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La Bohemie

Eu sou mais Instagram.

Já o disse várias vezes, mas repito: almoçar ou jantar fora comigo não é fácil. Gosto muito do conceito em si, sair de casa, conhecer novos espaços, experimentar pratos diferentes, a envolvência do ambiente, a vista, a música, a companhia, os brindes, as conversas, a sério que gosto. Mas eu detesto comer. Que me perdoem os verdadeiros amantes da gastronomia, mas não gosto. Adoro cozinhar, experimentar novas receitas e aldrabar outras, mas quando chega o momento de comer fico com uma agonia e um aperto no peito tão grande que é uma desgraceira completa. Fico a olhar para a comida e sinto-me logo entupida até ao esófago e depois começo a falar, a falar e a falar, e publico fotos no Instagram e falo mais um bocadinho e ando ali de volta do prato uma eternidade, e inspiro e expiro e a coisa não muda de figura.

 

Quando era miúda comia tudo o que tinha no prato e nem sequer havia hipótese de dizer que não gostava ou que não queria comer mais, que o meu pai servia logo o dobro e não me levantava da mesa sem ter comido tudo. Era um suplício, a televisão era desligada à hora das refeições, o telemóvel ficava sepultado no quarto e a minha irmã sentava-se na outra ponta da mesa para não existir hipótese de me ajudar. Ainda hoje sento-me ao lado do meu pai e à frente da minha mãe por causa das fitas à mesa. Um está logo à cabeceira e pronto para me colocar na ordem, o outro abre-me os olhos como se me fosse comer viva. Mas hoje em dia a estratégia é diferente, já estou quase do tamanho deles e não me podem obrigar a comer, por isso, arranjaram a arma todo-supre-poderosa que eu detesto: a pressão psicológica. E estou demasiado magra, e pareço uma anoréctica no corpo e no cérebro, e qualquer dia desapareço, e os homens gostam é de carne, e estou branca, e estou feia de tão magra, e bla bla bla wiskas saquetas. A minha mãe liga-me todos os dias a perguntar se já almocei, se já jantei, se já comi e interroga o que comi, e quanto é que peso, e quanto vale a massa muscular e como estão os valores da glicemia, e bla bla bla wiskas saquetas outra vez. É uma tortura e lá tenho que lhe explicar que sim, que como, que não sou anoréctica nem diabética e que peso mais do que ela – com este argumento ganho sempre – e que apenas não gosto de comer.

 

Na sexta-feira fui jantar ao Restô do Chapitô. É dos espaços que mais aprecio em Lisboa, mas nunca sei ir lá ter. Tentámos uma mesa com vista para o rio, mas acabámos por ficar perto do bar. Pedimos duas cervejas, a carta e eu ligo imediatamente o Instagram. E começa o drama – olho para as entradas, depois olho para as carnes, passo os olhos pelas saladas e massas, mas permaneço nos peixes. Volto a olhar para as entradas, depois para as carnes e avisto as sobremesas. Desisto, pouso a carta na mesa e vou ao Twitter.

 

- Já decidiste o que vais comer?

- Não, estava só a ver a carta. (eu gosto muito de ver as cartas dos restaurantes)

- Mas sabes o que queres comer?

- Ainda não. Já escolheste o vinho que vamos beber?

- Não, isso depende do que queres comer.

- Mas eu não sei o que quero comer.

- Apetece-te peixe ou carne?

- Não sei, tanto me faz. O que vais tu comer?

- Estava a pensar no fondue para os dois, o que te parece?

- Assim que vi o fondue pensei logo que o ias querer.

- Eu estou indeciso entre a picanha e o fondue.

- Se escolheres a picanha tenho de ver o que peço para mim.

- Mas apetece-te fondue?

- Sim, por mim pode ser. O que vamos beber?

- Não sei, tu não gostas de tinto…

- Nah nah nah, eu gosto de tinto, não sei é escolher vinho tinto.

- Mas preferes o verde ou o branco.

- Mas se vamos comer carne…

- Já decidiste que queres carne?

- Então não vamos comer fondue?

- Não sei, foi uma hipótese.

- Eu como qualquer coisa, já sabes.

 

Eu sou terrível a escolher comida, nunca sei o que quero ou o que me apetece jantar, porque eu não gosto de comer. E fico ali paralisada a olhar para a carta à espera que alguém decida por mim, quando não olho para o prato dos outros para me elucidar de vez. De repente vêm as cervejas, aconselham-nos as entradas e o vinho, escolhemos o fondue e arranjam-nos uma mesa com vista para o rio. Já estou toda entretida com o Instagram e as vistas quando nos servem as chamuças. Sou extremamente alérgica a picante, por isso fiquei pela cerveja. Entre conversas e gargalhadas, tivemos de trocar novamente de mesa porque precisávamos de espaço para todo o arsenal do fondue. Prato com frutas, prato com carne e molhos, prato com batatas e legumes, copos para aqui, telemóveis para ali, velinhas acolá. A empregada dizia que ele tinha ar de vendedor, eu de decoradora, eu fotografava com o Instagram, eles riam-se de tudo e mais alguma coisa, eu escolhia a cor dos palitos da carne, ele usava apenas um. Há muito tempo que não comia fondue e lembro-me que era daquele tipo de pratos que dava sempre origem a um a atmosfera divertida à mesa, cada um tinha o seu palito, fritava a sua carne e preparava-se o jantar em família – faz-me lembrar os tempos em que assávamos marshmallows nos acampamentos. E é por isto que eu gosto do conceito de ir jantar fora – o ambiente, as conversas, as gargalhadas, as pessoas que conheço – mas não me obriguem a gostar de comer, porque não gosto. Eu sou mais Instagram

 

 

 

 

Beijinhos, La Bohemie.

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