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La Bohemie

À distância dos 25.

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Já perdi a conta das viagens, horas e quilómetros entre Lisboa e Algarve. Há quase 25 anos que me divido entre a cidade que me viu nascer e a zona que me obrigou e ensinou a crescer. A cidade onde habito e me faz sentir e a que me acolhe quando não sei para onde ir. O frenesim caótico de Lisboa que me faz sonhar e a calamidade de Alvor que me obriga a parar. E descansar. Eu vou para o Algarve para descansar. Afasto-me dos problemas, observo-os de longe e procuro uma forma de os entender. E resolver. Mas nem sempre é assim.

«O Algarve não é para mim», comentei ontem com um amigo. Vivi no Sul tempo suficiente para perceber que sou um pássaro com as asas maiores do que a gaiola onde habitava e, quando fiz 18 anos, procurei um norte. Ontem, enquanto desabafa com esse mesmo amigo, percebi que tenho as asas feridas e perdi o rasto do norte. Não sei se é um sentimento face à curta distância dos 25, mas a verdade é que me perdi algures no meu próprio ser. A sensação de ter tudo o que sempre desejei e ainda assim faltar alguma coisa. «É uma fase», disse ele. E se não for só uma fase? E se eu perdi mesmo o norte? E se eu não souber mais o que quero. Pior, e se eu não quiser mais? As pessoas à minha volta acham que eu tenho tudo e eu sinto um vazio cada vez maior. As pessoas à minha volta passam o tempo a dizer que tenho um futuro pela frente, uma vida para construir e eu sinto que perdi-me no presente. Eu não sei o que quero. As pessoas irritam-me, aborrecem-me, sufocam-me. Quando mais penso em objectivos a alcançar, mais o corpo pede para descansar. O corpo que grita cansaço. A cabeça que explode de exaustão. Eu não sei o que quero. E se eu nada quiser?

«Ando cansada. Eu sinto-me cansada.» -  desabafo, dia após dia. Sinto, noite após noite. Os ataques de ansiedade enquanto caminho, as tonturas, as náuseas. Os pesadelos enquanto durmo, os calores, os frios, os choros. As noites passadas em branco com medo que me levem e nunca mais me tragam. As imagens constantes e repetidas que me passam pela cabeça e me transportam para outra dimensão. Eu não sei o que quero. Eu nem sei se quero.

Já perdi a conta das viagens, horas e quilómetros. à distância dos 25. Perdi o sul e não consigo encontrar o norte. Não sei para onde vou, não sei se quero ir.

 

 

 

 

 

 

 

 

Beijinhos, La Bohemie.