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La Bohemie

A verdade não existe.

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Os intelectuais nunca salvarão o mundo. Realmente não precisam de o fazer. O mundo irá afundar-se, de qualquer modo. Tudo o que fazem é apressar o processo. Também já não conseguem escrever. Que melhorem o seu estilo. Isso também melhorará o seu pensamento. E agora? A minha solidão está na minha verdade. Nunca deixarei que me corrompam. Sempre fui fiel ao pensamento. Pascal. Doido, claro, com a sua auto-tortura. Mas brilhante e real. Falso - tudo na Cristandade actual é falso. A virtude é hipócrita, e à obediência respeitosa chama-se piedade. Eu tenho respeito por Pascal. «Assim toda a nossa dignidade consiste em pensar.» Certo. Absolutamente verdadeiro. Não tenho outra opção senão continuar a pensar. Ser fiel ao pensamento. Ousar reconhecer a realidade. Sócrates. Comecei por ele. Dante, Espinosa, Pascal, Goethe! Mesmo se o génio de Weimar era pagão, a sua profunda simpatia pela ética dos Evangelhos fá-lo participar no grupo. Os solitários e o seu Deus. Estão sozinhos, mas eu estou ainda mais. O meu tempo chegará. Um dia. Goethe. Mais europeu do que alemão. Portanto, um grande homem. «Toda a nossa proeza consiste em pôr de parte a nossa existência para podermos existir.» Brilhantemente expresso, mas incorrecto, caro Goethe. Não existe nada mais do que esta existência quotidiana, física. Só isso. Para além disso, acima disso, em qualquer lugar lá fora, não há nada. Nada! Esta é a chave para a minha verdade. Niilismo. Não há valores imortais, universais, intemporais, porque não há intemporalidade, não há transcendência. Está vazio. Um grande vazio. Nenhuma verdade, nenhuma beleza, nenhuma bondade. Eu existo. É tudo. A minha verdade é tudo o que existe, a minha beleza, a minha moral, a minha justiça. A cada um a sua. Faz a tua escolha. Niilismo. Está mesmo aí, mas ninguém entende ainda as suas consequências. Senhoras e senhores! A Verdade não existe. Nunca existiu. Mas fazem-nos acreditar nela porque sem a vossa religião, sem moral, sem as vossas grilhetas metafísicas, vós e toda a vossa pudica responsabilidade, iríeis comportar-vos como animais. Fazer discursos é indiferente. Eles não ouvem e entendem ainda menos. O grande segredo do niilismo: nada adianta. Apenas o absurdo! Porque tudo o que podia dar significado à existência humana, todos os valores que as pessoas acatam porque são universais e ternos, desapareceram no grande vazio juntamente com a eternidade. Não existe nenhum mundo das ideias. Apenas a natureza. Sê leal ao teu corpo, aos teus instintos, aos teus desejos, ao teu caos. Tudo é permitido, porque nada é superior a nós. Liberdade ilimitada sem qualquer significado. Isso é a vida. O ideal de dignidade humana de Sócrates era uma ideia fixa. As únicas ideias que sobreviverão. Sobreviveriam sempre. Porque o que farão esses membros da ignorante elite intelectual quando os mais altos valores estão perdidos? Quando está perdido o significado da existência? É estranho ver como os humanos não conseguem viver sem o absoluto. O meu humano seria diferente. Um Übermensch que necessita de nenhum absoluto. É suficientemente forte para aceitar o absurdo. Não conquista outros, somente ele próprio. Libertei-me a mim mesma. Eles não. Eles não conseguem lidar com a liberdade. Para eles, a liberdade torna-se uma maldição. Sócrates já sabia disso. E agora, fartos da liberdade depois da era da liberdade, iremos provavelmente dar as boas-vindas à ditadura. Portanto concordo realmente com aquele grego num aspecto. Por fim, as pessoas sentem a liberdade como um fardo. É melhor obedecer. Verdadeiro. Não, Sócrates não era estúpido. 

 

Beijinhos, La Bohemie.