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La Bohemie

O conforto do silêncio.

Muitas vezes questionam-me se não me sairia mais barato e cómodo comprar uma casa ao invés de arrendar um apartamento hoje, mudar para outro passado um ano e depois outro, móveis para aqui móveis para ali, mudanças hoje e para sempre. O meu primeiro argumento é sempre o mesmo «acho ridículo comprar uma casa aos 22 anos». Validamente poderia dizer que não tenho dinheiro para comprar uma casa porque a verdade é que não tenho, mas acho que se o tivesse não comprava na mesma – ou se comprasse arrendava-a a alguém e tirava partido do rendimento. Não sei se me habituei à ideia das mudanças, se é apenas mania minha ou se se trata da educação tradicional que tive, de casar, comprar casa e construir família, mas não me vejo a comprar uma casa só para mim. Há uns tempos eu e ele conversámos precisamente sobre o facto de vivermos juntos, não agora, não daqui a um mês. Apenas abordámos o assunto, como seria se um dia vivêssemos juntos. E, apesar de pensar muito sobre a questão, tenho a certeza de que se me dissessem «têm aqui uma casa para os dois» eu não sei se conseguiria viver com ele. Não agora. Aliás, esta conversa já lá vai. Sempre fiz parte de uma família com regras muito bem implementadas, com tradições familiares muito vincadas, mas a verdade é que saí de casa aos dezoito anos e estruturei as minhas próprias regras, todos os dias construo um novo caminho face às minhas possibilidades. Aprendi a viver sozinha, aprendi a gostar de viver sozinha, a estar sozinha e a gerir o meu dinheiro, a cuidar do que é meu e não sei se seria capaz de largar tudo isso de repente, por mais vontade que tenha ou não de morar com outra pessoa. Tradicionalmente as pessoas casavam-se muito cedo, compravam casa e rapidamente formavam uma família, asseguravam um emprego para uma vida e eram felizes. Nos tempos que correm, sai-se de casa dos pais cada vez mais tarde, já não se casa e muito menos compra-se uma habitação. Geralmente por questões financeiras. Conheço inúmeros casais amigos que decidiram juntar os trapos, arrendar um apartamento, hoje estão juntos e amanhã cada um vai à sua vida. As coisas são naturalmente muito mais liberais, desequilibradas, instáveis. O que é hoje não é amanhã, podemos ter um emprego que nos paga uma renda este mês e no próximo já não sabemos o que fazer – este panorama está a acontecer com jovens e com adultos, com solteiros e casados, com empregadores e reformados. Os dias de hoje não nos permitem delinear um futuro seguro como se imaginava no passado.

 

Ao fim de dois anos a morar sozinha em Lisboa, fui viver um ano para o Brasil e partilhei casa com dois rapazes espanhóis. Ao início foi um choque, não os conhecia de lado algum e tínhamos de compartilhar um T-3 durante seis meses, com regras, horários, tradições, posturas, culturas e educações diferentes. Como tenho irmãos e habituei-me a ter a casa cheia de família e amigos, pensei que ia ser fácil gerir o meu espaço e o meu silêncio aliado às tarefas, aos cozinhados e às malditas limpezas e arrumações. Mas pensei mal. Uma casa com estudantes de Erasmus é uma verdadeira selva da Tanzânia – uma pessoa quer estudar depois do jantar e estão 10 homens na sala a ouvir música e a beber caipirinhas. Uma pessoa quer tomar banho de manhã e tem de esperar na fila. Uma pessoa quer fazer o jantar e depara-se com uma verdadeira tropa de soldados de volta de uma simples Tortilla. Uma pessoa quer dormir e está alguém a pinar no quarto do lado como se o mundo fosse acabar. Uma pessoa está no seu quinto sono e entram em casa às cinco da manhã a cantar, a berrar e a brindar à vida, ao Brasil e às putas. É uma verdadeira selva. Claro que foi bom ter a casa com amigos, fazer jantaradas e combinar saídas, claro que foi bom conhecer as pessoas que conheci e recebi em casa, claro que foi bom ensinar a cozinhar e aprender receitas diferentes, claro que foram óptimas tantas outras coisas, mas viver numa casa onde a porta nunca se fecha é cansativo. Seis meses depois vivi mais meio ano com outros dois espanhóis da minha idade e a experiência voltou a ser outra. Na casa da frente viviam três portugueses, na de baixo quatros franceses, e nos outros pisos 12 chineses. Não me recordo de ver a casa vazia ou em silêncio. Todas as semanas havia jantares, saídas, viagens, jogos de futebol, entradas e saídas, discussões e gargalhadas, os amigos de uns, os amigos de outros, os amigos de todos.

 

Há dias perguntaram-me porque gosto tanto de viver sozinha. O silêncio. Quando sabemos ouvir e entender o nosso silêncio, aprendemos a lidar com o silêncio dos outros. Quando aprendemos a estar sozinhos, sabemos conviver com os outros. É muito mais fácil termos o nosso espaço e silêncio e quebrá-lo com os amigos do que viver em comunidade e nunca sabermos quando teremos um pouco de sossego. Sempre foi das coisas que mais me fez confusão quando vivia em casa da minha mãe – as discussões de manhã à noite, as birras com a minha irmã, as entradas no quarto quando estava a trabalhar ou a falar ao telemóvel, querer dormir e ouvir a televisão no andar de baixo, querer ver televisão no meu quarto e obrigarem-me a ver um documentário na televisão da sala. E ainda hoje sinto que preciso muito deste silêncio, para escrever, para pensar e reflectir, para trabalhar, para decorar guiões e ensaiar à frente do espelho, de ouvir a música que eu quero e criar as personagens que me pedem. Preciso deste conforto, desta liberdade de acordar a meio da noite e escrever uma crónica sem acordar uma família inteira, de ficar a trabalhar até de madrugada sem que tenha alguém a avisar-me que é tarde e que preciso de dormir. É por isto que gosto muito de viver sozinha, porque tenho o meu espaço, o meu silêncio, o meu mundo.

 

Beijinhos, La Bohemie.

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