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La Bohemie

O flirt é (ou não) traição?

As ideias e opiniões são tantas que chegam a ser contraditórias e há quem possa confundir os conceitos. Antes de mais é preciso saber que um flirt é um jogo de sedução e inteligência, uma espécie de savoir faire, portanto quem acha que um flirt é uma mera troca de olhares ou sorrisos esporádicos, uma piada ou um piropo está enganado. Isso, todos nós o faz por uma questão de simpatia. É importante sermos francos – um pensamento é diferente de um acto, assim como um devaneio é diferente de uma acção. Uma coisa é olharmos para uma pessoa e achá-la interessante e atraente, sentir uma qualquer vibração física e momentânea. Outra coisa é tentá-la, dizer-lhe que está a provocar em nós um misto de excitação com prazer, persuadi-la na esperança de receber um feedback que nos faça sentir igualmente atraentes. Todos nós já nos imaginámos a beijar o Johnny Depp ou a Gisele Bundchen, já pensámos como seria seduzir o professor de Biologia ou a professora de Matemática, mas isso não é um flirt, é um fetiche.

 

O flirt é como o jogo do “toca e foge” que é o que, normalmente, falta nas relações estáveis e duradouras porque tocou-se e não se fugiu. Todos nós já passámos pela experiência do flirt, comprometidos ou solteiros. O flirt sem intenção de finalizar o jogo é uma traição a nós próprios e apenas demonstra falta de confiança, auto-estima e por isso necessitamos de nos sentir interessantes e atraídos por terceiros. O flirt é um engate e se este é, para quem o faz, um simples jogo ou uma forma de alimentar o seu ego e auto-estima, esquece-se que pode ser uma grande desilusão para o companheiro, por se sentir inapto e incapaz de alimentar todas essas necessidades. Há uma diferença entre motivação e obsessão.

 

Não existem flirts inocentes. Ponto. Sermos simpáticos com o senhor do café para pagarmos o chocolate só no dia seguinte ou sermos engraçados com o segurança do bar para nos deixar entrar não é um jogo de flirt, é apenas um manuseamento, um acesso para conseguirmos algo facilmente. O flirt obriga que haja troca de sinais interesseiros, troca de palavras tentadoras, subentendidas – é um jogo de sedução entre duas pessoas, seja virtual ou fisicamente. Eu não digo a uma pessoa que quero conhecê-la ou que desejo sentir o calor dos seus lábios inocentemente. Tem de haver instinto e intenção. O flirt implica desejo e emoção e são esses pontos que devem ser procurados e estimulados dentro de uma relação e não fora dela.

 

Isto é um exemplo de flirt: «Olá loiraça boazona. Essa mini-saia que trazes vestida está a deixar-me doido», «Então e quando é que nos encontramos para te encostar à parede?», «Eu estou desejoso de provar os teus lábios. A questão é se tu queres provar os meus». Imaginem se o vosso companheiro dissesse isto a outra pessoa. Não sentiam uma falta de respeito? Não se sentiriam traídos? Incomodados?

 

O facto de estar numa relação e lembrar-me ou pensar num qualquer momento que passei com um ex-namorado não é um acto de traição, é apenas uma lembrança e todos nós as temos, sejam saudáveis ou não. Contudo, se começar a pensar num ex-namorado todos os dias, se desejá-lo e dizer-lho já é um indício de que há um sentimento de saudade, uma vontade de estar, um extinto que me alerta para o facto de não estar bem com o meu relacionamento e com os meus sentimentos. Estarmos com alguém e sentirmo-nos atraídos ou pensarmos regularmente noutra pessoa é uma traição involuntária e poderá ser um sinal de que a relação está a cair num desgaste perdurável e de que nos envolvemos emocionalmente por outra pessoa – o chamado emotional cheating. O emotional cheating ou flirt é a manifestação de qualquer necessidade ou desejo de um afastamento ou ausência do relacionamento primário sem deixá-lo definitivamente. É o chamado “vou só beber um café com a Vanessa e meter um pouco de `conversa´ mas venho dormir a casa”.

 

Uma pessoa perguntou se há alguém que tenha assim tanto autocontrolo sobre a sua mente ao ponto de beijar uma pessoa e não pensar em nada? Isso não é controlo, é falta dele. Uma coisa é estar a beijar o meu namorado durante cinco minutos e lembrar-me, de repente, que tenho o tacho ao lume, outra é estar a namorar com ele e pensar constantemente se os beijos de um colega da faculdade serão melhores.

 

As opiniões divergem, mas não acho saudável existirem casos de flirt no início de uma relação porque é justamente o começo de algo bonito, de um instinto, de um amor, paixão, sentimento platónico e arrebatador. E se não sentirmos tudo isto no princípio, não acredito que se venha a sentir mais tarde. Por outro lado, se se sente todas estas sensações não há necessidade de procurá-las noutras marés. Alguém disse que quem considera o flirt uma traição são aquelas pessoas que mais têm a esconder, as mais inseguras, as mais possessivas e maníacas pelo controlo. Discordo totalmente, porque as pessoas entram em jogos de flirt exactamente por sentirem necessidade de sustentarem a autoconfiança e o alter-ego. Quem se sente seguro consigo mesmo e com a sua relação, não precisa de o sentir com terceiros. Enquanto solteira adoro o flirt e se o souber utilizar a meu favor torna-se até um jogo bastante divertido, porque faz-me sentir acarinhada, atraente e confiante. Estarmos sozinhos e sabermos que, ainda assim, despertamos nos outros qualquer tipo de interesse é óptimo. Todos nós gostamos de nos sentir desejados e admirados. Contudo, se estiver numa relação que me faz sentir feliz, segura, desejada, realizada e amada, não vejo nem sinto necessidade de mo sentir por outras pessoas só porque é divertido. Se quero diversão, levo o meu namorado a um parque de diversões – posso inclusive entrar em jogos de sedução com ele. Quantas vezes não saí do banho e enviei-lhe uma fotografia do meu peito e recebi como feedback uma mensagem a dizer que estava doido no trabalho. Isto é um flirt. Quantas vezes não enviei uma fotografia com a lingerie que o esperava em casa e disse-me que estava desejoso de vir ter comigo? Isto é um flirt. Mas é um flirt comigo e não com outras e se for esporádico, se não se tornar a regra e sim a excepção é bom. Se for apenas mais do mais, eles vão querer sempre procurar impulsos novos e diferentes. Perguntei a várias pessoas se o flirt é ou não traição e as respostas foram várias, sim, não, mais ou menos, depende do que a pessoa entende como flirt e traição, depende da pessoa e do tipo de relação que mantém, depende dos sentimentos da pessoa, depende das intenções da pessoa. Há quem ache que o flirt é uma traição tripla porque engamo-nos a nós próprios, ao nosso companheiro e a quem é alvo do mesmo e há quem diga que o flirt pode não chegar a ser traição, mas que não deixa de ser uma falta de respeito.

 

Todos nós já passámos pela experiência do flirt, comprometidos ou não, sabemos o que é e como nos faz sentir. Há flirts perigosos. Há pensamentos perigosos. Há desejos perigosos. E se as pessoas não se deixam levar pelo flirt é para não perderem outra coisa qualquer mais importante, ou seja, auto-impõem isso a elas próprias, se não o fazem é porque existem forças exteriores a contrariar essa vontade.  Se são traição? Cada um há-de ter a sua opinião, mas são indícios de que algo não está bem, seja connosco, seja com o outro. O perigo do flirt está na sua intenção. Quando acontece connosco, conhecemos os nossos intuitos e sabemos se são sérios ou se não passam de um devaneio momentâneo e que nada coloca em causa o que sentimos pelo nosso companheiro. O pior é quando o flirt passa-se com a outra pessoa porque, por mais que confiemos nela, nunca saberemos exactamente a intenção da mesma, o não sabermos até que ponto esse flirt pode ou não ir mais além e, principalmente, não sabermos se estão em causa os sentimentos que o nosso companheiro tem por nós. E nunca o saberemos porque das nossas intenções sabemos nós.

 

Conheci o J. no ano passado numa rede social e foi com ele que tive precisamente o meu primeiro flirt, virtual e físico. E, embora hoje seja comprometida, quando comecei a escrever este texto perguntei-lhe de imediato se achava o flirt uma traição e respondeu-me «é traição, mas no tribunal não vale nada. No tribunal só conta o dna que o csi encontra». A frase pode ser irónica e ridícula, mas tem o seu quê de verdade. Eu posso saber ou achar que o meu namorado anda em jogos de flirt com as colegas do trabalho mas não tenho como lá ir tirar as provas. O meu namorado pode passar a vida a trocar mensagens e e-mails com alguém que nunca o saberei, ou seja, sei que ocorreu o crime, sei quem é o criminoso, mas nunca terei a prova para o comprovar – as invasões de privacidade ficam para outro texto. O J. deu-me ainda outro exemplo «Mafalda, tu podes trocar mensagens comigo em que falamos de sexo mas, se em vez de mensagens te tocasse à porta o que te apetecia? Ias-me impedir que te beijasse? Pensa na resposta…está lá a tua resposta». Pensei. E repetiu «Estou a ir agora para aí. Estás em casa, não estás? Vou aí falar sobre isto contigo». Algures entre o travessão e o ponto final. «Mafalda, eu não vou aí mas reflecte sobre o que sentiste. Pensaste na roupa que tinhas? Se a cama estava feita. Se íamos estar no sofá»

 

Foi o exemplo do J. que me fez reflectir muito sobre o assunto e tirar as minhas próprias conclusões. Acredito que haja espaço para tudo dentro dos limites do bom senso. Num esquema sistemático e mental, acho que para existir traição é necessário que o outro procure sensações físicas e psicológicas noutras pessoas. Se o flirt consiste precisamente num jogo entre o desejo físico e psicológico com outra pessoa, o flirt (ou engate) é uma traição, é uma infidelidade. Contudo, para mim, a grande questão é: saberemos lidar com essas constantes traições ou jogos de flirt mesmo que nos sintamos felizes e desejados numa relação? Teremos coragem e confiança suficiente para navegar neste barco com rumo e maré? Esta é a minha grande questão que dará tantas outras reflecções sobre a dolorosa traição.

 

Gostava muito de ler as vossas opiniões sobre este assunto.

 

 

Beijinhos, La Bohemie.

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