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La Bohemie

Do fim para o início.

Desde miúda que gosto muito de escrever, tenho uma dezena de cadernos e diários onde escrevia tudo o que me vinha à cabeça, coisas que ouvia, ideias que tinha e depois inventava as minhas próprias histórias – foi assim que comecei a fazer os teatrinhos para a família. Não era muito dada à leitura, confesso. O meu irmão lia muito (hoje lê um calhamaço de 400 páginas num dia a brincar), mas eu não achava piada alguma a bandas desenhadas ou livros de aventura com cinco miúdos a desvendar mistérios.

 

Quando fiz nove anos e transitei para o quinto ano a coisa mudou um bocadinho de figura. O professor de Língua Portuguesa criou um clube de leitura e eramos avaliados consoante aquilo que líamos e escrevíamos – um livro por período, três composições com um tema geral e mais duas com um tema livre. Entrei em pânico. A parte da escrita até achava interessante, agora ler um livro em TRÊS meses? Não podia ser, eu nem sequer gostava de ler, como é que ia conseguir ler um livro d´ Uma Aventura em 90 dias? Eram chatos, aborrecidos, por isso pedi, implorei, supliquei ao meu irmão que me ensinasse a gostar de ler como ele, não fosse eu ter um enfarte logo na parte em que as gémeas Teresa e Luísa descobrem que estão apaixonadas pelo Pedro, o nerd que desvenda todos os mistérios. E é nisto que o meu querido irmão me empresta A Lua de Joana. Abri a última página, li, abri a primeira página, li, e perguntei-lhe de imediato: «A Joana também morreu?» Disse-me que só o saberia se lesse o livro. Rapidamente aparece na história a personagem Diogo, irmão da Marta, a amiga da Joana, para quem esta escreve desde a sua morte. E perguntei novamente ao meu irmão: «O Diogo também morreu?» Não sei se sempre tive aptidão para matar as personagens de todo o elenco, mas estava mesmo curiosa e lá me voltaram a explicar que tinha de ler o livro até ao fim para perceber a história. Já nem sei em quanto tempo o li, mas sei que passei horas a folhear página a página só para saber se a Joana ou o Diogo morriam na trama. E foi assim que aprendi a gostar de ler desenfreadamente, mas também ganhei o péssimo hábito de fazer perguntas atrás de perguntas aos três minutos de um filme “quem é este?”, “eles vão ficar juntos no fim?”, “foi este que matou aquele, não foi?”, “só pode ser este o vilão, tem mesmo ar disso” – acho que cheguei mesmo a ficar proibida de ver filmes ao Domingo na sala com a família.

 

Mas porque partilho eu este texto, perguntam-me vocês. Partilho precisamente por questionarem-me dezenas de vezes a razão de ler os jornais e revistas do fim para o início e a verdade é que nunca o soube explicar, até hoje. Uns dizem que sou canhota, outros chamam-me árabe e eu sempre achei que fosse apenas mania minha, por querer ser diferente dos outros. Mas hoje, ao agarrar num livro, abri na última página e lembrei-me que tinha sido assim que aprendera a gostar de ler - acho que se o fim for intrigante e deixar questões no ar, todo o livro me conquista, ou pelo menos a vontade de o comprar e ler. Se um dia publicar um livro, a ver se me lembro de escrever o fim da história na primeira página.

 

Beijinhos, La Bohemie.

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