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La Bohemie

Casa dos Degredos.

Boa tarde, esta não é a voz. Ontem começou a terceira edição da Casa dos Segredos e a hashtag #SS3 tornou-se rapidamente trending topic mundial. Foi uma verdadeira loucura nas redes sociais e começaram a surgiu dezenas de páginas de fãs no Facebook a uma velocidade astronómica, descobriram-se imagens e páginas dos actuais concorrentes e o nome Cátia Márisa entrou na lista do Top Twitter Trends. Nada de surpreendente, visto que é mais do mesmo. Concorreram mais pessoas à Casa dos Segredos do que às universidades? Nada de surpreendente, se a crise ou a falta de dinheiro impossibilita as pessoas de estudarem na Universidade, a Casa dos Segredos é uma porta aberta para um possível baú de fama e 50.000 euros. A Casa dos Segredos foi vista por quase 2.000.000 de pessoas e só foram 600.000 à Manifestação no dia 15 de Setembro? Nada de surpreende, é mais fácil ficar sentado no sofá a ver manifestações e reality-shows na televisão do que sair para a rua. As pessoas criticam a Casa dos Segredos, mas mesmo assim vêem o programa? Nada de surpreendente, para se criticar é necessário ter conhecimento próprio. As pessoas vêem o programa, mas não o admitem? Nada de surpreendente, as mulheres também dizem que não vêem pornografia e vêem. As comparações são tão básicas como ridículas, mas o que me surpreende é que as pessoas se deixem manipular pela própria manipulação do programa. Vamos por partes.

 

A Casa dos Segredos é um jogo, por isso lá dentro joga-se e os concorrentes não passam de jogadores. Um jogo é composto por regras já implementadas desde o início que são adaptadas a cada país. Existe uma bíblia que é distribuída pela produção e assim é construído o guião do programa. As pessoas, ao inscreverem-se, relatam TODOS os pontos da sua vida, desde que nasceram até ao momento - onde nasceram, por quem foram criados, onde vivem, com quem vivem, em que escolas andaram, que cursos tiraram, o que fazem, o que não fazem, o que gostavam de fazer, o que gostam de comer, de vestir, como lavam os dentes, como escovam o cabelo, onde é que fazem compras – toda a sua vidinha é varrida a pente fino. Nesta sequência, descrevem os seus possíveis segredos, desde terem implantes dentários, terem três olhos, vinte e um dedos, serem virgens, serem padres, serem traficantes de órgãos ou prostitutas. Todos inventam e descrevem situações banais ou surreais na esperança de entrarem na casa mais famosa do país. Como devem saber, este tipo de programas tem uma estrutura, tem uma lógica, tem um motivo manipulador, por isso a triagem de possíveis concorrentes é estudada ao pormenor. Quero com isto dizer que, desde o início, o Paulo, argumentista do programa e responsável pela equipa de guionistas, já tem preparada a sua story-board – a má da fita, o manipulador, o coitadinho, o casal sensação, a boazona, o atrasado mental, a sonsa, o engraçadinho, a pega, o inteligente, a burrinha e fiquemos por aqui. E depois de estudarem o carisma intelectual (ou não) dos futuros concorrentes, depois de investigarem pormenorizadamente o seu passado e os seus dotes de possíveis jogadores, seleccionam uma lista de pessoas que terão a oportunidade de fazer parte desta trama. São convocados a uma entrevista e informados que poderão ser seleccionados a entrar na Casa dos Segredos, caso respeitem religiosamente as regras do jogo – não podem dizer a ninguém que vão entrar, caso saia alguma notícia na comunicação social antes de começar o programa são automaticamente excluídos, deixam de poder utilizar a sua conta pessoal do Facebook e são vigiados constantemente dias antes de entrarem na casa. Um dia antes de começar o programa, o Paulo vai ao quarto de casa um, no hotel onde estão alojados, e explica individualmente que estratégia vão tomar dentro da casa. Nesse momento, cada um é informado de qual será o seu segredo (sim, porque esta gente escreve tanta coisa na inscrição que só tem conhecimento do segredo escolhido quando o jogo começa) e que comece o jogo.

 

Caso ainda não tenham percebido, é um jogo, por isso todos os concorrentes não passam de jogadores manipulados pela produção. Claro que não deixam de ser eles próprios mas, como devem calcular, para que o jogo funcione e tenha a audiência necessária, é preciso manipular a história desta novela real. Por isso é que os concorrentes são chamados dezenas de vezes ao confessionário, onde lhes são dadas instruções e dicas a seguirem ao longo do jogo. Sim, as gémeas sempre souberam que iam entrar juntas, sim, o ex-casal sabia que ia entrar na mesma casa, sim o casal sabia que teria de fingir que não são casal – e sim, aquela história de ela confiar nele e de ele trair a namorada foi manipulação da produção, foi feito, é um jogo. Toda a gente sabe que só fica na casa quem dá audiência, quem o público gosta, quem realmente cria conflitos, estratégias que dão que falar. É tudo feito, não é novidade, não é surpreendente. É mais do mesmo.

 

O que me deixa estupefacta não é o facto de as pessoas gostarem de ver este tipo de programas, até porque se é motivo para juntar as pessoas e fazê-las rir, que se juntem, que vejam, que comentem. O que me deixa boquiaberta é que as pessoas levem este tipo de programas tão a sério, que lhes dêem uma importância que na verdade não têm, que se chateiem, que se ofendam, que entrem numa guerra de conhecimento sem relevo, sem relevância. O que me surpreende é que as pessoas se deixem manipular na vida real, tal como os jogadores são manipulados num jogo. É tudo por agora.

 

 

Beijinhos, La Bohemie.

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