sempre que passo por elas, o seu cheiro entra pelo meu corpo e enche-me de bem estar. Mas naquela tarde fria de Inverno em que apareceste naquela esplanada, no Chiado, e encheste os meus sentidos e me aqueceste o coração durante dois meses seguidos para depois voltares a desaparecer com a mesma leveza e, desta vez, sem pedir licença, eu senti que podias mudar a minha vida. “Chiado, o coração da minha cidade”. E quando não chove, nesta terrinha à beira rio plantada, instala-se um frio húmido e cortante de fazer gelar as ideias e os pensamentos, de tal maneira que três graus positivos custam muito mais aguentar no Rossio, do que dez graus negativos na Piazza Duomo, em Milão. Mandaste embora o Inverno, meu amor, o mais frio e triste dos Invernos do meu descontentamento. Longe vão os pacíficos dias de Agosto em que circular em Lisboa ainda era viver.

A paixão é mesmo isto, nunca sabemos quando acaba ou se transforma em amor, e eu sabia que a tua paixão não iria resistir à erosão do tempo, ao frio dos dias, ao vazio da cama, ao silêncio da distância. Agora os meus dias começam e acabam contigo, a tua respiração enche o meu ar, acompanha-me no silêncio das manhãs e no sossego das noites, e todos os dias tenho-te encontrado naquele café no Saldanha, o Choupana Caffe, ao fim da tarde a beber um cappuccino, com Lisboa a enfeitar-me os sonhos e a imaginação.

Se eu pudesse, comprava a colecção completa dos filmes da Disney para ver ao fim da tarde, num 3º andar entre a Lapa e a Madragoa, às escuras enrolada nos cobertores e comer chocolates, como tanto gostamos. E depois, embalar-me nos teus braços, adormecer sob o teu peito e sonhar com a mais bela das cidades, Lisboa, com o mais formoso dos rios, o Tejo. Se eu pudesse... mas não posso, porque ninguém caminha sozinho, uma ponte só se constrói se as duas margens o permitirem e o rio só corre se a corrente o empurrar. E eu não sou mais do que uma gota de água nesse rio parado, uma peça perdida de uma ponte desmantelada, um mapa riscado que se esqueceu de todos os caminhos, uma folha em branco sem inspiração, um estandarte sem bandeira, uma voz sem fado, uma cidade sem cor. Falta algo à minha grande e bonita Lisboa. Faltas tu.

Até lá, e porque a vida nem sempre é como a imaginamos, espero por ti sem esperar, sonhando que aquilo que desejo, se for bom para mim e o melhor para ti, se realize, e a tua ausência seja apenas uma etapa, a razão pela qual te escrevi esta carta. Talvez ela te sirva para que te libertes dos medos, abandones as angústias e vivas as alegrias. E mesmo que não te tenha nos meus braços, viverás em mim, viverás em Lisboa, por tudo o que te dei. Por tudo o que sonhámos e desejámos. Por tudo o que fomos e ainda somos. Por ti.

Vou guardar o teu olhar ansioso de quando nos encontrávamos ao pé de minha casa, no Jardim da Estrela, e tu chegavas sempre antes de mim, atrás de uma guitarra com um sorriso apaixonado estampado na cara e dizias: - “Olá miúda”. É engraçado, quando olho para o futuro, vejo-te lá. Olho para o sofá da minha sala e estás lá sentado. Olho pela janela e estás comigo a ver os barcos que sobem e descem o rio. Deito-me na cama e és tu que me adormeces e acordas sempre com um beijo e um sorriso. Mas isso é na minha imaginação, que é aquilo que nos agarramos quando a vida nos rouba o resto. O resto é estar sentada aqui, na esplanada do Jardim da Estrela, onde via o teu olhar iluminar-se da minha presença e do meu sorriso.

Confesso que quero voltar. Não para fugir, ou para te esquecer, mas para te sentir mais perto. Percorrer os caminhos que descobrimos juntos, rever os pormenores, nos quais nunca tinha reparado antes de tu chegares. Sentir o silêncio que só eu sinto em Lisboa. Sentir-te a ti. Podia ficar horas a observar a cidade do alto daquele castelo e reviver todos os momentos que passámos juntos. Por isso anseio voltar.

Portugal é a minha terra e Lisboa a minha casa. As minhas sete formosas colinas. E quando acordo de manhã e abraço o rio e todos os seus segredos, sinto uma paz merecida, a tranquilidade de todos aqueles que aprenderam a viver com os seus medos. Este local é um santuário de beleza, de uma pacífica natureza como nunca encontrei em lugar algum. Vivo aqui pela sua energia mística que pelos ares paira, muita dela contendo os vestígios das pessoas que por tais caminhos passaram, que de tal império dependeram, que por tal pátria lutaram: os marinheiros que do cais partiram em busca de um horizonte em mares assassinos, os pescadores que do rio extraíam isco para o seu ofício. O suor e mesmo o sangue dos homens que, através dos tempos, foram derramados nestas terras portadoras das suas almas, ofertadas ao mar. Desde as eras mais remotas, vidas consumiram a grande Lisboa, e por ela foram consumidas. E tudo em uníssono, toda essa energia que aqui tem morada, constitui o que de mais belo há no mundo.

Eu pertenço a Lisboa. É aqui que me sinto feliz. Acredito que de uma forma natural e inequívoca, fui descobrindo que é aqui que sou verdadeiramente feliz, que preciso de sol para viver em paz. Preciso da respiração do Atlântico para me sentir grande. Não, não gosto de dizer adeus nem de ver o fim de algo, sobretudo se não lhe vi o princípio. Prefiro dizer até um dias destes, mesmo que esse dia demore anos. Ou então, afastar-me sem uma palavra, e deixar no ar, o mistério de não saber quando, como e por que é que não nos voltamos a encontrar. Assim, não sou eu que ponho fim às coisas, mas as coisas que um dia acabarão, ou não, por si. Ouve a calamidade do silêncio lisbonense e nele sente o meu beijo.

Se não te conhecesse bem, diria que nos podíamos apaixonar outra vez, como naquela tarde, com Lisboa a pintar-se de perfeição aos nossos olhos, sob a mesa da varanda do 3º andar da Rua das Praças, onde bebemos o nosso primeiro chá de amor. Eu falava-te das estórias de Lisboa e tu ouvias-me com uma extrema atenção, bebias as minhas palavras e percorrias a minha cidade dentro de mim. Tudo se esbate e se desfaz, partindo-se em imagens antigas, riscadas e estragadas pelo tempo, que te roubam para outra cidade, onde és sempre outro e outro e outro, nos braços desprevenidos de quem te sonha.

Lá em baixo na rua chovem gotas de saudade, de cores escuras e opacas, está frio e húmido, o vento vira as telhas dos prédios tristes e despidos, as minhas lágrimas procuram conforto e aconchego em mais um copo de vodka. Lá fora as pessoas fogem delas próprias para mergulharem no vazio do desespero. Lá fora é Inverno da minha angústia, a vil e deslocada condição humana à beira de um rio gelado. Lá fora está o mundo. Está Lisboa, e eu fixo o meu pálido olhar na sua imperfeita perfeição.

Cá dentro, dentro de um mundo que é só nosso, a música mistura-se com as nossas vozes, a lareira está acesa, os lençóis vazios e o teu cheiro dissolve-se no meu. Cá dentro há paz e sossego e doçura e segurança, há um tempo fora de todos os tempos. Lá em baixo o comboio continua a passar e eu fecho os olhos para depois os abrir, não quero dormir, não quero perder a eternidade destes instantes azuis que antecedem o mergulho no sono e anunciam a chegada provável de um novo dia. Procurei por entre o nevoeiro nos canais, com uma máscara de prata de veludo. Vi a tua silhueta, mas quando estendi a mão para te alcançar, acordei.

 

Beijinhos, La Bohemie.