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La Bohemie

Liga-lhe.

Não sejas orgulhosa. Agarra no telemóvel e liga-lhe, não tens nada a perder. Diz-lhe que tens saudades dele, convida-o para jantar, dividam uma garrafa de vinho e partilhem uma noite de conversas soltas e perdidas. Falem do que ainda não falaram, dos erros, das feridas feitas de saudades, dos encontros e desencontros, conversem sobre os medos e frustrações, das palavras infelizes e atitudes insensatas, digam tudo o que ainda não disseram. Se ele não atender, deixa-lhe uma mensagem, tu sempre preferiste enviar mensagens a ligar. Escreve-lhe uma mensagem a dizer que queres estar com ele, que precisas de estar com ele. Mas não te estendas nas palavras porque os homens nunca percebem o que queremos dizer nas entrelinhas.

 

Não sejas teimosa. Agarra no telemóvel e liga-lhe. Hoje, agora. Amanhã pode ser tarde demais. Hoje estás aqui e amanhã já estás numa qualquer carruagem de um comboio sem destino, que tu és menina para fazer as malas e pores-te a andar daqui pra fora sem dizer nada a ninguém. Não sejas estúpida, agarra no telemóvel e liga-lhe, antes que alguém ligue por ti. Diz-lhe que vegetaste em silêncio porque a mágoa é enorme e que é preciso viverem essa paixão até ao fim porque o que importa é o que vocês sentem aqui e agora e não amanhã ou depois. Eu sei que ele te vai atender e que te vai ouvir, eu sei que ele te vai entender e apoiar. Ele ainda gosta de ti, mesmo que já não confie em ti, tu sabes que ele ainda gosta de ti, como tu vais aprender a gostar e a confiar nele quando a vida vos obrigar a viver esse amor.

 

Não sejas vacilante. Agarra no telemóvel e liga-lhe. Não peças desculpas, não supliques nem lamentes que essas merdas nunca servem para nada nestas alturas em que a dúvida e o medo se apoderam do corpo e da cabeça. Fala com ele de peito firme e coração aberto, diz-lhe que o queres ver, chora se for preciso, mas não sejas melodramática e não e lhe mostres medo, porque o medo é o maior inimigo do amor. Tens de ser firme, pede-lhe que te diga se sim ou sopas, pede-lhe que te diga não, mas pede-lhe uma resposta para o teu coração. Diz-lhe que também tens algo a dizer e que mais vale saberes que acabou tudo do que viveres com as dúvidas a pairar no ar, como fazes com as bolas de fumo dos cigarros que fumas enquanto vês a vida a passar. Explica-lhe que é mais confortável chorar a tristeza de um amor perdido e esquecido do que sonhar com um consolo que se transformou numa ilusão. Sabias que é preferível desiludires-te do que viveres eternamente iludida?

 

Agarra no telemóvel e liga-lhe, minha parva. Liga hoje, amanhã e depois. Liga as vezes que forem precisas até conseguires uma resposta, o sossego de uma certeza, mesmo que essa certeza não seja a que queres ouvir. É um suplício, um sacrifício inútil, uma promessa involuntária, mas liga-lhe. Não fiques aí deitada no sofá a pensar nas palavras que precisas de escrever, à espera que te tragam respostas porque este amor é vosso e têm de ser vocês a vivê-lo e não podem deixar que o vivam por vocês, enquanto pensam em sentimentos que precisam de ser vividos e não pensados. Não podem deixar que decidam por vocês todas as dúvidas e as incertezas que pairam nesse ar que vos seca a garganta e sufoca a alma.

 

Agarra no telemóvel e liga-lhe. Diz que que gostas dele, pede-lhe um abraço, dá-lhe um sorriso, troquem olhares, partilhem beijos, sussurra-lhe que nada é impossível quando o que querem é verdadeiro e correcto. Liga-lhe e diz qualquer coisa e se não souberes o que dizer, diz-lhe tudo o que acabaste de escrever.

 

Beijinhos, La Bohemie.

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