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La Bohemie

Isto passa.

a mãe está muito magra

 

Dizia eu inócua, numa tentativa de a incentivar a comer melhor, a descansar mais e a trabalhar menos, com receio que lhe aparecessem rugas e estrias, marcas de uma idade avançada e de um passado perdido entre consultas seguidas de consultas, onde as pessoas gastam fortunas precisamente para perder peso e ganhar uma silhueta como a sua. Quando andava na primária e as educadoras perguntavam-me qual era a profissão da mãe, sentia vontade de responder que era ser Mãe, mas como ainda não sabia dizer fisioterapeuta tão-pouco percebia o que era medicina de reabilitação, ou o que significava estética, dizia que fazia massagens. Só com o tempo percebi que a mãe fazia muito mais que massagens e tratava de pessoas com problemas graves – refiro-me às crianças com paralisias motoras e cerebrais, ou pessoas que perderam a esperança de andar, e não às que vão ao seu consultório pedir para perder dez quilos na esperança de ficarem iguais a si. Porque nunca serão iguais a si. A mãe tem uma docilidade, uma alegria e magia que são cada vez mais difíceis de encontrar na futilidade que se emaranhou no corpo e cabeça das pessoas e, para isso, nem as suas massagens fazem milagres.

 

a mãe está cada vez mais magra

 

Disse-lhe com um sofreado e temível sorriso, numa cincada tentativa de pressão psicológica que só emagrecia ainda mais a esperança de engordar. A mãe ligava-me todas as noites para me ouvir e perguntava repetidamente se já tinha jantado, com receio que também eu ficasse cada vez mais magra. Naquela noite desliguei o telefone e arrastei-me até à cozinha como uma espécie de mandamento, como se cozinhar e jantar sozinha matassem as saudades de uma distância que nos separa há cinco anos. Arranjei delicadamente os ingredientes, coloquei um tacho ao lume e, enquanto o refugado ganhava consistência, fiquei ali parada, a olhar para ele saboreando um copo de vinho tinto – eu nem sei apreciar vinho tinto, mas lembro-me da mãe fazê-lo sempre que cozinhava para nós. Juntei os condimentos, mexi num gesto repisado e questionei-me entre lágrimas e saudades

 

porque é que a mãe nunca me contou?

 

Para si a realidade não conta, a mãe aprendeu a viver num faz de conta e por isso o que não lhe interessa, finge que não existe. Sempre preferiu devolver aos outros a esperança de uma vida do que viver a sua. A mãe podia-nos ter contado antes, talvez tivesse sido mais fácil para mim e para os manos, mas sempre teve esse terrível costume de só contar as coisas boas, como se a sua vida fosse sempre perfeita e a morte não fizesse parte dela, como se os seus pacientes lhe devolvessem a mesma esperança que a mãe lhes dá.

 

isto passa, Mafalda, isto passa

 

Como se um cancro avançado no estômago fosse um anjo negro passageiro, que vem mas não mata. Para si sempre foi mais fácil viver assim, num mundo inventado por si, onde não há traições nem mentiras nem doenças que nos matam e levam para um mundo que não existe. Foi por isso que levou muitos anos até me contar o terror de ver uma irmã a morrer débil e sem forças, em plena guerra do 25 de Abril, em Angola. Foi por isso que me contou que a sua mãe morreu a passear num jardim num dia de sol, porque não me quis contar que teve um enfarte e nunca mais acordou. Depois vi o meu avô a morrer com um cancro nos ossos e a minha avó a quinar para o lado ao segundo AVC, perdi as minhas bisavós sem me despedir delas e quase que perdi a minha irmã, acamada nos cuidados intensivos sem salvação possível para uma doença desconhecida, porque a mãe sempre foi assim, sempre preferiu as mentiras brancas às negras, na esperança que o cancro que carrega no estômago não a mate. Mas há anjos negros que vêm e não vão, ficam até nos estrangular e sugar a esperança de vivermos perto daqueles que mais amamos.

 

isto passa, Mafalda, isto passa

 

Como se eu não soubesse o que é dizerem-me «a Mafalda tem um tumor no útero», como se eu nunca tivesse sentido o medo de ser operada e tirarem-me a esperança de viver sem poder dar uma vida a outros seres também por mim imaginados, como anjos brancos que descem à terra e iluminam-me o caminho e devolvem o sonho de um dia poder ser uma mãe igual a si. Mas no outro dia, quando a mãe olhou para mim e perguntou:

 

estou mesmo muito magra?

 

Dei-lhe a mão, sorri-lhe e disse que isto iria passar, apesar de não estar tudo bem e da morte fazer mesmo parte da vida.

 

Beijinhos, La Bohemie.

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