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La Bohemie

O tendão de Aquiles.

Oh-valha-me-minha-senhora-da-aflição que eu ando com problemas gravíssimos de comunicação e já não sei o que fazer à minha rica vida. Sim, a rima foi propositada. Mas continuando com o que realmente me importa contar, sempre me orgulhei de saber falar correta e eloquentemente. Desde cedo me elogiaram nas aulas por acompanhar uma leitura rítmica e expressiva, sem falhas, e ainda me ousava em imitar vozes para cada personagem, quando se tratava de diálogos. Não fosse eu ter estudado detalhadamente para os exames nacionais O Memorial do Convento ou Os Maias com a minha querida professora de História e Teatro, ainda estava a dar o Sermão aos Peixes, de Padre António Vieira. Muito por causa do teatro, lia tudo em voz alta, fossem trabalhos de casa, composições ou até mesmo livros. Lia para mim, mas depois repetia como se estivesse a contar uma história para os outros e, muitas vezes, com um lápis na boca para treinar a dicção e a projecção de voz. Ainda hoje pratico estes exercícios nos ensaios das peças de teatro. Quem me conhece sabe que falo alto precisamente por estar habituada a interpretar um texto num teatro com dezenas de pessoas. Mas se nunca mostrei problemas de dislexia, o caso mudou de figura nos tempos que correm. Falo pelos cotovelos, tento contar tudo ao mesmo tempo com receio de perder o raciocínio, invento palavras e depois fico ali assim, meia hora a rir que nem uma perdida. Isto é grave, muito grave.

 

No café, a conversar com a mãe e um amigo.

 

- Eu não tinha paciência para aquilo. É que elas têm todo um ar seboso e rancoroso.

- Rançoso, Mafalda Sofia, qual rancoroso. Rancoroso é o mesmo que odiento, de uma pessoa que guarda rancor e ódio.

- Ai senhores, eu disse rancoroso? Estou parva, é claro que é rançoso, que estupidez.

 

No jardim, a conversar com ele.

 

- A maior indústria cinematográfica é a de Bollywood e não a de Hollywood, Marcelo. A Índia produz mais filmes do que qualquer outro país.

- Sim, a Índia é grande, mas tem muita pobreza.

- Está bem, mas não compares a população dos Estados Unidos da América com a população do Oriente Extremo.

- Do Extremo Oriente, queres tu dizer.

- Opah sim, que estupidez. Troquei-me toda, mas a ideia está lá.

- Vai para aí um extremo de ideias, vai.

 

Na pizaria Casanova, a conversar com ele.

 

- Há dias pedi à minha mãe ameijoas e camarão e ela não vai de modas e faz um paneleirão de arroz de marisco, que só visto.

- É impressão minha ou tu acabaste de dizer paneleirão em vez de panelão?

- Paneleirão? Estás parvo? Achas que eu ia dizer um palavrão desses? Disse panelão, claro.

- Não, tu disseste mesmo paneleirão.

- Epah, se calhar disse. Disse? Oh senhores, isto hoje está muito complicado.

 

E como estes, há tantos outros exemplos que dariam facilmente um lustroso livro de anedotas. Como sou uma pessoa muito envergonhada, costumo ponderar muito o que digo e como digo, principalmente quando me preparo para pronunciar uma palavra que possa ser mais complicada de expressar mas, quando estou com amigos, não meço as palavras e sai-me com cada calinada de fazer doer o tendão de Aquiles durante horas. Valham-me os risos e gargalhadas. E o rímel à prova de água. 

 

Beijinhos, La Bohemie.