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La Bohemie

Oh Menina...

23 anos é aquela idade em que se sai da faculdade de peito erguido, com a cabeça cheia de sonhos e ideias feitas, é tudo ou nada, é bom ou mau, sim ou sopas, preto no branco e os cinzentos são coloridos.

 

oh menina não fique triste, olhe que ainda não tem idade para sofrer.

 

Não existem idades certas para amar e sofrer. Vive-se numa dependência que alimenta os sonhos que nos impede de viver. Existem actos de insanidade que se gravam na memória e nos perseguem para toda a vida, como a quem o destino inflige um sofrimento violento, inesperado e inexplicável.

 

oh menina, a vida continua.

 

Arregaçamos os braços ao pouco que sobrou da vida e congelamos o coração com medo que se parta em bocadinhos como se quebram os copos de vidro que nos saciam a vontade de viver.

 

oh menina, mas espere, não desespere.

 

O desespero transcende a espera, as batidas do coração fazem um constante e monocórdico tic-tac como os ponteiros do relógio que estão fechados e mobilizados, suspensos por uma eternidade indefinida à espera que alguém os solte.

 

oh menina, mas aproveite o que ainda não aproveitou.

 

Batalhamos dias após dias, trabalhamos contra um tempo gasto e perdido, olhamos para o relógio, vemos as horas passar e contamos os minutos que faltam para chegar, desejamos partir o mostrador de vidro e devolver aos ponteiros a liberdade que nos condenaram, que nos roubaram.

 

oh menina mas esqueça o que já passou.

 

A hora chegou, o comboio passou e perdemos a última viagem, a última oportunidade de fazer parar os ponteiros do relógio antes da despedida, desalinhada e perdida numa carruagem que desliza sobre os carris cada vez mais depressa.

 

oh menina, é melhor assim, ele não a merecia.

 

Ninguém merece viajar num comboio que descarrilou numa linha sem estações, num caminho longo e penoso que nos parte a cabeça e esmarra o coração, o peso das memórias espalhadas nos destroços de uma vida desmantelada.

 

oh menina olhe que eu sei o que é sentir essa dor e não compensa o desamor.

 

Não faz mal, dói um bocadinho mas depois limpa-se a memória e apaga-se a dor, aquela que nunca ninguém viu, para alimentar outra vez o olhar, aconchegar o coração e sentir a vida que não se viveu.

 

oh menina, mas tente, não lamente nem se ausente.

 

Segue-se a viagem até ao fim do nosso próprio mundo, devolvemos a alma cansada e despejada, trocamos os ponteiros do relógio e ouvimos um novo tic-tac.

 

 

Beijinhos, La Bohemie.