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La Bohemie

Independências Dependentes.

Tenho saudades dos meus dezassete anos, sério que tenho. Para mim, foi das idades mais bonitas e especiais que vivi – frequentava o 12º ano e já me sentia grande, acarretava a responsabilidade de entrar na faculdade, a despedida da adolescência, a viagem e o baile de finalistas e o desejo de sair de casa. Foi com dezassete anos que tive a minha primeira paixão platónica; que o meu pai entendeu que já não era uma criança e deixava-me sair à noite (ah pois, que eu era a menina mais velha da casa, tinha de dar o exemplo, e não havia cá saídas para ninguém); que eu preparei a primeira viagem sozinha com a minha irmã e os amigos, o nosso primeiro festival, o nosso primeiro Verão.

 

Depois fiz dezoito anos e a coisa mudou. Saí de casa, mudei de cidade, comecei a viver sozinha, entrei na faculdade e todas as minhas responsabilidades triplicaram. De repente, vi-me a pairar num mundo libertino sem liberdade, numa esfera onde posso fazer tudo o que quero, mas não devo, num universo onde sou dona do meu percurso e só eu decido por onde caminho. Há pessoas que se perdem, há pessoas que se encontram. Eu continuo a perder-me todos os dias para voltar a encontrar-me. A verdade é que nunca estamos bem com o que temos ou quando estamos, queremos sempre mais. E é bom querermos sempre mais, mas também é importante aceitarmos o que nos dão, o que nos tiram, o que ganhámos ou perdemos.

 

Ainda hoje me recordo nitidamente do fim-de-semana em que mudei toda a minha vida para um duplex nas Laranjeiras. As malas, as compras, as limpezas, as decorações e arrumações, os passeios, as recomendações da Mãe, as gargalhadas e o silêncio. O conforto de um último abraço, um beijo, um sorriso. O adeus. Fechei a porta de casa, sentei-me na poltrona e perguntei «o que é que eu faço agora?» Ainda não tinha televisão nem internet e o silêncio que se instalou naquela casa sufocou-me. Chorei compulsivamente e liguei à minha mãe a dizer que não queria viver sozinha. «Agora já está e vai correr tudo bem», disse-me já a caminho do Algarve. Deitei-me e só acordei no dia seguinte. Quando se muda de vida de um dia para o outro o corpo demora a habituar-se e só depois é que a cabeça e o coração aceitam uma nova realidade.

 

Não é fácil estar habituada a viver numa casa cheia de gente e, de repente, viver sozinha e conviver com o silêncio dessa solidão. Estar acostumada a chegar a casa e partilhar com a família as alegrias e frustrações do meu dia e, de repente, entrar em casa todos os dias e não haver ninguém. Habituei-me a ter as refeições prontas na mesa à mesma hora, chegar das aulas e ter o quarto arrumado e a cama feita, ter um beijo ao acordar e ao deitar, levarem-me o pequeno-almoço à cama no fim-de-semana ou passar os dias entre conversas e gargalhadas com a minha irmã e, de repente, perdi tudo isso. Nada. As coisas estavam como eu as tinha deixado. E foi com esta enorme mudança que aprendi e cresci imenso. Aprendi a ter uma casa e ser responsável por ela, a ter rendas e contas para pagar todos os meses, a gerir o meu dinheiro, a saber quando devia ou não sair até de madrugada, a não faltar às aulas só porque sim, a necessidade de trabalhar para pagar esse independência dependente. Havia alturas em que sentia falta de perguntar aos meus pais se podia sair, mas estava por minha conta e tornei-me completamente responsável por todos os meus actos e decisões. Quero mas não posso, posso mas não devo.

 

Aos poucos habituei-me à rotina de Lisboa, as praxes, as galas e as aulas da faculdade, as festas, as novas amizades, as primeiras idas à Ikea, as jantaradas lá em casa e tantas outras mudanças. Em cinco anos já mudei de casa mais de sete vezes, de cidade, de país e continente, de relações, de amizades, de trabalho, de mim mesma. Com o tempo percebi que tinha tomado a decisão certa e que precisava desta nova aventura para crescer, para me perder e reencontrar todos os dias. Costumava dizer à minha mãe que só seria feliz quando um dia saísse de casa, que precisava do meu espaço e da minha independência. Mas a minha mãe sempre teve razão, a minha casa é onde estão aqueles que me amam. A minha felicidade só é verdadeira se for partilhada com aqueles que amo. Amanhã faço 23 ano, vou mudar novamente de casa e, apesar de tantas e tantas mudanças, vou sentir sempre saudades dos meus dezassete anos.

 

Beijinhos, La Bohemie.