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La Bohemie

Momentos insólitos.

Cada vez mais estou certa de que as pessoas estão erradas. Não todas, algumas. Muitas perderam a noção de tudo ou do pouco que lhes resta, dissiparam-se entre o sul e o norte e não sabem estar no centro. Perdeu-se o respeito, a dignidade, a educação. Os valores humanos são cada vez mais delinquentes, fracos e lamentáveis.

 

Este Verão comentei na minha página do Twitter um momento completamente insólito que observara na praia – uma miúda, sentada na toalha, esperava os amigos. Assim que estes chegaram entregaram-lhe um saco de plástico e a rapariga agarrou num frasco bege. Pensei tratar-se de maionese e que fossem fazer sandes para almoçar. De repente, vejo a rapariga a espalhar creme nas virilhas e rapidamente percebi que não se tratava de maionese para sandes, mas de protector solar. Não, também não era creme para se proteger do sol, mas sim pomada para se depilar em pleno areal, no meio de dezenas de pessoas que se encontravam na praia. A miúda agarrou numa gilete e durante quinze minutos assisti a uma verdadeira sessão de depilação às axilas, às virilhas e às pernas. Ora, eu que faço depilação com cera quente há treze anos e não tenho qualquer tipo de problema em falar das minhas sessões de depilação das sobrancelhas aos pés, fiquei completamente incrédula com o que vi. Nunca entendi esta mania das pessoas espremerem borbulhas aos maridos, retocarem sobrancelhas e colocarem-se de perna aberta na praia à procura de um maldito pêlo. Cada um faz o que lhe apetece, certinho, mas é necessário existir coerência e disciplina nas nossas acções, é necessário existir civismo nos nossos actos. Estamos na era do salve-se quem puder, mas qualquer dia estamos todos perdidos.

 

Duas semanas depois fui almoçar com a minha mãe ao restaurante da mesma praia. Apesar de já ser cliente há alguns anos, os empregados vão alterando de época para época e nem sempre se enquadram na exigência e rigor que se devia impor. Não me tivesse calhado o empregado mais preguiçoso e casmurro que ali conhecera e não teria sido um almoço tão anómalo. Para acompanhar as entradas, pedi um sumo multivitamínico com o nome “Anti-Stress”, mas de pouco serviu, o sumo estava quente e ao quinto gole, já de copo meio bebido, pedi para colocarem mais gelo. Bem sei que o restaurante estava cheio, mas achei que meia hora depois era tempo suficiente para ter de volta a minha bebida. Questionei ao emprego o porquê da demora, quando surge o seguinte diálogo:

 

- O seu sumo? Mas já pediu?

- Eu já tinha o sumo, apenas pedi que colocassem mais gelo no copo.

- Ahhh, e eu vi o sumo ali no bar e servi a outra cliente.

- Desculpe? Mas o meu copo já estava a meio, tinha a minha palhinha, como é que serviu o meu sumo a outra cliente?

- Ahhhh, e agora? É que aquela senhora pediu o mesmo sumo e pensei que fosse para ela.

 

Nisto, o empregado não vai de modas e dirige-se à mesa da dita cliente, diz-lhe que o sumo é meu e traz-mo de volta.

 

- Desculpe, mas o senhor está a brincar comigo… há aqui qualquer coisa que não está a ser coerente. Então, eu peço para colocar mais gelo, o senhor leva o sumo para trás, depois serve o mesmo copo já a meio a uma cliente que nem sequer se importa que esteja meio bebido, e agora foi buscá-lo para mo devolver? Está a brincar comigo?

 

Quando dei por mim, estavam os clientes todos a olhar para nós, o dono do restaurante a insultar o empregado, a minha mãe céptica a olhar para a situação e a cliente, sentada atrás de mim, ria-se como se estivesse tudo bem. Fiquei completamente pasmada com o que acabara de acontecer. Não fosse eu estar com a minha mãe e tinha agarrado nas minhas coisinhas e nunca mais colocava os pés naquele restaurante, e ainda deixava uma reclamação por escrito. Que as pessoas estejam cansadas, eu entendo. Que as pessoas tenham os seus problemas pessoais, eu entendo. Mas no trabalho exige-se o melhor e o máximo de nós, e por mais que seja admissível errar, há erros que saem caros e não devem ser cometidos. No final do almoço, já com o restaurante vazio, o senhor veio desabafar as suas lamentações connosco e expliquei-lhe que a sua sorte foi ter cometido um erro gravíssimo com duas clientes que não lhe atribuíram essa importância, mas que teria de deixar as suas frustrações em casa, porque no trabalho trabalha-se.

 

Quando fiz a minha primeira tatuagem, em Julho, saí da loja com o papel celofane colado na costas e fui às Finanças. Com o calor que se sentia naquele dia, acredito que as fitas adesivas estivessem meio descoladas, contudo, estava cheia de creme e não podia retirá-lo até passarem três horas. Sentei-me na sala de espera e, de repente, oiço a senhora que estava ao meu lado dizer «tem aqui um papel colado nas costas» e arranca-o com toda a força. «Nãooooo…» Olhei para ela apática e só tive tempo de acrescentar «Era a protecção da tatuagem…não podia arrancar.» Naturalmente ficaram todas as pessoas a olhar para nós e a senhora ainda me perguntou se eu queria que voltasse a colar. Olhei para o plástico, nojento, cheio de creme, e só consegui deitá-lo fora. Sou bastante pacífica neste tipo de situações, não me chateio com nada e até compreendi a intenção da senhora, contudo, há que pensar um bocado. Ora, uma coisa é eu ver que uma senhora tem a etiqueta do preço pendurada no vestido e alertá-la; uma coisa é eu ver que uma menina tem papel higiénico agarrado ao sapato e alertá-la; uma coisa é eu ver que um senhor tem cocó de pombo no ombro e alertá-lo. Outra coisa é eu ver que uma pessoa tem uma compressa colada no braço e arrancá-la sem perguntar, sem avisar, sem alertar. E neste caso eu não tinha um papelinho colado nas costas, eu tinha um quadrado enorme de papel celofane colado com fita adesiva e, como é óbvio, não andava assim na rua por ser cool, não me sentava despercebida no banco das Finanças sem sentir que tinha papel celofane colado no corpo. E por mais que entenda a intenção da senhora, acho que não faria mal algum perguntar-me se podia tirá-lo, em vez de o arrancar. E são este tipo de situações que me fazem uma tremenda confusão, a sério que fazem – qualquer dia começo a andar no metro a arrancar cabelos brancos às pessoas, ando a puxar as calças dos meninos para cima porque têm os boxers à mostra ou ando com bandas de cera a tirar o bigode das meninas.

 

O mais recente momento inédito aconteceu na semana passada, quando fui ao café aqui na rua. Voltava eu descansadinha da vida para casa, quando sinto cuspe no meu ombro. Olhei para cima e vi um miúdo à janela a cuspir para a rua, todo contente da vida. Passei-me, juro que me passei da cabeça e toquei à campainha. Se eu já não suportava aquela família, que berra de manhã à noite, cuspirem-me em cima foi o pretexto para falar com a avó do miúdo e obriguei-o a pedir-me desculpa. Que a avó seja uma mal-educada, que a avó só saiba utilizar vernáculo com os netos, que a avó arranje confusão com todos os vizinhos, é com ela. Agora não admito que me cuspam em cima, que me faltem ao respeito ou que sejam mal-educados comigo. Qualquer dia estou eu a chegar a casa e levo com um piano em cima.

 

Vivemos numa sociedade cada vez mais pobre de espírito, de civismo, de educação. Todos nós temos os nossos problemas pessoais, financeiros, as nossas frustrações e lamentações, mas isso não nos dá o direito de atirarmos com baldes de merda para cima dos outros. Os valores humanos são cada vez mais delinquentes, fracos e lamentáveis.

 

Beijinhos, La Bohemie.

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