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La Bohemie

A minha Liberdade de escolha.

 

Quando ontem me ligou e comentei que estava sentada no Terreiro do Paço com amigos, interrogou-me de imediato se tinha ido comemorar o 25 de Abril. Fui, claro. Ela não gosta, nunca gostou e faz questão de me dizer que em casa não existem cravos nem se ouve «Grândola Vila Morena». Eu não sei o que foi o 25 de Abril. Por mais que leia, por mais que oiça, por mais que me descrevam, eu não sei o que foi. Nunca saberei. Mas é um dia de festa, e eu gosto de festa. Gosto de ir para a rua com os amigos e comemorar a Liberdade. 

 

A minha Mãe nasceu em Angola em 1960. Um ano depois começou a Guerra Colonial. A Revolução dos Cravos em Portugal, a 25 de Abril de 1974, determinou o seu fim. A minha tia morreu. A minha Mãe perdeu a irmã. O meu avô, possuidor de demasiados bens para o mal que lhe fizeram, viu-se obrigado a fugir de barco com um caixão para enterrar a filha. Fê-lo sozinho. Depois regressaram todos para um país que festejava vitória. Para a minha família não houve vitórias, houve perdas. Perderam dinheiro, perderam amigos, perderam familiares, perderam uma casa, perderam um lar. Perderam um país que hoje já não é deles.

A minha Mãe é monárquica. O meu pai é de Direita. Desde pequena que me habituei aos seus costumes, aos jantares e festas com os duques de Bragança, ao serviço de loiça com a coroa de Portugal, às molduras com fotografias dos baptizados de Afonso, Francisca e Dinis. Todos os Verões eram passados com a família Câmara Pereira, portanto os assuntos e conversas não fugiam muito das suas vidinhas abastadas. Eram uma espécie de família. A minha família. Os meus amigos. Durante dezoito anos eu cresci e vivi num meio demasiado restrito para a minha enorme vontade de libertação. Em casa dos meus pais não se pode ser Socialista, não se diz a palavra esquerda e não se toca no assunto Comunismo. Ainda hoje me recordo de um momento em que o meu pai perguntou «Agora viramos à direita ou para o outro lado?» Eu nunca pude ir para o outro lado, por isso desconhecia o outro lado.

A primeira vez que fui a uma manifestação, em 2012, eu estava feliz. Desenhei um enorme cartaz com a Mafalda da banda desenhada, saí de casa para vincar o meu descontentamento, o meu desagrado, quando senhora minha Mãe me perguntou se me tinha tornado numa contestatária. E porque não, se me deram o nome de uma? Respeitou, mas não gostou. A minha Mãe respeita, mas não gosta. «Que falta de nível», costuma dizer. Se nunca me faltou alguma coisa, não há necessidade de ir para a rua exigir seja o que for, pensa. Ontem encontrei uns amigos na Avenida da Liberdade e comentaram «O que é que estás aqui a fazer? Não te imaginava nestas andanças». Cada vez que digo que sou do PPM olham-me de lado, chamam-me coisas medonhas, fazem comentários descabidos. Comecei a desculpar-me com o Partido Próprio da Mafalda. Cada vez que digo que sou Católica perguntam-se como é possível sê-lo mesmo depois da Ciência ter descoberto a origem do Universo. Comecei a defender que sou uma miúda Católica por causa da Universidade onde estudei. Cada vez que digo que sou jornalista questionam-me como raio fui escolher uma profissão tão básica e pobre. Comecei a admitir que sou pessoa de capacidades intelectuais muito restritas. É a vida. Há sempre alguém que nos aponta o dedo, nos censura, nos rebaixa. Há sempre alguém que vai para a rua gritar Liberdade e depois não nos permite ser. Há sempre alguém que vai para a rua exigir direitos e depois não nos permite ter. Há sempre alguém que vai para a rua barafustar e depois não nos permite estar.

Eu ainda não consegui perceber muito bem em que tipo de Liberdade vivemos; eu ainda não entendi muito bem por que Liberdade lutamos; eu ainda não percebi muito bem que espécie de Liberdade queremos. A única coisa que sei é que a própria Liberdade tem regras e a principal é o respeito. Enquanto não soubermos respeitar a liberdade de escolha do outro, nunca viveremos em Liberdade.

 

Beijinhos, La Bohemie.