Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

La Bohemie

Sou uma privilegiada, caramba.

Foi a primeira vez que fui a uma manifestação. Desenhei um cartaz, saí de casa e liguei à minha mãe a avisar. «O que é que a menina vai fazer para a manifestação?», interrogou-me estupefacta. «Manifestar-me, Mãe, as pessoas costumam ir a manifestações manifestar, lutar pelos seus direitos, cada um à sua maneira», respondi-lhe indignada, mas é indiferente explicar a uma defensora do PPM que estou farta das suas burguesias, farta de ver colegas a desistir dos estudos por não terem dinheiro, farta de ver colegas a perder o emprego, farta de ver amigos a perder as oportunidades que sempre tive, os sonhos que continuo a ter. Sou uma privilegiada, caramba. A minha Mãe sempre lutou para manter três filhos num colégio internacional, na esperança de nos dar a melhor educação, proporcionou-nos a oportunidade de estudarmos numa universidade privada, na esperança de nos dar a melhor opção, de vivermos sozinhos, de termos o que vestir e comer. Contribuiu para todos os meus luxos, as minhas festas, os meus convívios, as minhas viagens, os meus cursos e percursos. Sempre apoiou os meus sonhos, ajudou-me a concretizá-los, aceitou a minha saída de casa, viu-me partir porque sempre soube que só seria feliz longe da austeridade do meu pai, das suas proibições, dos seus castigos. Sempre apoiou as minhas opções, ajudou-me a concretizá-las, aceitou a minha saída deste país, viu-me partir um ano para o Brasil porque sabia que lá poderia crescer pessoal e profissionalmente. Sou uma privilegiada, caramba. Hoje consegui o que muitos dificilmente conseguirão ter, hoje tenho o que muitos estão a perder, e isso faz-me sentir ridícula. Por isso, ontem fui à manifestação, nem tanto por mim, mas por todos aqueles que não têm o que eu consigo ter e manter. Já fui criticada e insultada por ter possibilidades de estudar, comprar, viajar e sonhar, fui muitas vezes apontada como fútil por ter o que tenho, mas a minha Mãe incutiu-me valores mais altos, ensinou-me a poupar, a doar, a partilhar, ensinou-me a ser educada, cívica e solidária, vi-a toda uma vida a dar consultas sem cobrar por saber que as pessoas não tinham como pagar, vi-a a oferecer aos outros o que não comprava para si, vi-a abdicar de uma vida para que eu e os meus irmãos vivêssemos a nossa. Sou uma privilegiada, caramba. Mas ontem fui para a rua, com a certeza de que serei uma melhor pessoa, que defenderei muitas mais causas, que apoiarei muitas mais lutas como aquela que vi, senti e vivi ontem nas ruas da cidade que me viu nascer mas não deixou crescer.

 

Não gritei, não berrei, não insultei, mas senti emoção, arrepios no corpo e na alma, caminhei em silêncio, compreendi o sofrimento e a revolta de todos, senti a dor nos braços e nas pernas, vivi o espirito de companheirismo e (des)contentamento colectivo, idosos, adultos, jovens e crianças, todos a lutar de forma cívica e pacífica pelos mesmos direitos, pela mesma dignidade, pelo mesmo respeito. O povo unido jamais será vencido, foi a palavra de ordem desta manifestação, de uma nação unida, sofrida, mas com vontade de mudar um país que é seu, que é nosso. Passámos da geração dos enrascados à geração dos enrabados, caminhamos num trilho cada vez mais turvo e desequilibrado, complicado. Mas a luta começou ontem e tem de continuar. Temos de ser ouvidos, temos de ser vistos, temos de ser compreendidos. O Governo tem de retornar a sua posição, a sua decisão. Deixo as críticas na sabedoria dos críticos, mas não deixarei de fazer parte de um povo que está triste, indignado, revoltado, mesmo sabendo que sou uma privilegiada, caramba.

 

 

Beijinhos, La Bohemie.

4 comentários

comentar post